“MARIGHELLA” (O LIVRO) – UM BRASILEIRO NA CONTRAMÃO DA HISTÓRIA

Nov 9, 2013 por

“MARIGHELLA” (O LIVRO) – UM   BRASILEIRO  NA CONTRAMÃO  DA HISTÓRIA

 

 

“MARIGHELLA” (O LIVRO) – UM BRASILEIRO

               NA CONTRAMÃO  DA

                            HISTÓRIA (*)  (I/II/III/IV)

                                                                                                                                                         

                                                                                          (Redação)

                                                                             

    MARIGHELLA E A POLÍTICA BRASILEIRA 

                  O livro “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo ,“( de Mário Magalhães, Melhoramentos,RJ,2012 ) contém exageros e excessos . A começar pelo título – Marighella (1911-1969) não chegou sequer a incendiar o Brasil , muito menos o mundo. Ao contrário, ele e seu grupo”incendiaram” a si próprios e pouco à “ditadura militar” ou à estrutura econômica ou política do país.Talvez, em sentido contrário, embora não intencionalmente, tenham concorrido para solidificar apoios à ditadura, que teria encontrado pretexto adequado para aumentar a repressão e ganhar tempo .

               “Incendiaram” também antigos membros do “partidão”(como era conhecido, então , o Partido Comunista , com bom número de quadros, antes das divisões e fracionamentos) , jovens estudantes , simpatizantes, velhos simpatizantes do comunismo , que a ele aderiram . Boa parte , em especial os dirigentes , foi presa, torturada e/ou assassinada pela ditadura militar, alguns estando “desaparecidos” , até hoje, outros tendo rumado para o exílio, voltando muito mais tarde ao Brasil .Ou sequer voltando . 

                    É fato que incendiaram , ainda, alguns postos de gasolina, entre outros alvos, e uma parte da esquerda de diversos países .Mas, em termos de discussões teóricas, o que não pretendiam, e o que Marighella detestava, ao menos nessa sua nova fase. Aliás, tal ocorreu mais em razão da divulgação do seu livreto “Minimanual da guerrilha” (um sucesso), do que por sua efetiva ação . E também , naturalmente, por conta dos contatos internacionais ,que tinha estabelecido, através de Cuba, com comunistas de todo o mundo , especialmente do antigo bloco “socialista”, e partidos comunistas e seus simpatizantes, de países com democracia mais estável, caso de França e Itália.

                 O grupo dele , atuante em especial nos anos de 1968 e 1969, quando foi tocaiado e assassinado , chegou a conseguir, através de Glauber Rocha, apoios financeiros e sociais importantes, caso de Luchino Visconti , Jean-Luc Godard e outros. Além do auxílio de artistas como Norma Bengell e Augusto Boal. Todos queriam derrubar a ditadura e confiavam nele e em seu grupo, mesmo sem conhecerem estatutos , programa ou estratégia ou táticas. Que , aliás, eram poucas ou não existiam . Apenas um resumo que poderia ser assim :”Pouca conversa e luta armada . Já.” Por luta armada entenda-se  assaltos, bombas, terrorismo, segundo o próprio  .

               Mais uma vez, na América Latina, apareceria um “caudilho” salvador da pátria , agora mais à esquerda , mudando a história política brasileira e sintetizando sonhos e esperanças? E o resultado, mais uma vez , teria sido negativo, para não dizer desastroso?

                  Marighella recebeu tais acusações, vindas de seus próprios adeptos, que teriam chegado a organizar um abaixo-assinado (Ob.cit.) . Todas essas informações , e questões daí derivadas, ressurgem, atualizadas ,do livro de Magalhães.                                                                                                

                 MENOS CONVERSA – AÇÃO!                                                       

                   O livro trata da vida de Marighella, inclusive familia e origens ,mas  , especialmente, do movimentado período entre 1964 e 1970 ,com o Brasil sob “ditadura militar”. A ação do grupo de Marighella , período entre 1968 e 1970, do nascimento da guerrilha à data de seu assassinato (1969) e de Toledo (1970), seu sucessor(1970)  na direção da guerrilha.

