Desaparecidos – Honestino (44 Anos !)

Mar 18, 2017 por

Desaparecidos – Honestino (44 Anos !)

               “Desaparecidos” – Honestino e outros  (há 44 Anos !). 

         * 50 anos depois ainda há “desaparecidos” e o  cheiro podre de” ditadura” no ar *

                                                                     (Mauro M.Burlamaqui)

            

         UM LIVRO SOBRE HONESTINO

          Em que momento  ocorreu tal lançamento – mais um livro sobre Honestino  ?

          Depois de 50 anos em que mesclaram-se – ditadura militar ; regime hediondo terrorista(onde Honestino e muitos outros, como  Ieda e Paulo de Tarso Celestino, também  da UNB, foram “desaparecidos“) ; Constituinte de duvidosa representação ; democracia relativa, modelo “golberyano”(como veremos adiante) , que chega até hoje ; virada sempre mais  à direita(na economia- política “neoliberal” ) ,  com Sarney , Collor , FHC e , afinal , Luladilma, estes “neoliberais ” mascarados de esquerda ,  culminando à presidência com o antigo vice deles, Temer – de Brasil à Braz$l, também na trilha neoliberal, e continuando em crise permanente.

         Neste momento,no Braz$l, sabe-se até da  negociação de propinas na fiscalização de alimentos (o Brasil é grande produtor exportador)  , com liberação oficial, mediante propinas (inclusive, envolvendo  a JBS, uma das grandes empresas do setor) até de carnes podres, que têm sido consumidas pela população brasileira e por povos de outros países (“Operação Carne Fraca”, da Polícia Federal).

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     E tudo acompanhado por”maquilagens” das carnes estragadas, compra de selos falsos , falsidade ideológica e documental, etc. – aquele rol de crimes a que os brasileiros já vêm-se acostumando).  Mais – febre amarela, como há décadas, no Rio de Janeiro, com filas enormes de populares em busca de vacinas. O que mostra a desconfiança, insegurança e medo da população – mais um , além de tantos outros. Sem vacinas suficientes, o país apela para a OMS e organismos internacionais , em busca de, pelo menos, 3 milhões e quinhentas mil vacinas.

           Pretende-se vacinar todo o Rio de Janeiro – o que significa que, a esta altura, os habituais irresponsáveis funcionários brasileiros estão com medo – de mais uma mortandade enorme , por aqui (maior que as dos presídios ) e mais um vexame internacional, campo no qual ,  de tempos para cá, o Brasil tem sido protagonista central – quase que mês a mês .

           Quer dizer, não só metaforicamente há algo de podre no Brasil – o povo brasileiro vem consumindo coisas podres mesmo – carne , com certeza ,  e  pode e deve haver outras iguarias , inclusive vegetais regados com agrotóxicos prejudiciais à saúde e misturados com  produção envolvendo transgênicos  ) . (Cf. Marcos Arruda , “Cartas a Lula”, bem antes de 2017  ). E quanto às idéias, legislação, políticos , juízes e ministros  – Justiça? No campo político, jurídico, moral – o que vemos à nossa volta – inclusive ainda  os famosos “desaparecidos” –  décadas depois dos fatos.

            Como se explica isso ? O livro em tela, de Betty Almeida,  trata de um deles – e nos leva a centenas, a milhares de atingidos , direta ou indiretamente, pelo regime terrorista hediondo que prolongou-se , de fato, bem além de simples medidas jurídicas indicando mudanças :  durou, tem durado décadas já , projetado seja física ou mentalmente – a herança dele persiste , nas instituições, nos amigos e descendentes de suas vítimas, na legislação, nos procedimentos policiais , na moral e ética nacionais , em especial nas forças militares – e em todos e cada um que envolveu-se, de alguma forma, ou mesmo sobreviveu ao ocorrido, mas que trás em si resquícios e  lembranças, nem se fale nos torturados, inclusive nos afetados pela mídia, várias versos exibidas, etc.  . (Cf. adiante ).

          O medo gerado por ele , este técnica social de dominação , talvez a provadamente a  mais eficaz e poderosa , além de usado por ele (a tortura não visava apenas informações, mas também generalizar o medo. Cf. M.R.Khel, psicanalista, refs.e bibl.adiante) . Mas, pior que isso – aquele regime hediondo, aparentemente passado , continua produzindo efeitos maléficos, objetivos,  eis que os “desaparecidos” continuam na mesma situação, a anistia foi limitada e hediondos criminosos estão até hoje à solta. 

          A TRAGÉDIA BRASILEIRA

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           O livro “Paixão de Honestino ” , que trata da vida e relacionamentos de um “desaparecido”,em especial,  focalizando um ambiente , a UnB , perpassa  uma análise generalizante da vida política brasileira de então( 1964/1975, em especial) , tendo sido lançado ao público  no contexto atual – acima resumido ,  complexo .(Soma-se a dois livros de sua mãe, também sobre ele -“Uma vida, duas personalidades” e “O bom da amizade é a não cobrança”).

        Num momento político e econômico difícil, em que continuam havendo “desaparecidos” , e novos desaparecidos, não ligados diretamente à luta política , quando a  tragédia brasileira passa sob nossos olhos e vidas , conscientes ou não dela , sem saída a curto prazo, “‘cheirando mal” (via miséria, inflação, genocídios em hospitais, desemprego, crimes, etc.)   desdobrando-se em vergonhas sucessivas – em vários lugares, como o Rio de Janeiro, não se pode ter mais  um sítio ou uma loja, fora em ruas ou bairros bem protegidos, parte da Zona Sul , em especial – falta segurança e a “propina”/corrupção  continua  regra em tudo, o que agrava a situação para o povo pobre e não corruptos.  (não é caso federal, mas estadual e municipal ,também , veja-se que o famoso meliante Sergio Cabral foi governador do Rio ) .      

            As favelas proliferam , na entrada da Barra, nas laterais de Copacabana ou nas imediações de Brasília – onde centenas de políticos tentam escapar de processos por corrupção, caixa 2  e  lavagem de dinheiro, tudo disfarçado e sempre negado por eles, via “anistias”, com  projetos de lei sendo  elaborados  em cantos escuros do Congresso Nacional  (e até iluminados, no caso  dos mais descarados ) .

     HÁ MUITOS PODRES NO BRAZ$L /2017

                 Sim, não é só a  carne .

               Há , evidente, muitos podres no Braz$l,  nas ruas, nos luxuosos gabinetes de Brasília, nas favelas, nos presídios,  onde cortam-se cabeças e empalam-se inimigos (exatamente o que os militares e a ditadura faziam,  até há pouco , com estudantes e povo em geral, sem qualquer respeito à dignidade humana) , tudo sob direção/domínio último do capital  financeiro internacional e oligarquias locais aliadas , estas prepostos que vêm administrando (mal ) o país, há tempos . Este quadro vem  desde a ditadura até cá, durante esse tempo consolidando-se numa Província Braz$l  ou num Protetorado Americano , entendimento de Ianni e Unger, respectivamente  .

           Ah, para completar , em vigor , um “Estatuto do Desarmamento”, aprovado(2004) no afogadilho e em meio à demagogia de interesse de estrangeiros ( fabricantes de armas) , sob pressão de ONGs por eles financiadas (para sustar/cortar vendas das concorrentes empresas nacionais de armas, que atrapalham(vam) as estrangeiras ) , estatuto que manda triturar , até hoje, década depois (e legalmente) armas novas – enquanto faltam armas para policiais. Uma  situação ridícula até, de “queima de dinheiro” e que ainda deixa o povo pobre e médio à mercê da bandidagem super armada , milícias ilegais e polícia  corrompida .

        Quer dizer, uma política de ” malucos ” (quem queima dinheiro?!) que tem deixado o povo ,em geral  , já sem segurança efetiva e eficiente , nas mãos da ilegalidade, condenado à submissão ou à morte nos lugares mais pobres  – exatamente igual aos torturados em nossos presídios frankensteinianos. E , se observarmos bem, no fundo ,  igual à situação de todos nós , nas ruas e em casa, apenas havendo menor probabilidade de ocorrer crimes pelo nível social da vítima -nível social (capaz de pagar segurança mais qualificada ) locais onde anda, condução usada, nível social do bairro, casa, apartamento, etc.

         Mas , a isso tudo, acrescente-se a questão dos “desaparecidos”  e a da anistia, ontem, hoje e sempre na ordem do dia ,  exemplos brasileiros de democracia, igualdade Justiça, educação   – também destaques negativos  no mundo. 

       BRASIL , UM ESCÂNDALO – VERGONHA MUNDIAL

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        Tudo isso em curso  depois do delirante e escandaloso espetáculo dado pelos últimos meses da administração  corrupta de Lula e Dilma, Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas absurdas, com obras superfaturadas, repressão a manifestações (com presos até hoje ) , verdadeira falência da Petrobrás, prejuízos de bilhões no caso Pasadena e em outros negócios(fatos notórios – cf. jornais e revistas ) .

         Para completar , a imprensa internacional exibindo fotos de Sergio Cabral , Lula e Eduardo Paes (então prefeito do Rio)  , rindo, alegres, após confirmar-se a vinda das Olimpíadas para o Brasil – que teria pago (ainda não sabe-se bem como )um milhão e meio de dólares pela escolha do Rio como sede delas   (noticiário internacional ).

        Ah, sem contar virus e bactérias , como zica , febre amarela e outros , como a chicungunia, agora crescendo em todo o Brasil – com mortos. (Parênteses , desde já – o que essa gente, oligarquias locais e capital financeiro , Império, fizeram com o Brasil, hoje Braz$l ?).

          Desabando a fração política neoliberal lulista(Dilma, impeachment )  , ela foi  substituída pela do PMDB , aliado ao PSDB e outros, também neoliberal, dando continuidade à mesma política de consolidação da Província, segundo uns,  ou da “neocolonização”, segundo outros.  Lula da Silva, dizem que ainda o único líder político nacional (?!), vivendo do passado, sem qualquer defesa ou análise coerente.

E tido por muitos como artífice chefe da  corrupção dos últimos anos, respondendo a vários processos ,(inclusive na “lava-jato”), fora do poder estatal (depois do impeachment de Rousseff) ,  em nítida decadência, sem responder,  até hoje,  sequer às velhas acusações de ter sido informante de polícia de seu ex-amigo Tumão , torturador,ex-chefe do DOPS paulista/ década 70, que o desafiou a um debate público e a processá-lo, o que não fez .  (Tuma Jr., no livro “Assassinato de Reputações” e no programa “Roda Viva”, TV Cultura).

      “Desaparecidos “?Sem resposta durante tudo isso. E também durante todas as administrações do PT , incluindo “Comissões de Verdade”(Dilma),  sob holofotes da big mídia ,  e logo depois as  eleições , até com presidentes delas candidatos  – mas nada, nunca , ninguém esclarecendo o caso dos desaparecidos e outros  . 

         E depois?    E os desaparecidos? Casos sem solução, inclusive o de Honestino. 

     INSTITUIÇÕES SÓLIDAS(2017) , NESSE CONTEXTO?

        Executivo e Legislativo recheados de ministros e deputados e senadores sob diversas acusações, processos , indiciamentos . Poucos escapam . Judiciário decidindo segundo interpretações que variam conforme o sabor dos ventos políticos, tentando manter a “governabilidade “, à custa do desrespeito da Constituição, escorado pela mídia financiada pelas multinacionais e capital financeiro – é só checar  a propaganda da big mídia.

           Renan Calheiros desobedecendo decisões judiciais;  presidente do STF , Lewandowsky , então presidente do STF ,  desrespeitando a Constituição , junto com Renan Calheiros , então presidente do Congresso  (vários processos …no STF !!!) ;  todos juntos “fatiando” a CF de 1988, de forma  a livrar Dilma (claro que aliada – e em conluio com eles) de punição e suspensão de direitos políticos. A atual presidente (adiando?) e esquecendo de convocar o pleno do STF para analisar a decisão da dupla Renan/Lewan . Caso único no mundo, Braz$l uma aberração. “Desaparecidos “- esquecidos , inclusive com relativa pouca movimentação quanto a reclamações a respeito .(Cf. abaixo posição de uma psicanalista). 

           Agora, no centro de gravidade do bloco de poder dominante neoliberal, no Brasil, coordenando-o, Temer, ex-vice de Dilma, que evidente participou da corrupção anterior , lavagem de dinheiro e rapina da bolsa  nacional – e omissões , políticas e sociais . Isto junto com a dupla Dilma/Lula – que apenas está fora do centro de gravidade do poder, face à sua corrupção exagerada e péssima gestão dos interesses neoliberais no Brasil , mas que continua no bloco de poder dominante, aliada a Renan , Maia e outros.

Ainda mantem  , a dupla(PT) fatias importantes de poder a nível federal e estadual e municipal. Exerce  agora o importante papel legitimador, bem conhecido , de “falsa oposição”, dentro dos limites do regime politico e do sistema econômico, impostos pelo Império  , ou seja , daquela  “fiel Oposição de  Sua Majestade , a Rainha “;  isto é , no caso,   “fiel Oposição do Exmo. Imperador (o Império do Capital”) – ou algo semelhante – atuando sempre nos limites do regime político .

            Os “desaparecidos”  , da mesma forma , sempre sem resposta do Estado, anos seguidos  . E estão todos aí , ainda, no país imobilizado, andando para trás, o mesmo ministro de Lula, Meirelles, agora ministro de Temer, o que prova a identidade de políticas neoliberais – dirigindo a economia :  e tentando administrar a Província/Proteorado, informal, claro, o que facilita (a) enganar o povão, de um lado, e (b) administrar a badernália política/econômica , de outro ; isto é, manter a normalidade  aparente e levar a província a uma certa “tranquilidade” , mínima que seja  .

           Por quê tal relativa “calma” , em meio ao caos  ?

    A FALSA ESQUERDA -MASCARADA

       Não há forças políticas organizadas, sequer partido de esquerda real (ou mesmo democrático radical, não socialista) e afirmado entre o povo  , em condições para  promover pressões sociais e políticas mais mudanças maiores na sociedade  , neste momento. 

         O PT , a grande esperança popular  , de fato sempre promovido( às escondidas)  pelo Império( como o aliado PC do B ) , acabou por deixar cair a máscara – depois de décadas , afinal imprensado por contradições antagônicas – ser ou não ser –  e assumir o que sempre foi – agente neoliberal ,ou seja, do Império.

      Fora  do “governo” , tarefa fácil fingir oposição ao neoliberalismo ; no “governo” , a certa altura , impossível. A máscara de esquerda vai puindo aos poucos e a demagogia descarada vai desnudando o demagogo, por  mais mentiroso, bom ator, escorregadio que seja . Menem, na Argentina, e Luladilma , por aqui, entre outros , que o digam. 

      Talvez,  por isso também,  sem solução, até agora  , o caso dos  “desaparecidos” . Afinal, há décadas, “governos” conciliadores e neoliberais amarrados entre si . Só que , tendo caído Dilma/Lula ,” liberados”, pois,  os movimentos sociais por eles então controlados, a situação muda .  Se antes,  eles, movimentos sociais ,  sem poderem voltarem-se contra o “governo”  , pois os petistas financiavam-nos  (eram “governo” e queriam as mesmas reformas,  na previdência e outras, exato iguais às que pretende Temer,  isto é, “neoliberais” – cf. jornais ) – agora , afinal, mais livres das rédeas petistas , talvez possam protestar  , mais  fortemente , sobre essas questões , com manifestações viris,  efetivas . (Pois já perderam  as antigas verbas e privilégios federais. Aliás – perderam algumas ou todas,  mesmo ?) .

           Tais mudanças políticas , com a queda de Lula/Dilma , podem afetar, pois ,  a questão dos “desaparecidos” , entre outras, levando a permitir maiores pressões populares.

     UM LIVRO SOBRE UM “DESAPARECIDO”

         O livro em tela foi lançado quando Honestino completaria 70 anos , “justhomenagem da  UnB”, afirmando que Honestino “nunca quis a violência ,mas foi uma de suas vítimas” , sendo o livro um “relato histórico, mas, sobretudo , afetivo e memorial …”, tratando-se de um jovem “ que se mitificou como mártir …”(Sinopse, ed.Unb) . Na sua resenha, a jornalista da editora assegura ainda que ele “lutava pela democratização do país, mas não queria a luta armada “, … “nunca quis a violência “ .(Resenha,16-2-17,Inês, Ulhôa, I., jornalista/Ed.Unb).

       Se tais afirmações poderiam serem bastante discutidas,  não sendo aqui a oportunidade, isso não é o mais importante  – discutir essas ou  outras , contidas no livro . Este, por sua vez ,  sustenta-se sobre dois livros da mãe do biografado  , Maria Rosa Monteiro (“Uma vida, duas personalidades” e  “O bom da amizade é a não cobrança”)  , e em possíveis conversas com antigos militantes e estudantes da UnB , seus parentes e amigos .

       Todavia, é muito mais bem editado que os livros citados e nem se fale quanto aos comentários  sobre política, eis que procura apreender a realidade social de então , Brasil, meio estudantil, UnB(décadas 1960/70) –  e para tal  utiliza outras fontes , como “A universidade interrompida”, de Salmeron , de um lado ,  e clássicos como os de Gorender, ou reportagens como a de  Morais e outros, sobre questões políticas e relatos vários sobre desaparecidos   . Trata-se de um bom , do mais completo relato sobre a UnB, de então , até agora feito , e  com melhor  qualidade de edição.

     Resultado de imagem para livro Paixão de Honestino  É fato que contém pequenas imprecisões, ao mencionar , por exemplo, Gabriel Magalhães, ex-presidente da FEUB, como Gabriel  Guimarães ; Saint-Clair, como presidente, após Mauro Burlamaqui ; este , em 1968, como indagado por Honestino se gostaria de ser candidato à presidência da UNE , quando isso  ocorreu em 1967, ele ainda presidente  da FEUB ; Honestino , dado como vice-presidente de Mauro, quando foi só presidente da “Comissão de Trote” , e, mais tarde, eleito , presidente da FEUB e depois UNE – entre outras. Mas, isso tem pouca importância , frente à massa de dados compilada e publicada  , tratando-se de problemas de técnica de pesquisa , coleta de dados e revisão. Portanto,  um livro que veio para ficar – com o maior número conhecido de informações sobre Honestino e aqueles anos , na Universidade de Brasília – 1964 a 1969 , em especial  . Mas –  “Honestino”  –  leva à questão -“desaparecido”? E levar a esta questão é também um mérito do livro em tela , tenha  sido esta  ou não também uma intenção da autora .

        A DISCUTIR – O QUÊ , “DESAPARECIDOS” ?

       Porque esta  questão “desaparecidos” liga-se à do caráter da democracia existente e ao sofrimento das famílias deles  e seus amigos – questão que só será encaminhada com mudanças  nessa “democracia” , suas instituições , capazes de suscitarem ,afinal, respostas – situação que dura décadas , pois oligarquias não têm qualquer interesse em mudar uma legislação ou Constituição que garante-lhes privilégios . É democracia “real” esta , no Brasil , de 2017, por mais que se relativize a palavra , desde que nela ainda existem “desaparecidos”,  casos que o Estado nega-se  a elucidar , depois de 50 anos ?

        Isto e mais uma série de anomalias que vão das medidas provisórias ao foro privilegiado e ao presidencialismo de coalizão, chegando às interpretações absurdas do STF , atuando segundo interesses de cúpulas políticas oligárquicas e seus representantes.  Esta situação leva a indícios que ocorre algo bem pior . Neste blog/site , apoiados em diversos autores , entre eles Chomsky(“Estados fracassados”) e Agamben (“Estado de exceção”) temos defendido a existência de um “estado fracassado de exceção “, que por isso comporta , além do citado , situações eternizadas tipo as dos “desaparecidos”, nas quais inclui-se o caso apreciado.

         Haveria muitos pontos a comentar, levantados pelo livro citado , pela riqueza de dados e comentários políticos nele contidos  , mas escolhemos este , como já deve estar claro ,  um apenas , que nos parece crucial – 44 anos depois, um  “desaparecido”. (Teria sido sequestrado,  em outubro de 1973, com toda a direção da então AP-ML atacada, presa , morta . Uma trama envolvendo os serviços secretos. Cf. Lucas Figueiredo, “Ministério do Silêncio”) . Até hoje , não se sabe o que realmente ocorreu  (fora a versão de “Carioca”, informante da repressão e depois da jornalista Taís Morais , em “Sem vestígios”, referida no livro examinado e  por Mauro Burlamaqui ,  em caminhandojornal.com( artigos sobre Honestino , 2013/4)  – forma e local da morte não comprovados ,  mas a citada por “Carioca”  parecendo a versão a mais verossímil ).

        Ora, como “tudo isso” ainda pode ocorrer  numa “democracia consolidada “, de décadas , com “instituições sólidas”, sendo a Constituição Federal “democrática” e resultado de uma democrática  Constituinte (1986) ? Como tal  possível após Comissões da Verdade e outras, inclusive em dois “governos de esquerda”, os de Lula e Dilma ? Como se explicaria tal  , que não ocorreu em outros países que vivenciaram “ditaduras” ? E a anistia brasileira ,  que limitou e continua impedindo  a punição de hediondos criminosos – torturadores – o que pode dizer-se  dela  ? Própria de um regime democrático?

           A SOCIEDADE ESTÁ  CONIVENTE COM ABUSOS  ?

         Quer dizer, do mesmo modo que vimos , numa reunião  sobre “desaparecidos” na UnB , em outubro de 2012 , muitos  se reunirem, inclusive antigos ativistas, como a própria autora do livro ora lançado , e assistirem (rápidos) debates/homenagens sobre os  “desaparecidos” da UnB, que continuam – solenemente – desaparecidos , sem explicação razoável do Estado , agora assistiremos mais ou menos  ao mesmo – e  com mais festa ainda ?

               No lançamento de mais um livro, sobre um ”desaparecido ”,  que continua desaparecido , “tudo” (o ocorrido, não elucidado até hoje) será visto como” normal” , inclusive a omissão quanto a respostas ,  seja do Estado, depois de quase 50 anos ou a popular , pouco exigindo a respeito   ?

             Ora , tal não é normal , não ocorreu em outros lugares  –  e parece revelar , isto sim ,  uma sociedade adoentada , inibida , abobalhada, para não usar termo mais forte como acovardada  ?(Cf. “O que resta de ditadura”, de Saflate e Teles, coord. , Boitempo, SP , 2010 ,em especial artigo de M.Rita Khel – “Tortura e sintoma social”, p.119 e outras ; cf. em caminhandojornal.com o art. “Povo brasileiro – manipulado e” …, com mais dados e interpretações ) .

             Maria R. Khel  coloca pontos importantes – “Fruto dos abusos históricos que aparentemente “perdoamos” sem exigir que os opressores e agressores pedissem perdão e reparassem os damos causados , o ressentimento instalando-se na sociedade brasileira como forma de “revolta passiva”(Bourdieu) ou “vingança adiada”(Nietzche) ao sinalizar uma covarde cumplicidade dos ofendidos …com seus ofensores …”(id.)

                  E adiante, levantando questão que repercute- …“ele sabe mas não quer saber , aceita se colocar em uma condição passiva diante dos abusos do mais forte ; por covardia, por cálculo …ou por impotência autoimposta , o ressentido a cada dia se revela cúmplice do agravo que o vitimou “. Todavia, ela logo explica que  o ressentimento” não abate aqueles que foram derrotados na luta e no enfrentamento com o opressor e sim os que recuaram sem lutar e perdoaram sem exigir reparação .”(ib.)

          Quem sabe, desta vez, neste lançamento , lá  será levantada, ao menos ,  alguma ideia como  um manifesto(ao MP , STF, autoridades, etc) , de todos os presentes, iniciado a partir dali , de dentro da UnB, pedindo, ou exigindo , do Estado respostas sobre seus desaparecidos – Honestino, Ieda e Paulo – além de centenas de outros ? (Isto ou, talvez,  algo mais efetivo ainda ? ) Ah,  dirão alguns,  tal já foi feito, antes, de forma fraca, e sem resultados . Não importa. Quem sabe, agora afastada a antiga administração federal  , possa-se estar mais à vontade, de todos os lados, para exigir respostas da neoliberal fração política hoje no centro do bloco de poder dominante, Michel Temer/PMDB à frente ? Afinal , como a anterior,  posa de democrata e liberal, ou não  ?

           Maria R.Khel lembra as tradicionais conciliações brasileiras e o mestre da “cordialidade”, que a divulgou , Sérgio B.de Holanda(este, aliás, depois,  fez retificações) , mencionando que tal “obscurece a luta de classes e desvirtua a gravidade dos conflitos desde o período colonial.” Reivindicar  , pois, seria  um tipo de posição responsável e não de ressentidos .  E essa autora  ainda antecipa-se àquela crítica tão comum aos que persistem numa postura crítica, a partir de certo ponto – 

“O expediente  corriqueiro …de chamar de “ressentidos” aqueles que não desistiram da luta por seus direitos e pela reparação das injustiças sofridas não passa de uma tentativa de desqualificar a luta política em nome de uma paz social imposta de cima para baixo .(N,R.Khel, ib.)(grifo da redação/caminhandojornal.com)

           Porque a omissão, passividade total, até mesmo dentro dos limites da legislação , de todos e cada um , revela(rá), mais uma vez , que  há algo errado, e muito ,  e não só na estrutura jurídico-política do país ou na mentalidade das oligarquias dirigentes, mas que extrapola até às bases da sociedade. Porque só omissões sucessivas e coisas como essas descritas, caso de espúrias conciliações,  como resultados daqueles anos,   é que poderiam  explicar não só o quadro brasileiro em geral  tenebroso , antes  traçado , como persistirem situações como as dos “desaparecidos” e a  da anistia para torturadores, até nossos dias.

             Essa é a democracia conquistada ,  depois de décadas  da CF/88,  em vigor – com ” desaparecidos”, como Honestino ?            

       Este , à nossa volta, o país resultado direto dela – além da crise econômica , uma democracia deturpada, oligárquica, financiada pela corrupção e multinacionais e capital financeiro – estrangeiro ?

      Este o resultado do “liberalismo americano” ou “neoliberalismo”, tão pregado pela big mídia e pelo  Império, que tiveram 50 anos e todo o poder, por aqui,  para provar seus programas econômicos e políticos  ?

[Império este que, na verdade , comprovou o oposto não só quanto ao Brasil como quanto a ele próprio – sustenta sua economia com guerras sucessivas há décadas – Vietnan , Iraque, Líbia, Afeganistão, Síria , mais de 100 intervenções nas Américas, começando por tomar metade do território mexicano .Isso,  além das bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagazaki, com a guerra ganha(1945) .

        Quer dizer – inviável como modelo para um pobre Braz$l . (Aliás,tal influenciou muito a posição de Honestino , que estudou e vivenciou isso(Vietnan , em especial) , daí firmando radical oposição ao imperialismo americano ) ].

         Veja-se Novamente, sente-se  cheiro de podre ao pesar essas questões –  e nesses governos todos, desde a “ditadura” , tal também já atingindo  Constituinte, Constituição ,Anistia, Desaparecidos , Democracia , Nova República , etc.  

        O que estaria  errado, o que não “bate” em nós, povo brasileiro ,  com coerência, no que se refere a “tudo isso” ,  enquanto o tempo passa e o país soçobra? Como nossas “elites” e  big mídia podem pretender induzir-nos a conviver , para sempre , com “desaparecidos” , a atual “anistia” distorcida e com essa ” democracia”/1988 /2017 ?

           Donde veio tudo isso, essas anomalias e distorções evidentes ?

        A DISTENSÃO(GEISEL) E SUA DEMOCRACIA

        De fato, quando voltamos ao passado , que explicaria o futuro , encontramos mais  dados que não “batem” certo com a lógica e fatos. Por sinal, o livro coordenado por Saflate e Teles recomenda tal ao,  nas primeiras páginas,  lembrar Orwwell, G. –  “Quem controla o passado, controla o futuro “.
       Os militares e estrategistas americanos bem sabem disso, daí a importância de prever o “terreno” político e econômico pós-guerra. E, claro, contar a História Política de acordo com seus interesses, omitindo , deturpando, fornecendo os dados que lhe interessam , mesmo que  seja depois de décadas, isto além de financiar bolsas, pesquisas , pós-graduações. Fizeram isso por aqui.(cf. neste blog).Resultado de imagem para desaparecidos

        Quem promoveu a  distensão lenta e gradual , que chegou à democracia sempre tão comemorada ?

        Quem a conquistou,  afinal – foram as massas,  nas ruas ?

      Ou elas , o povo , veio  às ruas depois de todo um projeto de Geisel e Golbery em andamento – já há anos –isto é, vieram convocadas por eles, militares ,  Golbery à frente , indiretamente, através de acordos, alguns escondidos , sobre os quais até hoje pouco se sabe ,  com líderes políticos civis ?

         Essa democracia dos “desaparecidos” não nos informa sobre o que  realmente aconteceu com todos eles, gente perseguida pelo anterior regime militar ou sobre a morte deles , ao menos . O que vemos à nossa volta são anomalias, jurídicas , políticas, econômicas, o Brasil numa crise nunca dantes vista , em pleno retrocesso (análises diversas neste blog, cf. artigos vários ). Exemplo – medidas provisórias ; o impeachment (deturpado) de Dilma, por Renan/Lewan ;  presidencialismo de coalizão ; a escolha dos ministros do STF pelo Executivo , que eles um dia poderão julgar ;acusados de crimes na direção dos poderes estatais , Justiça mais do que tardia , foro privilegiado ,etc.

           O que ocorreu , desde a administração de Médici, quando já se falava em distensão lenta e gradual ? Alguns autores estudaram o assunto e foram didáticos a respeito .

         A DISTENSÃO GOLBERYANA/AMERICANA

      Tentemos expor , apoiados nesse autores que estudaram a fundo o tema , as bases estruturais dessa democracia que temos hoje , apoiada na Constituição de 1988 e na Constituinte(1986) , que a antecedeu. Elas são a origem dos últimos baques nacionais , da tragédia que nos cerca , da desmoralização  do antes combativo PMDB, do pretenso inovador,  aliado dele , PT, do PC do B (após atacado e invadido pela CIA/CIE,  “massacre “ da Lapa, 1976) , entre  outros partidos, num projeto político golberyano-americano que atingiu o cerne do que é a “democracia”. Ou seja , os partidos políticos (Kelsen, com razão), desde sua estruturação interna(toda ela permitindo domínios hierárquicos, e oligárquicos,  de cima para baixo(Cf. estatutos dos partidos ) , desde a fundação  de “comissões provisórias”até o financiamento das campanhas políticas . (O que resultou no caos de corrupção à nossa volta, evidente em 2017).

        CONTEXTO DE HONESTINO –ONTEM E HOJE

        “…não fazia parte dos objetivos das elites identificadas com o regime autoritário transformá-lo, mas sim alcançar uma institucionalização capaz de tornar este regime – e é preciso sublinhar regime porque o governo ou seus ocupantes , incluindo as Forças Armadas, poderiam  se retirar – infinito no tempo. “(“Distensão no Brasil” , p. 39 , Suzeley K.Mathias, Papirus , SP, 1995. Grifos da redação camninhandojornal.com e não dos autores ).

              Continuemos  buscando entender  :

          ”A democracia, na mensagem geiselista , é subordinada a uma série de outros valores,  não é valor em si e, portanto, não pode ser tomada sequer como condicionante na formulação de tal projeto”.(p.107, ib.)

             Evidente, não era a visão oriunda de Geisel, pois viera já  desde Médici(até em discursos) , com o dedo de Golbery, o que significa CIA e seus teóricos de alto nível, possível caso de Samuel Huntington , cientista político americano, formulador de teses sobre distensão e transição política  . Estudioso do  tema,  ele chegou a promover seminários no Planalto, para  generais, mostrando a importância da distensão e da volta à democracia, ressaltando os riscos de agirem  em sentido contrário (isto é , não promoverem  uma “transição” controlada , mas permitirem uma “explosão”social e política , que poderia envolver a possibilidade de radicais mudanças.
               Ou seja, tanto o povo como”radicais” lutadores(partidos, movimentos) favoráveis à queda do regime deveriam, se possível, ficarem de fora da direção da transição  ). Provável, plano já em curso, primeiro tenham eliminado radicais opositores (dos partidos legais) , depois exterminado os líderes(não cooptáveis) / grupos/partidos clandestinos (ALN , AV, AP, PCB, PC do B ,etc.), depois avançando a “distensão”, mas mantendo sobre a cabeça de todos a espada “fascista”(legislação anterior)  , mantida de “pé” até mesmo durante a Constituinte “democrática”.(Cf.observação de L.C.Prestes e outros, ib .).
           A partir de 1973 , como “relata Kucinski (1982), a partir de 1973 os órgãos de  segurança pareciam estar “loucos” , pois desencadearam uma onda de perseguições que tinha sempre como consequência desaparecimentos  e que só seria contida em 1975. Isto fez com que o regime militar se transformasse num “estado policial” onde não existia nenhuma segurança … “(Ib, p.124).
         Foi neste período, exatamente, que Honestino foi preso e sequestrado (outubro, 1973, RJ), assim como outros (toda a cúpula da AP-ML  ; a parte que foi para o PC do B foi atingida no episódio de 1976, o chamado “massacre da Lapa”). (Sobre a AP , neste período, entre outros, “A História da AP”, de Haroldo Lima e Aldo Arantes ,  que foram para o PC do B, mas contam fatos importantes das dissensões dentro da antiga APML e referem-se a Honestino).
          Nesta época , Honestino ia a jogos no Maracanã , andava por Copacabana e brincava com a filha e a mãe no Jardim Botânico, RJ , além de tomar chopes  em bares, eventualmente frequentar o Lamas (restaurante, Flamengo/Botafogo, perto do lugar onde morou bom tempo, em Botafogo ) e jogar bola no Aterro .(Livros da mãe, antes citados , filme e Almeida, B., ib. ) .
         Tal seria justificado por ter a perspectiva de estar “clandestino para a repressão, público para as massas “, ou algo assim, que seria uma norma da então APML .(Almeida, B, ib.) . Note-se que tanto um Marighella (já morto) , como Lamarca (idem) ou Marco Antonio Coelho(PCB, dirigente, desarmado, com perspectiva de luta não armada , preso, torturado violentamente, mas que sobreviveu , cf. “Memórias de um comunista”), entre outros, todos permaneceram , perseguidos,  em rigorosa clandestinidade – desde logo afastados das famílias, primeiro passo .

