AINDA SOBRE O LIVRO “MARIGHELLA” (FINAL )

Jan 21, 2013 por

AINDA SOBRE O LIVRO “MARIGHELLA” (FINAL )


         AINDA SOBRE O LIVRO “MARIGHELLA” (FINAL )                             

                                                                                                     (redação)

O livro “Marighella”, de Mário Magalhães , mesmo lançado ao final de 2012, foi um dos destaques da temporada , na seleção de especialistas , pelas informações trazidas a público.Contém informações importantes . Já fizemos comentários sobre várias questões levantadas no livro , sem fugir delas , e uma resenha genérica , em outro artigo : “Marighella – um brasileiro na contramão da história”. (Cf. neste site ). Todavia, face ao grande número de informações, em quase 800 páginas , com centenas de referências, há outros aspectos , que merecem interesse .

Caso, por exemplo , dos contatos entre militares( Gal. Albuquerque Lima) e Marighella, ao arrepio do governo ditatorial(?!) . Contatos que não teriam chegado lugar nenhum e cuja veracidade, parece-nos, teria que ser melhor comprovada . Ou das divergências entre Marighella e Lamarca, envolvidas em acusações e grosserias , uma interessante : …”porras loucas …” , teria gritado um dos lados, palavras usadas nos meios universitários da época, que revelariam , a origem dos militantes envolvidos , universitária ou secundarista.

Outras informações, laterais, importantes – diálogos, projetos de vida, fatos , divergência entre militantes , debates e, destacadamente, formas de atuação do personagem principal e de outros, caso de “Marquito” , um dos ativistas mais respeitados por Marighella.
Se o livro trata, essencialmente, da vida e figura de brasileiro, de caráter , vivendo na contramão de tudo que hoje existe no Brasil – baiano arretado, poeta , homem desprendido, alegre, amoroso, trabalhador , cheio de contradições, líder revolucionário de esquerda , também coloca tramas laterais explicativas e importantes. Um líder que, ao mudar de posição, de certa maneira , em relação ao tipo de teoria e organização em que fora educado , como velho comunista, acabou, talvez , por cometer excessos em sentido contrário . Assim, não da forma que pretendia, teria alterado a história recente do Brasil .Primeiro, de forma direta, ao abraçar, desde logo , a luta armada ; e, depois, de forma indireta, ao ser derrotado , cometendo erros e contradições , que o livro evidencia – e que repercutiram em nossa história política .

Na ALN, da qual era coração e mente principal , atuou pregando posição anti-partidária, anti-teórica , voluntarista – as ações de seu grupo , mesmo envolvendo terrorismo , independiam de qualquer autorização ou direção superior , como já referido , aspecto que merece ênfase pelas conseqüências decorrentes.

Houve atos inadequados , que chegaram ao próprio conhecimento do líder – por ele reconhecidos . Imagine-se a dificuldade dos antigos quadros do velho “partidão “ em atuarem da maneira proposta , oposta a tudo que aprenderam . Na prática, protegiam-se, talvez , através dos velhos hábitos de clandestinidade , ao caminharem apoiados em regras de segurança e outras, assimiladas no passado . Só a revolta com diversos erros e métodos do velho partido comunista , e o grande prestígio de Marighella e outros líderes, além da situação internacional (o aparecimento de Cuba , com a vitória de Castro, provavelmente, superestimada e mal analisada ) podem explicar tamanho fracionamento do velho partido e adesão à proposta dissidente. Isto além de carga emocional forte e revolta contra os atos da ditadura militar.

Quase ao final da vida, sentindo a decadência da luta e os problemas de seu grupo , tornou-se Mariguella uma figura quase solitária na direção de seu grupo e até na tomada de pequenas decisões . Acuado , sem recursos , apoiado nos amigos mais chegados e até em familiares , sem segurança maior, acabou vítima da própria ausência de segurança e da não organização mais rígida de seu grupo, o que defendia. Só a pena de morte, levada a sério , não seria suficiente para garantir firmeza ou não delação, ou erros graves , principalmente frente à espionagem e às torturas empregadas. Talvez tivesse em mente, de início, não a nova situação imposta pela ditadura que enfrentava, mas a anterior (Vargas) , quando estivera na Ilha Grande , repressão talvez menor e menos sofisticada do que a que agora enfrentava.