              Os fatos narrados( de responsabilidade dos entrevistados , livros citados e autor do livro )  – e, atenção , neles estamos apoiando estes comentários  – implicam , desde logo, na colocação de antipática questão, que envolve bravos militantes , que arriscaram suas vidas, tendo muitos morrido em ação . Teriam contribuído , ao final das contas , com sua ação quase anárquica , não partidária , descentralizada, não para destruir , mas para solidificar e dar tempo de vida à ditadura militar ?

            A falta de rígida segurança e barreiras à entrada de militantes ,no grupo  , teria implicado em riscos – e possivelmente graves prejuízos? Por exemplo, o autor indica, com provas e fontes, que Marighella achava-se, já em 1968, com um espião da CIA, a seu lado(o italiano Malavasi) , só tendo sido tocaiado, contudo,  em novembro de 1969 . Ao que consta, deliberadamente, a CIA não quis impedir sua ação, deixando-o continuar, praticar atentados e organizar a guerrilha rural. O que leva a pensar se haveria outro objetivo além de mapear  os guerrilheiros.  Seria  ampliar a “situação de perigo” da “elite, ” assustar mais os militares e a sociedade, inventar um inimigo mais forte que o real  , para unir forças contra ele ? Este fato  merece reflexões .

            Com efeito, o líder e seu grupo abandonaram as velhas lições do chamado “marxismo-leninismo” , no qual Marighella e quadros mais antigos tinham sido “politicamente educados” – durante décadas. A começar , pelo “centralismo democrático”, possivelmente abandonado com a intenção de corrigir erros , mas sem conseguirem, na prática, alternativa conseqüente . Depois  , abandonaram  qualquer programa, por menos desenvolvido que fosse, ao alcance do nível político da maioria do povo ; e, finalmente, ao enveredarem, progressivamente , por solitários caminhos , abandonaram a “luta de massas”. As ações armadas passaram a ser objetivo prioritário e imediato(através do que chamaram de GTA – Grupo Tático Armado ), deixadas de lado, aos poucos, todas as  lutas populares .

              A propaganda utilizada , por eles próprios,à época , é elucidativa : “ALN – guerrilheira, terrorista, assaltante” . Esta não era a propaganda da ditadura  contra eles, como , por certo, muitos pensavam e alguns podem ,ainda, pensar.  É a que usavam como identificação. Quando o grupo resolveu adotar tal nome e propaganda, eis que , até então , sequer tinha nome, o que não era considerado importante. Imagine-se o efeito dessa propaganda sobre os “donos do poder” , militares e classe média da época  .Para não mencionarmos as massas analfabetas , vivendo intimidadas e sob o tacão militar ou policial desde as origens da nação .

               Os marighellistas e correntes aliadas teriam contribuído, com sua ação, para  deslocar atenção cada vez maior da repressão no sentido do aniquilamento e dispersão de seu próprio grupo e  das “esquerdas”, em geral ,com os efeitos dessas ações repercutindo até nossos dias? Nao  se trata de analisar   intenções , ou coragem ou generosidade social . Tais pontos estão fora de questão . O que merece reflexão é o resultado político , efetivo,  das ações cometidas  . Teriam ajudado a unir e incentivar reação ditatorial mais forte  contra eles próprios e   seus aliados, em especial por parte dos americanos mentores e  outros setores , militares e civis ?Alguns setores vinham manifestando-se pela “democracia “, o que até transparecia na imprensa , mas , em geral ,  faziam-no nos bastidores.Falavam em volta ao “estado de direito “ .

             Há informações, em livros de especialistas, que havia militares e civis(militares graduados e líderes empresariais  ) , nos bastidores , posicionando-se nesse sentido. Estariam sensibilizados pelas grandes manifestações de massa , em curso, entre outros fatores . Evidente que, a partir de públicos atentados com palavras de ordem como “terrorista e assaltante”, tais manifestações foram ,de alguma maneira, sustadas .Nao havia mais clima para essas posições(pelo estado de direito, democracia, direitos humanos,etc. ) , difíceis de serem justificadas, no meio militar e na elite civil , quando havia terroristas assumidos , em ação, colocando militares e aliados civis, inclusive estrangeiros, em imediato risco de vida .

                O próprio Marighella chegou a declarar-se contra o sequestro do embaixador dos EUA, no Brasil ,  bem sucedido, exatamente por essa razão . Considerava que seu grupo talvez não tivesse estrutura para suportar a repressão que se seguiria . Toledo, após a morte de Marighella , reconheceu que o líder estava certo . A ação desenvolvida(o sequestro) teria contribuído , a curto prazo , para a solidificação da ditadura, através do recebimento de mais auxílio por parte de  aliados e mentores , e aumento da violência, repressão e ,especialmente tortura , contra o grupo e aliados. Parte da sociedade brasileira, que discordava da ditadura , quanto a tortura  e ausência de legalidade e legitimidade, teria ficado mais silenciosa quando confrontada com a auto-apresentação dos próprios guerrilheiros –  “terroristas e assaltantes” .

              Tratava-se de postura pública , atingindo o mais importante mentor e aliado da ditadura, eis que  pregava-se também  “morte aos americanos “,  no Brasil .Palavra de ordem que, aliás,  seria levada à prática.

               A longo prazo,  tal postura poderia ter contribuído, em sentido contrário e de forma indireta (pensemos no jogo de xadrez)  para a construção da “democracia” atual , construída por um grupo ditatorial “vencedor ” da luta armada, mais solidificado , sob as asas da águia americana e os largos ombros do neoliberalismo, em crescimento . De fato, a esquerda armada dizimada, áreas próximas desarticuladas ou liquidadas , democratas acuados,  buscando uma saída- que logo foi apresentada pela própria ditadura(e seus aliados americanos , nos bastidores) – “distensão lenta de gradual” . Dentro dessa linha de reflexão, a repercussão da luta armada, vencida pela ditadura, foi além de seu tempo , chegando, de forma direta e indireta, até nossos dias.

          LIVRO  INFORMATIVO – ANALISAR 

                 

               Informações contidas no livro enfocado  permitem-nos conhecer decisões, ações e contradições. Sempre confiando que sejam informações fidedignas , como o autor e suas fontes garantem. Como Marighella poderia criticar a iniciativa do seqüestro do embaixador americano, que não foi-lhe comunicado , e o desenvolvimento da ação ,  se tal atitude era a defendida por ele próprio  ,no seio da ALN ? Na prática, sua própria crítica ao sequestro é a admissão da existência de  um tipo de  estrutura organizacional equivocada. E tais fatos poderiam repetir-se,  como de fato  aconteceu, caso  do absurdo assalto a uma sorveteria . Perto do fim, Marighella ,assim como Toledo, parecia já ter mais clareza sobre os erros em curso.

               A análise acima estaria equivocada? Em sentido contrário, ao atuar com ações decididas e corajosas contra o regime político ditatorial , teria o grupo da ALN mostrado , aos detentores do poder , as conseqüências e riscos de promoverem o “terrorismo de estado,” levando-os a pensarem numa volta à “democracia” ?

                  Nesse caso, o grupo teria colaborado para reduzir o tempo de vida do regime policial ?

                 O livro expõe, com credibilidade, fatos ocorridos nos bastidores da política brasileira, envolvendo a luta armada e um período trágico de nossa história .Cita ,  meticulosamente, fontes , testemunhas ,etc. em cada fato concreto, página a página. Caso dos acima destacados , o que vai permitir  interpretações e questionamentos fundamentados.  No caso acima citado, o que torna a questão mais séria é : (1) de um lado, havia um estado terrorista, torturador, ilegal, que escondia-se sob a capa de “democracia”, ainda que limitada, etc.

                 Era incapaz de enganar estudiosos isentos, mas capaz de confundir povo analfabeto ou analfabeto funcional ; (2) de outro lado, estava um grupo auto-intitulado “guerrilheiro, terrorista e assaltante”, que ofuscava , por suas ações  (assaltos a bancos,  bombas, assassinatos,etc.) , as demais correntes à “esquerda“, atraindo suspeitas e investigações e prisões para os opositores,quase indistintamente . A atividade violenta implicava em justificar atitude quase “indistinta “da repressão , em relação aos grupos opositores ,mesmo os não armados.  Enquanto isso, o grupo armado  considerava, de forma simplista, que a questão política da “ditadura militar” poderia ser resolvida , sem delongas ou teorias, com imediata luta armada  .Tal  desprezava  a teoria construída à esquerda, durante mais de um século , e discussões políticas clássicas . A ação, e só ela,  segundo o grupo e o líder , criaria e abriria caminhos para a saída de cena da ditadura terrorista . E não seria preciso sequer licença de algum órgão superior ,ou dirigente , para  iniciar  ação armada  ou terrorista. Imagine-se o quanto isso deve ter agradado aos militantes ,em geral,de um lado, enquanto ,de outro ,representava sérios riscos para todos.

Essa era uma “norma”(não escrita, como outras , assinale-se ) bem popular no grupo. Um militante, quando indagado, por Marighella , da razão de não ter sido avisado, previamente, do seqüestro do embaixador americano  , respondeu com essa lembrança. O líder  não teria tido  argumentos para contestar.

             O autor comprova  que até filmes , como “Dillinger”, assaltante americano, serviram de inspiração aos guerrilheiros. Não se inspiravam em livros clássicos,  como “O que fazer?” ou “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”, de Lênin,ou outros.  Muito ao contrário, a leitura deles era tida como reacionária ou perda de tempo . O fato e que, se falho o experimento político em execução, a perspectiva do grupo seria de catástrofe  , capaz de  levar  à liquidação quadros e organizações. O que acabou por ocorrer.

             Muitos entre  os  humilhados, de diferentes maneiras,  pela ditadura militar,foram atraídos pela  proposta do grupo ,  simples , fácil, envolvendo a tomada do poder por  via armada. Sem estudos, sem esperar , ou melhor , organizar .  Sequer seria  preciso discutir  teorias, sequer a marxista , o que, aliás,  os marighellistas recusavam . Bastava o argumento – “não se trata mais de analisar, mas de agir” .Ou algo assim. Os que não concordavam   eram taxados  de pacifistas , moderados ou   covardes, por não estarem dispostos a darem suas vidas pela “causa” .Ou seja,  a sacrificarem suas vidas pela nação brasileira e pelos povos de todo o mundo. Nada de caminhos burocráticos ou  divergências intermináveis ou organização sofisticada .A teoria e o debate deveriam ser não só desprezados como   proibidos . Ação , armada – e já. Sem “papo furado” .

                    A derrota que seguiu-se ( a luta dos marighellistas, embora ruidosa, custou vidas e durou pouco , apenas 2(dois) anos, 1968/1970 ), talvez esteja, ainda, repercutindo , no Brasil de nossos dias . Além do desmonte da própria ALN , a ditadura aproveitou o pretexto (enfrentava perigosos terroristas e assaltantes )  para liquidar não só  os  “guerrilheiros, terroristas e assaltantes “ como outras organizações, quadros , intelectuais , e  até pessoas desligadas da luta armada ou revolucionária – simpatizantes, amigos, pessoas indignadas , com as torturas cometidas. Por esses meios, aliás,  colheu detalhadas informações , e conquistou “espiões” , úteis para sempre, daí em diante . A tortura indiscriminada, covarde e anti-humana, junto com a infiltração desses informantes ,  foi meio eficaz para o  mapeamento da maioria dos partidos, organizações , grupos ,  movimentos . Por certo, foram  identificados  quadros “secretos”, simpatizantes de confiança , meandros das esquerdas, aliados, apoios logísticos. Todos “feridos” ou mortos, de uma forma ou outra. Muitos dirigentes , que não desenvolviam luta armada,  foram mortos antes, durante e depois das torturas, outros incapacitados, para sempre  . O livro comprova o referido, com documentos .Mais fatos e informações conexas podem ser encontradas  em outros livros, e inclusive neste, através da  bibliografia, em especial em relação à tortura.( Usaram métodos testados pelos franceses , na Argélia, e até por Hitler , década 40, caso da tática de produzir “desaparecidos” , com o objetivo de gerar efeitos psico-sociais (insegurança,etc.) , nos sobreviventes vivos(parentes,amigos,etc.).

                Quadros políticos da época  estão vivos, mas ,muitos , alquebrados , limitados psicológica e fisicamente , pelas torturas ou pela idade. Essa situação e o tipo de “abertura democrática ” levado adiante pela ditadura contribuíram ou deram as bases da  “adocicada política neoliberal”,  em voga no Brasil . Tão assumida, como negada pelos que a lideram, em especial , de um lado, PTPMDB e, de outro , PSDB.

             Com o uso de tal termo , “neoliberal” , referimo-nos  ao programa básico , mais tarde sistematizado nas diretrizes do chamado “Consenso de Washington”(encontradas até  no almanaque da editora Abril) .

               Temos ,hoje, no Brasil,  um “modelo político “(donde será que veio  ?) com clara semelhança com o de outros países ,  com alternância de administração entre dois grandes partidos, PT e PSDB .Ambos  dentro da perspectiva do bloco neoliberal dominante,  submetidos ao citado  programa. Lembram os modelos  norte-americano , partidos Republicano e Democrático  ; e  inglês , partidos Trabalhista  e Conservador. Alguns  mais aliam-se a eles, os demais sendo meros coadjuvantes , auxiliando a  “democracia brasileira “.

           Não é difícil verificar o nível de vitória alcançado ,  no Brasil, pelas nações dominantes, o” bloco neoliberal” .   Em que pese terem  tido que recorrer , mais recentemente, por acidente de percurso, a um Lula e suas trapalhadas, tipo “mensalão” e Madame Rose , episódios contornados. O que confunde analistas e permite que os neoliberais melhor disfarcem-se. Os efeitos das ações armadas estão presentes ,no Brasil de hoje, de uma forma ou outra – merecendo análises . Os caminhos “tranqüilos ” da atual “democracia” foram abertos com mortes,torturas,cadáveres, humilhações ,aos poucos substituídas pela corrupção crescente , o que  nao foi casual.

O papel subalterno dos intelectuais, em especial de esquerda ,   no atual momento brasileiro,  também pode ser explicado a partir daí – muitos eram quadros do “partidão”, ou simpatizantes, espalhados pela mídia. Foram mortos, torturados, presos, perseguidos .  Hoje, não existe tal “partidão”, como foco irradiador  tão forte. O  PCB , herdeiro maior do velho “partidão “ , sequer elegeu um vereador,  no Rio de Janeiro(últimas eleições).   Só este fato mostra as dimensões do baque sofrido pela esquerda ,no Brasil, desde  1968, embora tal quadro tenha sido influenciado também por derrotas no exterior .

              Algumas manifestações de rua, que envolveram diversas forças, ou o uso da internet, não alteram tal quadro.Veja-se  a votação de outros partidos à esquerda,nas últimas eleições. Evidente que nao consideramos PT,  PSDB, etc. como “esquerda”, desde que alinhados com o programa neoliberal.

            Há os que argumentariam com “luta pelas diretas”, manifestações de rua , a morte de Tancredo Neves, etc. para alegar vitórias” populares “. Houve manifestações, comoções públicas , presença de massas. Mas,  também era do interesse, e até poderíamos dizer parte  da programação do bloco neoliberal dominante , que o Brasil enveredasse pela “democracia”, o regime “normal” do capitalismo. A compra e venda , o mercado, os consumidores nao podem viver em guerra civil. Já  “limpa”  a área “à esquerda “, após Geisel , chegou -se até a  liquidar os resíduos de terrorismo de direita instalados na máquina militar e policial .

                   Não consta do livro enfocado , mas de outros . Golbery e Geisel foram os fundadores do projeto de  “abertura”,a nível local , planejada pelos teóricos americanos , sob a política da presidência americana . O fato de unirem-se setores democráticos e outros mais à esquerda, nesse mesmo sentido, não altera o afirmado . Ou seja, o controle do processo , pelos mentores estrangeiros e os subordinados nacionais, numa ampla manobra que culminou por envolver grandes massas e lideranças. Nao foi, logicamente,um processo linear, mas avançou, desde o golpe , pela ditadura, luta armada, Constituinte, Tancredo, ,Sarney,Collor, FHC,Lula, Dilma.Basicamente, existiu um fio condutor,  que chega a nossos dias -e a luta armada desenvolveu um papel importante,neste processo.

           Se muitos intelectuais foram mortos, outros destruídos pela tortura, terceiros empurrados para a simples sobrevivência , até pela idade  alcançada, não houve a formação adequada dos mais novos,  com “peso”  – e ,  principalmente,  conhecimento e coragem . Não tiveram oportunidades na medida em que toda uma geração foi  atingida logo ao formar-se nas universidades.                       Muitos sequer chegaram a formarem-se, no Brasil. Ou continuaram perseguidos , por anos , direta ou indiretamente, sem contatos ou carreiras. Uns poucos  conseguiram alçar vôos duvidosos , envolvendo-se  na corrupta política brasileira do dia a dia, ou apenas na busca da ascensão social a qualquer preço ,típica ambição das classes medias e baixas , nesse tipo de sociedade . Com  a opcão de adaptarem-se,  serem esmagados ou corrompidos.  A mídia enveredou, naturalmente, pela “direita” . Velhos e antigos  quadros instalados em redações , rádios , tvs , durante décadas,  quando sobreviventes , foram identificados, abandonaram as organizações ,  interromperam carreiras .

                No novo Brasil, “democrático”, a  tortura e a prisão foram substituídos por cargos comissionados, altos salários , talões de cheque – fatores também condicionantes de posições e análises. Além do mais em relação a sofridos e empobrecidos   sobreviventes.  Acrescente-se o uso (político)da corrupção, em larga escala, quase explícita – arma política fundamental , apontada por Sun-Tsé, em “A arte da guerra”, há séculos.( Se poucos interessaram-se por tal tipo de leitura, com certeza os estrategistas americanos o fizeram) . As consequências da luta armada  estão, pois,  bem presentes no Brasil de hoje. E ela  continua , de certa forma,  por outros meios e em outras condições.

                Até 1968 , as forças contra a ditadura militar brasileira tinham superioridade ideológica momentânea, e até certo equilíbrio político ( tanto assustaram o bloco no poder no Brasil e no mundo  que ele patrocinou o golpe de 1964 ) .Ainda que fosse no que se refere à “opinião pública” e às classes médias em geral, atingindo poucos setores populares , a ditadura ,ideologicamente , estava na defesa . Até pequena parte do campesinato mostrava-se sensível .

                      No campo militar , o oposto – total  inferioridade das forças democráticas e outras . Quase nulas chances de vitória . Acrescente-se –  pela importância do Brasil , para eles,  jamais  os EUA permitiriam ,aqui ,uma derrota militar sem intervirem , ate diretamente. Estavam preparados. Esta é a política deles, ainda nos dias de hoje. Muito menos seria  admitida vitória de um governo “popular e revolucionário” , como estava sendo proposto.Por muito menos patrocinaram o golpe . Essa proposta tinha origem numa avaliação distorcida ,a partir do êxito de Castro , em Cuba,  situação excepcional que, por vezes, a história permite.