            [ Jair Ferreira de Sá (APML,dirigente, figura histórica ,  antigo coordenador-geral, que esteve na China, como outros) sobreviveu e morreu, em 1982, fazendo ginástica na praia de Copacabana . (jornais, da época ). Mas, essas são informações/questões que cabe divulgar, para reflexão , mas não analisar aqui). ]

           O que importa -Honestino sequestrado , sem armas ,passando períodos  brincando com a mãe e a família, em lugares públicos . Na Zona Sul,RJ, não numa porta de fábrica,  agitando , ou numa gráfica clandestina,  ou no Araguaia ou assaltando um banco. Aí um retrato    dele  – e mesmo assim ainda foi sequestrado e assassinado (hipótese mais lógica e com alguns dados)  ?

        Este  o contexto em que “desaparece” Honestino , o regime político que antecedeu  e circunscreveu a proposta “democrática “ de Geisel/Golbery/americanos, que vai-se desdobrar na Constituinte, Constituição de 1988 e, afinal , em 2017 – isto é, 50 anos depois do “golpe” americano militar/oligárquico de 1964(na verdade,  início de uma contrarevolução antinacional  e antidemocrática) . Ação fria, sem sentido ( estava ele,  por certo, seguido, conheciam tudo , pegaram e mataram toda a direção da APML , uns atrás dos outros) .

            Hoje, em 2017, vivemos um contexto tão democrático  que Honestino , Ieda, Paulo de Tarso (todos da UnB) e centenas de outros encontram-se ainda “desaparecidos” e seus algozes (e de milhares de outros ) impunes, segundo interpretações do STF brasileiro , sobre a anistia , caso único no mundo. Uma bofetada na cara de todos os parentes e amigos deles, como já referido mais de uma vez neste blog/site. Por quê ? Como? Até quando ? É o que estamos tentando expor .

           ORIGENS DA ATUAL “DEMOCRACIA”

         Houve uma liberalização  sem  real democratização,   com a tal distensão lenta e gradual golberyana-americana.

            Voltando ao estudo da época , a autora citada( Suzeley K.Mathias ) conclui que –

      Geisel atingiu sua vitória, pois por sua ação, continuada e enfraquecida  por Figueiredo , ele pode tornar muito mais estreitos os caminhos possíveis para a democratização : se restringiu a autonomia  dos setores de  segurança ,  preservou as prerrogativas dos militares  e um regime de “democracia relativa “, como ele gostava de dizer .”( Mathias, S., ib., p.139).

             A autora foi  feliz no que se refere à sua observação de todos os lados da transição democrática. E aí coloca o dedo na responsabilidade dessa transição limitada , democracia restrita , na  sociedade, nas elites, na Oposição oficial e, como veremos  adiante, inclusive nas chamadas esquerdas , até nas auto-intituladas comunistas, que apoiaram e legitimaram transição de tal tipo (cf. adiante análise justa, no caso, de Luís C.Prestes , ex-dirigente máximo do PCB ) :

               “ …é preciso considerar que a responsabilidade pelo avanço a passos curtos é de todos os brasileiros e, principalmente, de suas elites que sempre preferiram  a mudança na continuidade e, além do mais, nunca formularam um projeto alternativo de transição política. Pelo contrário,  foi a adesão ao projeto militar que marcou a posição desses setores .”( ib., p.143).

            Maud Chirio , que estudou a “política nos quartéis”, também acaba por concordar e considerar que a “distensão”-

        ”não constituiu o retorno negociado e por etapas à situação anterior ao  golpe, ou uma anulação da ditadura, como as palavras empregadas pelo próprio poder (“abertura”,  “distensão”, “descompressão”) fizeram a oposição esperar . A política de Geisel , na verdade, foi mais uma tentativa de institucionalização da revolução” segundo ideais autoritários do que de democratização. “(“A política nos quartéis”, p.172, Zahar, RJ,2012, cf. nota número 10, em que coonesta Mathias, ob.cit. e Aloysio de Carvalho , “O governo Médici e o projeto de distensão política (1969-1973 ).

        Essas as origens e bases de nossa atual democracia consolidada, de nossas “instituições ´sólidas “ , segundo a big mídia e altas figuras do STF e outras instituições. Elas e outras razões , examinadas adiante ,  explicariam  um Honestino “desaparecido”,  44 anos depois, mais Ieda e Psulo e mais centenas . E a sociedade brasileira na situação calamitosa em que se encontra, arrasada  –  mas com Renans , Collors, Maias , Temers , Lewans , Toffolis ,etc., na sua mais alta direção.

      CONSTITUINTE DE 86, ANISTIA, ETC.

        Vejam que o livro de Almeida leva-nos longe, ao mencionar o “desaparecido” Honestino e ao fazer-nos indagar sobre por que , em pleno 2017, mais de 50 anos depois do “golpe de 1964” , a questão permanece na ordem do dia – os “desaparecidos “ ainda desaparecidos, sem informações do Estado, mesmo depois de dois governos auto-intitulados de esquerda, na verdade neoliberais , mascarados de esquerda, o que é algo completamente diferente.

        Prestes já intuía isso e talvez fosse a única figura política daquela época que levantava , indiretamente, essas questões, de forma bem direta a da Constituinte  . Criticou , acerbamente, a “abertura democrática “ e depois a forma de organização da Constituinte, do mesmo modo que a falsa esquerda .

          Muitas posições suas, hoje,  parecem justas, na medida em que , por exemplo, ainda em no dezembro de 1982, após a anistia e até eleições “ democráticas” , a Polícia Federal , “cumprindo ordens superiores”invadiu o VII Congresso do PCB, desbaratando a reunião.(“Prestes, um comunista”, de Anita L.Prestes, Boitempo, 2015,SP , p.518-9).

         SEMPRE HÁ QUEM PERCEBA

         Já em 1982,  Luiz C.Prestes afirmava : “O imperialismo hoje não é só o inimigo externo :está incrustado no sistema socio-econômico brasileiro. São os monopólios estrangeiros, as multinacionais que estão aqui dentro” . (“Prestes, lutas e autocríticas”, Vozes , RJ, 1982, p.214, de Dênis de  Moraes e Francisco Viana-  livro aliás a que Prestes fazia restrições ).Virando sempre à direita , conduzido de fora para dentro , de acordo com os interesses internacionais , um Meirelles , o amor econômico/estrangeiro  de Lula, e agora de Temer ,  dirigindo a economia, o que significa interesses estrangeiros sem intermediários, como está o Brasil em 2017 ,35 anos depois ?

           Não foi à toa que Paulo Maluf, abraçando Lula ,  dizia-se à esquerda dele ,  e que a política que ele fazia no BNDES horrorizaria até Roberto Campos. No Brasil, empurrada pelo Império, a oligarquia brasileira subordinada foi , à direita, adiante até das maiores pretensões, no passado, de um Carlos Lacerda ou Roberto Campos, considerados os grandes pais e depois avós do liberalismo econômico no Brasil, até pela influência nos quartéis e na elite militar .

[ Quando Lacerda acha que tudo aquilo – o movimento militar – fora longe demais, com Castelo Branco abertamente favorecendo interesses/empresas estrangeiras(ferro , M.G.), e passa a criticar a desnacionalização, etc., diversos grupos militares voltaram-se contra os movimentos de fechamento da sociedade e, depois, até contra o AI-5 , que foi empurrado na garganta de Costa e Silva (Carlos Chagas, “113 dias” e outros livros ), depois vítima de um golpe que empossa a Junta Militar e não o vice-presidente . (Cf. “A política nos quartéis”, refs./bibl.abaixo). Não importa aqui discutir as razões de Lacerda, possível oportunismo pois queria ser presidente ).]

         Prestes foi até contra a candidatura de Tancredo Neves,  considerando que tratava-se do candidato preferido dos militares , que daria ao sistema uma “falsa ideia de liberdade”(p.520).Considerava que tratava-se de “concessões secundárias , limitadas, para conservar o essencial. E que o essencial no Brasil é o poder militar , é a tutela militar sobre os poderes do Estado” .(id. ) (Do que discordamos,parcialmente  – por trás do “poder militar” , via  cúpulas, serviços secretos ,etc. –havia/há sempre –  o Império ). Achava Prestes que a ênfase em eleições diretas desviaria  a atenção do povo “de seus problemas fundamentais : fome , miséria e falta de trabalho “.

         De fato, tinha certa razão – houve naquela época grande ênfase no  problema político, abertura, democracia, eleições diretas – e ficou em segundo plano a dominação estrangeira, a exploração do povo, o poder dominante do capital internacional e das multinacionais . Por quê?

        E quanto à crítica a  Tancredo – que afinal nem governou, com uma morte ainda mais conveniente ao regime, Sarney( num golpe) substituindo-o  – e eleições indiretas , de fato , décadas depois, Maluf , em entrevista na tv( a repórter da Globonews) , declarou que fez o papel de boi de piranha , pois era do interesse do regime, para que Tancredo ganhasse,  o que já sabia , antecipadamente , que ocorreria (entrevista , Globonews,cf.internet ) .

         Prestes criticava Giocondo Dias, líder do PCB  , e um seu artigo conciliador com o regime – “Negociar é preciso, mudar é preciso”(F. de S.Paulo, 16-7-83, p.3). Giocondo , tempos depois , teve encontro secreto no Palácio do Planalto, confirmado anos após , com Figueiredo. Prestes foi convidado para alguns comícios, então, mas sem o direito de falar. Esta situação persistiu durante anos, em várias ocasiões(e estava afastado do PCB) . Tentou também  ser candidato pelo PT ,  PMDB e  PDT , tendo sido recusado por todos , alguns fazendo-lhe exigências inaceitáveis . Tudo isto já mostra um certo caráter excludente, para alguns, como ele, já no processo de democracia em andamento, bom tempo depois da chamada “anistia ampla e irrestrita”.(id., p,.526,530 e outras).

        As restrições feitas por Prestes , primeiro à Constituinte e, depois, à Constituição de 1986, tinham razão  de ser . Ele argumentava, quanto à primeira –

     1 – anteprojeto de uma comissão de notáveis nomeada por Sarney , sem presença de representantes de operários , sindicatos e outros ;

       2 – toda a legislação “fascista”(sobre segurança nacional, lei de greves, estrangeiros, etc.) estava de pé, durance sua convocação e organização , o que implicaria em coação direta ou indireta ;

         3 – não seria uma verdadeira Constituinte, convocada para tal, mas um “Congresso constituinte”;

       4 -representação desproporcional , um deputado  do Acre eleito com 10 mil votos e um de São Paulo só com 132 mil ;

      5 –  eleição  mais cara do Brasil , necessários “bilhões de cruzeiros …” …”uma Constituinte dos grandes empresários, que haviam financiado a eleição ;  entre outras.

           E indagava – nessas condições como pode a Constituinte “ser soberana e livre “?

         Convenhamos, tinha razão  e os resultados atuais mostram isso – os intelectuais e políticos brasileiros, de lá para cá, mostrando-se incompetentes ou mais uma vez conciliadores , de cabeça baixa, incluindo o PCB  e o PC do B, este a quem Prestes criticava acerbamente como “oportunista de direita “(ob.cit.).

      ART.142/CF-1988 : DEFESA DO PODER ARMADO ?

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          Criticava ainda o silêncio de todos sobre esse artigo 142 ,CF , em que são atribuídas às Forças Armadas  funções “…incompatíveis com um regime efetivamente democrático “ . Seria um preceito que constituiu “uma das maiores, ou mesmo, a maior vitória dos generais na Constituinte …” E Prestes lembrava o professor Eurico Figueiredo , especialista em assuntos militares, que afirmou que “eles (os militares) ganharam (na Constituinte) todas as batalhas “ .

            Por este artigo, às Forças Armadas, “quer dizer , aos generais” – é concedida a atribuição constitucional de “garantirem (…) a lei e a ordem “, ou seja, uma “atribuição constitucional que nem ao presidente da República ou aos outros dois poderes do Estado é tão expressamente concedida .(p.533).Para ele, a afirmação que aquela atribuição dependeria da iniciativa de um dos poderes do Estado seria apenas formal face a saber-se quem eram os donos dos tanques e metralhadoras …(ib.) .Isto é, os militares estariam acima dos poderes do Estado , ao fundo . Persistiria o mesmo domínio, como ocorria no Brasil desde Vargas, 1931.

           Tal artigo continua vigente. Edson Teles, professor, assinala –

           “…na Constituição de 1988, seu artigo 142 aponta a INGERÊNCIA MILITAR NOS ASSUNTOS CIVIS. “ (grifo da redação ) . E indaga : “Como podem os militares submeterem-se aos poderes constitucionais (Executivo, Legislativo e Judiciário ) e ao mesmo tempo garanti-los ? “  ; para ele , a relação entre militares e civis ficou quase idêntica à Constituição outorgada de 1967(id., p.534)”. Assinala  ainda :

            “Em uma democracia plena o poder não pode ser garantido por quem empunha armas, mas pelo conjunto da sociedade por meio de eleições, da participação das entidades representativas da sociedade e dos partidos políticos. Ao instituir as Forças Armadas como garantidoras da lei e da ordem, acaba-se por estabelecê-las como um dos poderes políticos da sociedade”(O Globo, p. 5 Prosa e verso, 30-1-2010).( sublinhado da redação) .

           É o suficiente. Mas, apenas para encerrar exemplos do que foi a origem da nossa atual “democracia” , e por que 50 anos depois ainda é a “democracia dos desaparecidos”, embora o ocultamento feito pelas Comissões da Verdade (demagogia, propaganda do partido então no poder , etc.) , observe-se como os empresários trataram a elaboração da mais importante norma brasileira :

           “O empresariado multinacional lançou-se no esforço final de mobilização da opinião publica a favor de seus interesses. A “caixa de ressonância” – que incluiria filmes, artigos, panfletos, anúncios em jornais e televisão, adesivos, almoços e encontros de esclarecimento com editores de política e economia (como os organizados pela Shell, Brascan, Xerox e Furukawa ) – seria criada após a decisão de investir l, 5 milhão de dólares na campanha”. “(J.Brasil, 24-6-1988  e outros . In Dreifuss, R.A “O  jogo da direita”, Vozes, Petrópolis, 1989, p.234) .

           Novamente, Prestes fez afirmação peremptória e sintética , ao assinalar que o General Walter Pires dissera a verdade quando declarou “:

        “Com o governo Tancredo Neves , a revolução de [19]64   não acaba . Ela se eterniza”.

( In “Prestes”,  Anita Leocádia Prestes,ib. , p.527  , e nota 66, “Entrevista a Lenira Alcure, Fatos, 27 maio 1985).

            Pergunta-se – e , morto Tancredo , com Sarney, muito  longe de ser um “Tancredo”(este sempre contra ditaduras ,terror,torturas) , sendo Sarney , ao contrário velho oligarca apoiador do regime terrorista ?
          Explicado e bem explicado está , pois , porque, nesta “democracia relativa”, golberyana-americana, com origens (vide antes) antidemocráticas, feita por uma Constituinte antidemocrática , desde suas origens as mais remotas , com o povo enganado pela big mídia (financiada por quem?)  e intelectuais incompetentes ou também enganados ou coniventes ,  afinal  chegamos aos “desaparecidos” e a  nosso Honestino – e a Ieda e a Paulo de Tarso , da UnB , casos até hoje ainda  não esclarecidos  , como muitos outros . 
          Isto , mesmo após décadas de forte influência da “esquerda”, de fato  direita mascarada ,  partidos autointitulados “esquerdistas”, “socialistas” ou “comunistas” , que tiveram deputados, governos estaduais, prefeitos, senadores, desde décadas , e depois os próprios governos federais (Lula e Dilma) – e nem assim, tendo como Ministro da Defesa um autointitulado comunista, Aldo Rabelo , informaram e deram conta do que aconteceu e onde estão nossos “desaparecidos”.

        EM RESUMO

        Uma questão  que chama atenção sobre a questão dos desaparecidos e sofridos da UnB é o caso de alguns professores, dela expulsos e humilhados, bem claro o do jornalista Flávio Tavares,  professor de Comunicação , que trás algumas descrições sobre aquela época,  em seu livro – onde também narra o sofrimento de um companheiro seu  , torturado até à morte, que tinha imensa raiva da repressão e que reagia violentamente a ela, xingando , provocando, cuspindo, aos palavrões . Flávio explica como teria ocorrido tal , fazendo conjecturas, o que pode ter alguma analogia com o ocorrido com Honestino .

          Ele próprio , Tavares, foi extremamente humilhado e torturado , varrido de Brasília e da UnB, o que descreveu em livro premiado (Jabuti, Reportagem, 2000, P.28 e outras ; descreve como foi tratado  em ”Memórias do esquecimento”, L&PM, 2012) . Segundo uma antiga militante,  que conhecia Honestino ( e apoiava a luta armada), este poderia  ter tido reação semelhante.

          O livro de Betty Almeida nos traz essas  reflexões, que levam a questões como a da democracia |(?!) atual , a catástrofe , estado fracassado de  exceção brasileiro, atual (cf. arts. neste site ) . Os “desaparecidos”  e Honestino , como se viu ,  integram-se , plenamente , nesse contexto, que “os explica” . Uma aberração que todos vivemos, até hoje, que esteve, nesses 50 anos,  longe da democracia natural e desejada por todos  – e que teria  que ser conquistada em reais lutas populares , de baixo para cima, e não por lutas desvirtuadas por “conciliações” .

           Caso da bem conhecida ação de Giocondo Dias(PCB, dirigente de então) , visitando o Gal.Presidente Figueiredo, às escondidas , ou  a de Sarney , presidente num golpe com aval das “oposições” , que nada mexeu nos serviços de segurança , entulhou o Planalto de militares, os mais conservadores, enquanto arrotava democracia por toda parte  .

        Ou como a  dos velhos  políticos que festejaram , com exagero , a Constituição de 1988 , aproveitando-se apenas da ocasião , quando conheciam bem os bastidores dela , isto é , que ela já fora  iniciada com uma Constituinte com os vícios antes apontados, ocultados da população brasileira,  por décadas. (Como sempre houve a exceção de alguns intelectuais ,como Dreifuss e outros, e de políticos , Prestes e mais alguns) .

        Como vemos,  cheira mal toda a atual “democracia” que vivemos, não só o caso de Honestino , ou de Ieda , ou de Paulo de Tarso , ou o dos centenas de “desaparecidos…

(na verdade , também uma fria e sádica “vingança”militar para atingir o alvo e descendentes e amigos dos perseguidos ,  modelo hitlerista e depois argelino, trazida ao Brasil por professores de tortura franceses ) .

       Também horrível o cheiro do “caso dos  empalados “, como Mário Alves, dos  esquartejados, como David Capistrano , como o de tantos jogados no mar , pelo regime terrorista hediondo , tudo   resultado das aberrações dessas “elites” , oligarquias,  militares e civis, cérebros doentios (não punidos) – que foram capazes de tais crimes contra seu próprio povo, muitos apenas contra jovens estudantes, desarmados , como é o caso de Honestino e outros .

       Crimes que , até hoje, décadas depois, atingem a todos nós e continuam impedindo o exercício de muitos direitos de muitos ,  adiados há décadas, pela insistência doentia de militares comprometidos com esses crimes e com a destuição, desde aí, do Brasil , em não reconhecerem erros e colaborarem na reconstrução do caos, por eles se não criado( foi puxado pelo Império Americano ) por eles mantido,  à custa de hediondos crimes  .

     Na UnB, insista-se, muitos professores(eram profissionais , com famílias)  resistiram e pagaram alto preço pessoal –  e foram remitidos/expulsos  , merecendo menção e respeito(o livro em tela refere algumas participações) .

       Há ainda , destaques ,  sobreviventes , até às torturas,  como,entre outros ,  o do citado ex-professor da UnB , Flávio Tavares, torturado  – casos em que até hoje  não se conhece o nome ou a punição recebida pelos hediondos carrascos  – ao que consta,  aliás, nenhuma , criminosos  ainda vivos , por aí, rodando pelas ruas , lépidos e fagueiros . Isto quando não aposentados ,  viajando e curtindo no exterior, com o dinheiro pago pelo Estado , ou seja , por você, talvez parente de um desaparecido, por nós todos .

       Como vemos, o livro e as lembranças daquela época  levam-nos a reflexões , a ir  bem longe, até teoricamente  – o que evidencia  mais um de seus  méritos.

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 (Original não revisado, o que não impede entendimento. Posteriormente ao lançamento, feitas adaptações ao original deste artigo, que o divulgava. Não houve qualquer mudança quanto ao conteúdo ou análises ).

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