Mariguella era um líder que pregava virtudes e ações que estavam longe de serem suas especialidades. Por exemplo – não era bom atirador , sequer andava armado , não tinha arma ao ser tocaiado, não dirigia automóveis . Ao contrário do postulado em seu próprio manual de guerrilha . Isto era um provável fruto da educação política recebida no velho partidão . No dia a dia , recorria a hábitos e comportamentos, em parte salvadores que só poderiam ter sido adquiridos naquele partido.

Ao contrário do que talvez pensasse , os êxitos iniciais que conquistou tiveram base , de um lado, na certa surpresa da ditadura (parcial , pois agentes de informação acompanharam o desenvolvimento da guerrilha. Agentes identificados , porque podem existir outros não descobertos). Sua ação apoiou-se no trabalho de quadros oriundos do velho “partidão”, do qual fora dirigente ,conhecendo boa parte de sua estrutura .

Com Mariguella, na liderança, estiveram bem formados quadros políticos , “construídos” através dos anos . Na prisão , na Ilha Grande, um aprendizado , com ele estiveram nomes como Barata, Moreno , Pedro Motta Lima e outros. O próprio Mariguella era discípulo destacado da organização comunista , exemplo de teoria e prática atuantes, descendente da escola do velho PC baiano , dirigente regional na Bahia , 1934 . Era ex-aluno do famoso Ginásio Bahia , por onde passaram, na mesma época ou em épocas diferentes, um Gorender, os Grabois , entre outros líderes comunistas , e , depois , do lado oposto, líderes como ACM e João Falcão.

O livro possui longa lista de depoimentos, alentada e selecionada bibliografia , grande número de páginas – 732 . O autor, ou o editor , poderiam , tratando-se de livro apenas sobre “Marighella”, reduzir , ao menos pela metade , o número de páginas . Ao não optarem por tal , não quiseram privar o leitor de fontes e informações laterais. Que julgaram importantes.

De outro lado, Magalhães fez bem em alongar-se , afastando-se um pouco do objetivo central, a vida do próprio líder esquerdista . Com isso , enriqueceu o livro e permitiu que fossem-nos dispostos mais dados e pesquisas sistematizadas . Se longo em alguns capítulos , como quando detalha dons poéticos e exemplos das poesias de Marighella ,ou narra tramas laterais , ainda assim colabora para ilustrar o trabalho e amenizar questões apimentadas, que envolvem o cerne do livro – torturas, mortes, perseguições, infiltrações, delações.

Marighella morre e, afinal, tempos depois, é enterrado, em Salvador, cercado de velhos amigos , recebendo saudação de Jorge Amado : (…) _”Aqui estás e todos te reconhecem como foste e serás para sempre : incorruptível brasileiro , um moço baiano de riso jovial e coração ardente.”(…)

Apesar dos pesares , e contradições e erros políticos cometidos , o baiano arretado terminou dono de seu destino .Sem qualquer arma , ao procurar cápsulas de veneno, numa bolsa, policiais a seu redor, empunhando armas , provavelmente conseguiu o que desejava – que atirassem nele, para que não fosse preso e torturado . Como pretendia, eis que avisara aos companheiros – não seria preso vivo . Ao procurar a bolsa, que não continha arma, provavelmente procurou a morte.

Natural que os policiais pensassem que estava buscando uma arma e não uma cápsula de veneno .Se a previsão de morte era parte dele, há tempos, pôde escolher o momento . Queria morrer em ação e ter morte digna de guerrilheiro .Conseguiu-o . Realmente, difícil conceber um homem como Marighella morrendo em casa , ou num hospital, de infecção generalizada , cercado da mulher , filhos e netos.
O livro de Mário Magalhães confirma que, do outro lado, na perseguição , havia policiais drogados e desequilibrados .A própria conversa deles, reproduzida , é reveladora . A ditadura teve que recorrer, em muitas situações , à escória policial , para resolver dificuldades.

Fleury, torturador e assassino sem escrúpulos, drogado, mancava durante a operação , segundo o livro, eis que costumava injetar drogas na coxa. O “velho Brasil” , o estado brasileiro atrapalhado, “patrimonialista”, deformado, corrupto e corruptor,subordinado e dependente , esteve presente na vida e morte de Mariguella , acompanhado pela CIA , e tocaiado por policiais brasileiros despreparados e até drogados – o que é revelador . Uma mostra e resumo de quem seriam os construtores da ‘democracia” que sucederia a ditadura , resultado da “distensão política lenta e gradual “ , patrocinada por Golbery e seus aliados americanos. Com efeito, a anistia que depois apareceria acabaria por contemplar todos , os mais corruptos e indignos torturadores e assassinos e também suas vítimas , ambas sob igual manto protetor.