                  Ao levar  a luta dos  campos ideológico e político para o militar,  Marighella , o líder dessa proposta ,liderança  que ia além dos limites de seu próprio grupo , sem detalhadas  análises e programa consequente, enveredou pelo caminho desejado e incentivado(?) pelo adversário , que nele tinha  amplíssima superioridade . Teria sido por isso que , durante longo tempo, desde 1968, segundo o livro, a CIA acompanhou  Marighella , mas não impediu sua ação?   A partir do momento em que a luta foi colocada no campo militar , apresentou-se a perspectiva de rápida catástrofe . Que talvez ajudasse a configurar , ao longo do tempo, indiretamente, essa “democracia ” aleijada ,  que hoje vivemos, distorcida, sob o manto do bloco neoliberal dominante. O passado repercutindo  no presente e influenciando rumos .

                        Embora a situação tenha sido escondida ou disfarçada  , espertamente, pelos  vencedores , não há como ignorar o que ocorreu, pós-luta armada, e de alguma maneira relacionado com ela .  Em nossos dias, há ,além da militar,  ampla supremacia ideológica e política do bloco neoliberal. Tão grande que consegue esconder-se , mesmo do povo mais esclarecido , atrás de Lula ,que quase virou mito e herói popular , em que pese suas evidentes falsidades  e fraquezas.  Claro que auxiliado pela mídia  , praticamente hegemônica. Veja-se que  foi eleito , primeiro,  Tancredo Neves ,  convenientemente substituído por Sarney, seguido de Collor , FHC  e Lula, já transformado e cooptado , no Lula que hoje conhecemos . Ao chegar ao topo da administração subordinada , Dilma segue o mesmo caminho . E aqui estamos , resultado de um conjunto de lutas democráticas e tentativas revolucionárias , no Brasil 2012 –  Madame Rose, Lula ,Sarney,Calheiros, Delfim, Maluf, todos embolados, protegendo-se , o neoliberalismo consolidado. Brasil subordinado  –  velho produtor de matérias primas e grande mercado consumidor de …produtos  industrializados estrangeiros.  Ainda durante o processo referido , fora do controle popular , as suspeitas mortes de JK e Jango .

            POETA, JOGADOR DE XADREZ 

              Esses  comentários derivam de fatos expostos no livro em foco,  agora apresentados aos leitores brasileiros , com fontes, testemunhas, entrevistas, isto é, com credibilidade suficiente para que sejam feitas análises apoiadas nele. Se houver quem o desminta , que o faça. E discuta a questão , primeiro, com o autor do livro e com suas fontes e testemunhas. (Quanto a nós, insistamos que nossos comentários apoiam-se nos fatos apontados , provados (várias fontes) , que consideramos verdadeiros. Se não o forem, invalidam as análises ).

           O autor do livro conta que Marighella foi poeta e jogador de xadrez, em especial na juventude. Ora, teria abandonado o  xadrez , ao final da vida , esquecido o que aprendera ,  ou sido levado pelo gênio impetuoso ? Teria precipitado jogadas e brigado com assessores , derrubado o tabuleiro e agredido o 0ponente, sem medir consequências ?

             Aliás, após o sequestro do embaixador , ele bem mediu consequências, mas era tarde demais.  Ou  será que embora soubesse que o ” jogo de xadrez “não era contra os militares brasileiros , mas com o próprio “Império Americano ” ,  não tivesse clara consciência do poder e  métodos por ele usados  ?

            Marighella, solitário ao final, jogava contra o próprio “Diabo “, aquele que destruiu Hiroshima,Nagasaki ,jogou bombas contra lideres divergentes e suas famílias ,usou napalm ,tudo ao arrepio da Lei, da ONU ,da opinião publica . Marighella , com sua notável liderança , lealdade de muitos  e coragem exemplar – não poderia vencer.

                Marighella , cheio de entusiasmo e generosidade, não previu o efeito devastador da tortura praticada pelo regime militar e seus mentores . O que os instrutores americanos e seus aliados locais seriam capazes de fazer com outros seres humanos . Valeu tudo em relação aos guerrilheiros. O livro mostra que o líder achava que a maioria dos guerrilheiros resistiria até a morte – sem falar. Os próprios militantes marighellistas reconheceram  erros cometidos , até por “ingenuidade”, que geraram “quedas” .

                 Só pelo exposto , trazer provas e depoimentos sobre as ações do grupo estudado ,e aliados, o livro de Magalhães seria importante .Descreve comportamentos, de um lado e outro  .  E comprova os fatos narrados, abrindo oportunidade para comentários, como esses . Foram 286 entrevistas , mais documentos, testemunhos, citações . Tem, ainda , adequada bibliografia.

                   Se o autor aguardou quase dez anos de trabalho  para tocar nessas”feridas” , que agora põe à nossa frente,  é porque tem consciência que elas repercutem em nossos dias , podendo fazer sofrerem antigos grupos, parentes, amigos ou vítimas. E ,de outro lado,permitirem reavaliações .

                  A ação do grupo marighellista, aliado, na prática, a  organizações menores, e nomes famosos e históricos como Lamarca (que sofreu  problemas parecidos), produziu , na história política brasileira, nos seus dois anos de violenta militância , repercussão maior que muitos pensam  . Talvez maior, por exemplo , que a  “intentona comunista”,de 1935 , manipulada , política e ideologicamente , durante décadas, em especial nas casernas, com o objetivo de torna-la permanente exemplo da “maldade comunista “,justificativa para repressão  anti-democrática.(Há autores e militantes da época que consideram a “intentona” incentivada por Vargas, serviços secretos do exército brasileiro e inglês  e gestapo, com provas e análises).O que atesta a que ponto chega a luta pelo poder,mesmo numa nação de segundo plano.

                    No caso em análise, os vitoriosos (da alta cúpula )fingem não terem sido tão vitoriosos assim  ; outros pouco perceberam o que ocorreu  ; e terceiros  foram só usados  nas sujas tarefas .  Em geral ,evitam espezinhar os derrotados , diretamente,(embora devam rir, com certas situações)  ;e, claro,sequer discutem ou esclarecem , além do mínimo necessário, a forma como agiram , suas táticas e estratégia. Há até derrotados, em especial alguns  com cargos na administração subordinada e indenizações da anistia (também manipulada ),  que pensam terem sido vencedores – e pior, agem como tais. Brincam, mentem, manipulam tudo isso. Importante discutir tais questões , pois, ultrapassando-se ingenuidade , falsas vitórias, comemorações repetidas de derrotas,  das quais sequer  foram retirados  aprendizados.

               Intelectuais e historiadores brasileiros parecem não terem percebido a importância da recente luta armada na história brasileira, tratando-a como tabu . Ou perceberam, mas inexiste interesse em esclarecer e esmiuçar tal assunto. Existem, ainda,  os que têm maior percepção a respeito  , mas temem debates, críticas , questionamentos desagradáveis . E há os que  bem sabem como manipularam e venceram, junto com seus aliados estrangeiros. Estes estão interessados apenas em esconder , adiar e nada esclarecer. Quem quiser checar, confirmar, ir adiante, tirar licoes , terá que trilhar o caminho da pesquisa e do estudo .Ao contrário do que pregava Marighella. 

               Alguns indagam , atualmente , como que surpresos – por quê  os brasileiros não se indignam com tantas humilhações diárias  ,corrupção, mentiras evidentes   ? Em parte, as respostas estão nos fatos, comentários e  questionamentos acima. No vácuo cultural e político , ocasionado pelas torturas, mortes, perseguições ,prisões , violenta repressão e, após, manipulação da chamada “abertura lenta e gradual “ e da “democracia” daí derivada .

Original não revisado , o que não impede o entendimento. Redação. Continua  – na parte V).

1 Comentário

  1. Ah, é a primeira parte do outro artigo. O cara tinha peito, mas precipitou-se e arrebentou geral . E agora, só elogios ou vai-se criticar os erros? Mel.

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