O MATADOR, conto de Eduardo Borsato

Dez 22, 2013 por

O MATADOR, conto de Eduardo Borsato

                                              O MATADOR, conto de Eduardo Borsato

                    Eduardo Borsato , teatrólogo , contista, novelista, foi ghost-writer, redator da Rede Globo e adaptador de novelas de televisão para livros de bolso e livros comuns. Por dez anos, editou house-organs e jornais de bairro. “Agnus Dei” é seu sexto livro publicado pela editora KBR .

                 O autor , em sua obra, entre outras , descreve  paisagens e aspectos  da Zona Oeste do Rio de Janeiro,de forma sintética e muito original  –  violência, hábitos, namoros, malícias , paixões , taras . O que o torna criador de obras  peculiares e importantes para  a cultura nacional , em especial   quando busca-se estudar e  entender o cotidiano da mais conhecida cidade brasileira, capital do turismo nacional, cidade extensa , complexa, contraditória, com subúrbios intermináveis,   nos quais todos podemos perder-nos, em todos os sentidos .  

                 Mas, sua literatura não se limita à descrição de fatos, paisagens, locais, em especial de  um famoso subúrbio do Rio, Campo Grande ,  sobre o qual opina , insinua , adverte o leitor , de forma indireta ,  enveredando pelo fantástico e pela herança de contistas de renome mundial. Ler, reler , buscar entender as entrelinhas e o não dito ou apenas insinuado. Talvez esse o segredo para melhor apreciar-se a obra de Borsato. Que leva-nos, suavemente, por caminhos que vão da crua realidade ao sonho e à imaginação. Que nos faz pensar que tudo aquilo ali imaginado e descrito, no fundo, é verdade . O que  , às vezes, é um grande engano do leitor  , vítima de  apenas mais um truque do escritor , no molde dos grandes autores e fingidores de todos os tempos  , mas que deixa o leitor, para sempre, na dúvida – cativado. Ao refletir a respeito,  ao buscar reler algumas linhas, só então terá a certeza que foi fisgado , implacavelmente, pelo escritor .  

               Caminhandojornal.com, blog/site essencialmente político, persiste em sua tradição de publicar contos e poesias. Por considerar que trata-se de outra maneira , importante, de apreender-se a realidade , presente e passado, capazes de permitir-nos vislumbrar  o futuro.

                                                                                                                          caminhandojornal.com – Redação

 

                                                                                                         

                                                                                                             O peixe é pro fundo das redes,  

                                                                                                            segredo é pra quatro paredes. 

                                                                                                            Primeiro é preciso julgar   

                                                                                                            pra depois condenar.

                   Maneco, sapatinho branco-marrom, saltinho carrapeta, de firula, paletó cinturado na cintura, panamá debruado, tudo isso lhe compunha a figura, brilhante criatura. Quem assim o visse, maldade alguma lhe atribuiria. Mas era sujeito que com a morte convivia, com ela jantava, almoçava, dormia, com ela do lado esquerdo e do lado direito vivia.

  –Bom dia!

–Boa tarde!

–Como vai, dona Cotinha?

–Como vai, seu Barbosinha?

            Por todos passava, e lhes sorria, a alma lhes via, às vezes com elas brincava, ele o dono, ele o manejador da ceifadeira, aquele que lhes podia acabar com a dor, com a alegria, da vida a pândega, a folia.

            Assim descia ele o calçadão. Ia ao encontro de seu patrão, o bicheiro Andrezinho Frazão. Dele recebera urgente recado: de alguém devia interromper da vida o riscado. Mas de quem? Quem seria a vítima de seu punhal afiado, de quem ouviria ele o lamento e o brado, de quem enxugaria o derradeiro pranto, o último gesto, o findo gesto esboçado?

           Filho varão  

            é do pai   

            a perdição.  

           Filho varão,  

            ao nascer,   

            marca do pai   

            o entardecer.  

            Filho varão, 

            na puberdade,  

            é do pai pura inveja,   

            a marca da maldade.  

            Filho varão,  

            em pleno viço,  

            é do pai cruel panariço.

           

              PRIMEIRO ENCONTRO

            Da porta da loja, o turco Simão o avistou. Vinha do outro lado do calçadão. Ele também o viu, atravessou, do turco Simão se aproximou. Parecia apressado, mas à frente dele se postou. E, com um sorriso, como se estivesse retomando uma conversa interrompida:

            –A essa mesma hora Madame Odete saía de casa, descia a Rua Viúva Dantas, passava, toda gostosona, diante do bar do Mario Bicheiro. Se lembra?

            Gostava de lidar com figuras do passado, já defuntas. Tinha mesmo particular prazer em fazer isso. Por que seria, o turco Simão se perguntou e um frio lhe desceu pela espinha.

            –E foi numa manhã assim que o marido dela atirou.  Pelas costas. Na espinha. Mario Bicheiro ficou aleijado. Pra sempre.

            Daniel, o alfaiate, foi intimado a depor. Testemunha ocular. Única.

            –Neguei tudo. Quem tem cu tem medo. Queria lá ser envolvido?

            Daniel morreu de velho. Anos depois.

            –Morreu de velho, né?–disse Maneco.–Boa maneira de morrer. Quem não quer?

            E sorriu. E se afastou.

            E o turco Simão correu para dentro da loja, o coração num disparo.

            PRIMEIRA E ÚNICA PREDIÇÃO

            Vovó que disse, incorporada, o corpo todo sacudido:

            –Vai ser tua disgraça. Disgraça disgramada. Vai lhe tirar tudo, da vida os sete lado, o torrão e o dobrado.

            –Ai, zaflor, não faz! Tá muito gostoso! Assim é demais!

            Era a voz dela que lhe entrava pelo corpo, era o suor dela que lhe embaçava a retina,

            –Ai, você é o meu amor. Pra sempre será minha menina.

            –Menina não sou. Nem de manhã nem de madrugada. Mas vou ser aquela que vai iluminar tua estrada.

            –E agora, seu Zimbório? Como pai, o senhor tudo viu.

            –É. Pois é.

            –Pois então?

            –Não tenho nada com isso. Quem resolveu foi a mãe dela.

            –O quê?

            –Tem que casar.

            –Ah, mãe! De véu e grinalda?

            Pro casamento vieram todos os romanceiros, todas as fiandeiras, todas as flores do bem, todas as flores do mal.

            –Tou tão pesadona, bem. Casar desse jeito não é uma boa. De oito meses. Alguém já viu?

            –Tua mãe que pediu.

            –Já morreu.

            –A gente prometeu.

            A VOZ DO POVO

            –Dizem…

             –O quê?

            –O Maneco.

             –Qué que tem?

            –Sempre se veste de branco.

             –Ora…

            –Chapéu panamá e tudo.

            –Ora, ora…

            –Toda vez que…

            –Não brinca. Verdade?

            –Uma espécie de aviso.

            –Aviso, é?

            –E se encontra sempre com três pessoas.

            –Três, é?

            –Uma das quais…

            –Não brinca.

            –Espécie de aviso. Já disse.

            –Pra quê?

            –Dar um tempinho pro sujeito… se despedir da família, de algum amigo.

            SEGUNDO ENCONTRO

            Sarna sarnenta foi limpar a vitrine, dar polimento, o revoluteio dos punhos, pra cima e pra baixo, pra direita, pra esquerda e tudo uma, dez, mil vezes, até o vidro não oferecer mais qualquer resistência ao olhar, ficar polidinho, isento daquelas mossas miudinhas que embaçavam o cinzelar delicado das joias, o delicado do ourives nos arabescos dos brincos, dos anéis, mesmo das bijuterias, das simplesmente banhadas de ouro, de prata.

            Há 20 anos mantinha o negócio. Teimosia. Pura.

            –Besteira, Tavares. Vende. A loja vale um dinheirão. Hoje só tem camelô. Você não pode concorrer com relógio chinês, joias, tudo contrabando, preço de tostão. Vende. Se muda pra Barra. É chique. Não é o que todo suburbano enricado faz?

            Encharcou a flanelinha amarela de Veja vidrex, ergueu os olhos para um ponto fixo bem no meio do grande vidro e foi bem no meio do vidro grande que deu com ele, o chapéu debruado, o nariz achatado, o riso de dente amarelado, o ar de fantasma saturado. Deu-lhe um adeusinho, ao que Tavares respondeu com outro adeusinho, e aí ele se foi pelo calçadão, o passo miudinho, repinicado, de malandrinho, e a flanelinha caiu da mão de Tavares, de inopino invadido por um tremor, uma sezão, que lhe bateu e subiu e desceu da testa ao culhão, com a força de um tiro de canhão.

            SABBATH

           

            O sangue é a vida da carne, e esse sangue eu vo-lo dou  para fazerdes o rito sobre o altar, pela nossa vida, pois é o sangue que faz a expiação.

            Num lugar alto, o altar foi construído.  Na encruzilhada foi ele erguido. Com sete lados. E cobriram-se o estrado e as madeiras de alvaiade. Os tronos das treze entidades das treze encruzilhadas ficavam na mão direita de Satanás. Em sua mão esquerda, o grande madeiro negro.

            Satanás molhará o dedo no sangue da vítima e ungirá os sete cantos do altar. Depois derramará todo o sangue na base do altar.

            A vítima foi amarrada ao grande madeiro e logo descarnada. O torso foi feito em tiras. E as tiras foram comidas pelas treze entidades. E enquanto comiam sussurravam louvores. E os sussurros se espalharam pelas ruas e vielas e se transformaram em lúgubre murmúrio. A Satanás coube o sangue. E ele o sorveu em longos e suavíssimos haustos.

                 TERCEIRO ENCONTRO

            Maneco dobrou a esquina, entrou no Beco do Dibs. O escritório do Andrezinho ficava logo adiante, no primeiro andar de um edifício pequeno, com um lance de escadas.

            Na portaria:

            –Pai tá te esperando. Faz um tempão. Vem.

            Subiu à sua frente.

            Era um gnomo, não mais que um gnomo. Tinha mesmo dos gnomos a estatura, a translucidez dos olhos, o riso escarninho, as orelhas pontudas, repolhudas; na cabeça, em vez do chapéu bicudo, papal, uma bandana preta, que lhe dava um ar maganão, de Ronaldinho Gaúcho atacado das hemorroidas.

 

            No meio da escada, Maneco sacou o punhal. Foi quando ele se voltou, sorriu. E então, de condenado a condenador passou; de vítima a vitimador.

            Seu corpo em corpo de enorme abutre virou, sua cabeça em cabeça de mulher se transformou, seus braços se alongaram, em garras afiadas se encompridaram.

            Enfiou-as no peito de Maneco, que gritou. No alto da escada, assustado com o grito, Andrezinho apareceu. O abutre sobre ele se lançou, com o bico e com as afiadas garras o estraçalhou.

            E, lá do alto, sobre o destino de todos nós reinou.            Depois, altaneiro, para o céu voou.

(Do livro “Agnus Dei” , KBR Editora, Petrópolis/RJ, 2013). 

2 Comentários

  1. Belo conto, seco,”faca na água” , vamos repetir.Mônica.

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