O corrupto e deteriorado estado brasileiro, incompetente, cruel, desrespeitador , representado por seus agentes, aparece , por inteiro , neste cenário político de tocaia e traição, resultado de torturas – no episódio da morte de Mariguella e nas cenas que se seguiram .
Basta lembrar que os policiais presentes, com os frades junto com eles , sob ameaça, estavam bem informados sobre o encontro – local , hora, participantes, circunstâncias. Mesmo assim, acabaram por falsificar documentos, mentir , enganar a opinião pública, e seus próprios dirigentes, sobre o que realmente ocorreu naquela noite. Mentiram sobre tudo – a forma como aconteceu , o número de tiros que a vítima recebeu, o fato dela estar só , sem guarda-costas , e ainda em relação ao que aconteceu depois.

Após torturarem,barbaramente, os padres, levando-os prisioneiros, para montarem a armadilha para o líder , nem assim fizeram uma simples e pacífica prisão . O que era possível em relação a alguém desarmado, sem segurança , frente a mais de uma dezena de policiais.

O livro atesta, com detalhes, toda uma ação desordenada, atabalhoada , que chegou ao ridículo. Por isso, foram falsificados documentos e depoimentos , inventadas situações inexistentes, dados tiros desnecessários .
Os policiais chegaram ao cúmulo de atirarem uns nos outros, tamanha a incompetência, medo e nervosismo. Foram feridos dois policiais, tendo a cúpula policial , cinicamente, atribuído tal aos” terroristas” presentes – inexistentes. Inventaram , ainda , a presença de outros guerrilheiros e uma inexistente troca de tiros . Além de uma fuga cinematográfica – eis que muitos teriam escapado . Inventaram até uma arma , que teria sido usada por Mariguella.

Os policiais, armados até com metralhadoras, com a área cercada , Marighella e os dois frades dentro de um fusquinha , sob domínio da Polícia. Mariguella e os frades desarmados. A versão oficial foi oposta . Mais uma covardia e lambança do estado brasileiro.
Disse Clara Charf , sua mulher, ativista , ao receber a notícia de sua morte :
– O menino morreu ! Acabou tudo ! Acabou tudo!
Enganou-se . A história sempre segue em frente , buscando seus caminhos, de uma forma ou outra . Foi o começo do fim do grupo , morte seguida pela de Câmara Ferreira, que o substituiria . O que restava da ALN sobreviveria depois quase que apenas nas prisões, até a anistia, . Muitos fazendo balanços de quedas e, quem sabe, dos erros e acertos cometidos .

A história continuou e nos diversos agrupamentos políticos surgiriam questionamentos sobre a dominação neoliberal e análises sobre o ocorrido nesse passado ainda relativamente recente. Lições sofridas para quem pensava mudar o país , desatento a seus rumos e tendências .
No caso brasileiro, mais uma vez, como sempre, influências externas e provocações comprovadas, como fora o caso da “intentona”de 1935, o golpe de 1964, a tentativa de afirmação da luta armada a partir de 1968 . Em todos os casos, o dedo dos serviços secretos, da provocação , da indução à precipitação da história para melhor abortá-la.

A capa do livro , sua organização e revisão são de boa qualidade , edição recente da Cia. das Letras . O livro traz informações novas quanto aos fatos relatados , sistematizadas , com as respectivas fontes. Marighella condenaria a extensão do trabalho e os muitos e precisos detalhes . Isso se fossem para uso de seus adeptos , engajados na luta pela mudança social. Como disse Yuri Xavier – “havia alergia a documentos e teoria “ .

Marighella, os grupos a ele aliados , diversos partidos e organizações, deixaram lições , com as ações violentas , em curto período . Mostraram erros , mas também que nem todos podem serem enganados sequer por pouco tempo . E que muitos não se submetem , seja por vantagens ou medo, à indignidade, corrupção, roubalheira, exploração e violência – mesmo sob ditadura militar . Atestaram a existência de brasileiros dispostos a viverem por uma causa- e a morrerem por ela. Se preciso . (Resenha. Não revisada, o que não impede entendimento.Final . Redação).

2 Comentários

  1. O tema é importante para conhecer o passado e debater o futuro.Luiz Carlos

  2. Os artigos Marighella I e II são a base deste, baseando-se em informações do belo livro de Mário,Magalhães sobre o,líder brasileiro.Lúcia .

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *