O Bom Cidadão

nov 16, 2018 by

O Bom Cidadão

 

O BOM CIDADÃO

 

(Conto , retirado do livro “Brasília Ainda Chora “ , de Mauro M. Burlamaqui)(*)

 

 

Ademar, um cidadão exemplar, funcionário público aposentado, cumpridor de seus deveres, bom pagador de impostos. Tinha presenciado, de longe, da janela do seu apartamento, três vezes, uns rapazes assaltarem motoristas, num sinal perto de seu prédio. Perguntava-se, então, quando aquilo acabaria. Tinha telefonado pra Polícia, claro, e descrito o local. Mas, os assaltos continuavam. Avisava-se, a Polícia aparecia, às vezes, sempre bem depois. Ficava por ali um ou dois dias, e, depois, sumia. E tudo voltava ao normal – mais assaltos.

  Deveres

Chateado, começando a ficar ranzinza, nos seus sessenta e cinco anos, gordinho, massudo, cabelos brancos, rareando, pensava em quando chegaria a sua vez. Afinal, costumava passar por ali. Reclamava com a mulher:

– Eles nem têm boas armas. É mole porque estamos desarmados. Esse tal de desarmamento,  uma covardia contra o povo. E a Polícia não dá conta. Ficamos nas mãos de qualquer vagabundo. Essa história de não reagir, medo de armas, o resultado é esse. Nós, classe média e os pobres, o que podemos fazer? A bandidagem faz o que quer. Mulher e idoso, nem se fale. Abra o olho, bem. A coisa tá ficando pior. Os ricos podem pagar segurança ou guarda particular. Nós, não. Ficamos, feito palhaços, telefonando para um número que não atende. É nosso dever tomar providências, agir.

 Desarmamento

 

                 Os assaltantes ou traficantes não eram os que mais o incomodavam. Qualquer um que tenha ideia de assaltar – pensava – vai conseguir se dar bem. Até pivete, com faca de cozinha, leva tudo da gente. Ainda mais com essa campanha contra as armas. Não reagir. Obedecer ao bandido. Entregar tudo. “Eles não têm nada a perder e você tem sua vida.” Mentira desses safados. Baboseira. Jogo de palavras. Mas, cola. A gente fica na dúvida. Entregar sua mulher e filha? ONGs sem vergonha. Financiadas com dinheiro estrangeiro. Nosso dever de cidadãos é não permitir essa pouca vergonha. Reagir, sim. Com consciência. Até porque reagir faz parte da natureza. O cara reage e, às vezes, morre. Não por reagir, mas por lhe faltarem condições. Não podemos ser um povo de “ovelhinhas” medrosas – pensava ele.

– Mas, bem, você não é polícia. E dizem que as armas matam criancinhas – reagia, afinal, a mulher, depois de ouvir os arroubos dele.

– Conversa fiada de sem vergonhas. Como dizia o Shane, lembra, aquele pistoleiro de um filme americano, esqueci o nome, ao guri amigo dele: “A arma é uma ferramenta, como a enxada. Quem mata é o Homem.” Vi esse filme três vezes. Você pode matar até com uma caneta ou chave de parafuso.

– Calma, Dê, você não é mais garoto. Nem está fazendo serviço militar. Isso foi há tempos – CPOR, essas coisas. Agora é assim, no Brasil. O povo já se acostumou.

– Se reagissem, puxando o moleque, com força, pra dentro do carro! Aí bastaria segurar o braço do ladrãozinho e pisar o acelerador. Então, eles é que “perderiam”. Depois, um soco bem dado resolveria. E pegando um safado, este denunciaria os outros. Resultado de imagem para idosa na cadeira de balanço

– Marido, as coisas mudaram. Tão bem pior.

A mulher, gorducha, meia idade, cabelo curto, oxigenado, tentando parecer mais jovem, trabalhava numa papelaria próxima, como gerente. Ouvia muita coisa, aprendera a ser paciente. Era quem continha os ímpetos ou ranzinzices do marido:

– O problema é maior, Dê. Tá tudo errado. Não tá vendo que o governo não quer que a gente se defenda? É a política deles. Não fizeram aquela campanha toda, na televisão e nas rádios, contra as armas? Pense. É complicado. Querem o povo quietinho, apanhando calado, domesticado, para ir acostumando. Isso vem das origens do Brasil. Desde Portugal. Você não tem mais idade para essas coisas.

– É, pode ser. Eu li, numa revista, que as armas brasileiras são boas. Um amigo professor, o Antonino, me explicou que isso vem dos estrangeiros. Não querem a concorrência com as armas deles. Um país assim, vai acabar como? Quintal dos outros. Olha a política. Pior do que vaso sanitário. Se não se reage…

– Fala baixo, bem. Se ouvem você, sabe-se lá. Essas coisas não se falam. Eu, lá na loja, fico na minha. Só ouço.

O marido era teimoso. Orgulhava-se de sido da Infantaria, Exército, CPOR, reserva militar. Uma das poucas coisas especiais que fizera na vida. Homem de outros tempos, cantava o Hino Nacional com o braço direito junto ao peito e adorava o Hino da Independência. Tinha amigos animados, ex-atletas ou esportistas de fim de semana e de mesa de chope. Não suportava nada daquilo. Essa estória de não reagir, obedecer ao bandido e tal e coisa. Irritava-se logo:

– Quê isso. E se é verdade o que você está dizendo, pior. Traidores. Covardes. Querem um povo de cagões. Reagir, sim. “Indigno é quem não se indigna com tantas maldades”- repetia – Ouvi isso por aí e tá muito certo. Não se pode ir, em paz, à esquina. Não podemos ir, a pé, a um supermercado, como íamos antes. Lembra daquela vez, quando voltávamos, cheios de sacas, e uns moleques tentaram tirar-nos as sacolas? Não se pode parar num sinal. Logo aparece um pedinte ou assaltante. Ou os dois. O ladrão disfarçado de mendigo. Só não aparece a Polícia. Nós, os otários, desarmados. Telefonando para um número em que ninguém atende. E a vagabundagem até escolhe a “bola da vez”.

– Ademar, filho, você não tem nem arma. Esqueça.

   A Pátria e a bagunça

– Porque inventaram uma porrada de exigências, taxas, exames, psicólogo, tudo caríssimo. Querem um povo de babacas. Preparam o povo para isso. Ovelhinhas acovardadas, bem mansas. Mé, mé, mé. O cara pode matar com faca, enxada, pedaço de pau, envenenando as águas. E esses políticos não entendem nada. Matar o povo não é problema pra eles. Quanto menos gente melhor. Querem o resultado do suor do povo – grana, money. Estão liquidando o país. Roubando como roubam, arrancando impostos, até direitos adquiridos do trabalhador. Eles têm é medo do povo. Medo. Esse negócio de tirar as armas do povo não tem nada a ver com moleques de rua. Quando eu estava em forma, era jovem, não aturava. Ia pro pau.

A mulher rira da imitação das ovelhas. Mas, continuara contrariando-o :

Imagem relacionada

– Ah, Dê, isso foi há séculos. Agora você é o “Seu Cuequinha”, tomando cerveja e vendo futebol na televisão. Fica calmo, toma uma, tem na geladeira – respondera ela. Um cliente nosso, o professor Telmo, um dia, batendo papo, deu uma aula sobre isso. O que a gente vê é a beirada do mingau. Eles escondem tudo. Os gringos mandam aqui . A porcaria é maior que a gente pensa. Somos peixinhos, bem. Não se meta em confusão.

Ademar coçava a barriga, ou a careca, e depois calava. Mas, ainda era um tipo forte, decidido, por isso irritava-se. Fora atleta. E ainda fazia alguns exercícios e dava umas corridas, mesmo com dores no joelho. Tinha, em casa, uns pesinhos,  com que se exercitava.De quando em vez, acompanhava um amigo, na ida a uma academia. Às vezes, ficava indo lá por uns quinze dias, um mês, depois largava. Gostava, ao contrário da mulher, que não era afeita a qualquer esporte. Nem mesmo para assistir.

– Lutar pela Pátria. Você nunca cantou hinos. Honra. Morrer pela Pátria , se preciso.

– Dê, isso acabou no Brasil. Aqui tem é a PM, e você sabe para que ela serve- cacete no povo.  Esquece .

A mulher era o contrário dele. Talvez por isso davam-se bem. Ela equilibrava as coisas, em casa e na vida. Quando estudara, faltara às aulas de educação física, que detestava. Agora esbarrava nos móveis, por falta de jeito. Vivia cheia de manchas cinzentas na pele. Se jogassem uma bola para ela, com certeza  deixaria cair.

-Atualmente, nem se ouve mais hino algum. O povo canta uns pedacinhos deles, em jogos de futebol. E naquelas partes que não falam em luta, nada disso. Observa, bem. Hoje em dia, Pátria? Honra? Quê isso. Você precisa se atualizar, Ademar. Não gosta nem de computador. Verdade, hoje, é a da televisão. Veja a garotada. “Fica” com dez, numa noite. Uma pouca vergonha geral. E ninguém fala nada. Só a idiota aqui. No meu tempo !

Ademar não a ouvia, mas dava-lhe razão, de forma automática. Embora a considerasse espertinha, achava-a acomodada. E ela era mesmo. Casamento, filhos, netos, aquilo tinha-lhes enchido a vida. Ela nunca quisera problema. O negócio dela fora e era trabalho, casa, família, sossego, TV. Eram vistos como um casal simpático.As pessoas até ouviam o Ademar, sempre reclamando. Achavam certo o que dizia. Mas, ninguém ligava.Afinal, era um velhote. E estava tudo errado mesmo, há muito tempo. Tinha-se mais é que viver bem.

  Afinal, assaltado

 

            Um dia, chegou a vez dele. Foi assaltado, no mesmo lugar do qual tanto falava, junto com uns amigos. Pego de surpresa, perdera a agressividade, dinheiro, celular e até o radio do carro.

O amigo, que levava, na frente , outro velhote, também assaltado – carteira recheada, pois não usava cartão de crédito . Confuso, caladinho na hora do assalto, logo depois se irritara. Cheio de valentia, repetira a cantilena de Ademar. Tinham sido colegas de juventude.

– Erramos, Demar. Uns porcarias. Talvez não tivessem nem arma. Mas, essa droga de desarmamento deixou-os por cima. Sabem que a gente está fodido. Berram logo: “Perdeu, perdeu”. A gente é pego de surpresa. Deveríamos ter reagido.

Começara a ficar valente e depois conformara-se, aos poucos. O guri mostrara-lhes, de relance, algo , sob a camisa. Não dera para ver se era mesmo uma arma.

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A mulher dele também estava no carro. Dona Lena, redondinha, como a mulher de Ademar, prestava atenção. Reagiu, com o apoio da amiga:

– Deixa de bobagem, Carvalho. Não valia à pena, não é, Neide? E se houvesse outros, armados, por ali, como o pivete falou? E se ele tivesse mesmo uma arma escondida? Atirariam e sairiam fora. Vocês fizeram muito bem. Dinheiro é só dinheiro. Vai e vem.

Mas, Ademar, no fundo, continuava irritadíssimo. Enraivecido. Vergonha. E diante de amigos. Não faltava mais nada. Não podia continuar assim. Um absurdo. Acabaram por nem registrar queixa na Delegacia. Havia  um único escrevente de plantão, que explicara:

– Hoje, estão assaltando direto. A PM fechou uma “boca”, lá no morro. Então, o “gerente” mandou a cambada pro asfalto. Prá assaltar e fazer um “ganho”. E olha que é domingo. Quatro da tarde. A equipe está toda na rua. Só fiquei eu, sozinho, segurando a rabuda. Entrem naquela fila ali. – E apontara uma fila de mais de cinquenta pessoas, que chegava à rua.

– É só prá registrar queixas desses assaltos. Senhor, olhe, estou com medo é que invadam a Delegacia e nos ataquem, aqui mesmo. Só tenho eu e sou escrevente. Se aparecerem, levantem as mãos e não reajam , de jeito nenhum.

Ademar e os amigos desistiram e foram embora. Sentiam-se humilhados e aliviados. As mulheres, no banco de trás, caladas, tinham presenciado tudo. Ademar, como sempre, o mais revoltado:

– Essa merda de país não tem mais jeito. A culpa é nossa, povo, que não reage. Uns bananas. Aonde chegamos. Desarmamento. Só para nós, classe média baixa e pobres. Juízes, políticos, ricos, todos armados.

– Ademar, pelo amor de Deus, de novo não – interrompeu-o a mulher.

O amigo, cada vez mais chateado, pensava, agora, no que poderia ter comprado com aqueles perdidos quinhentos reais. Um churrascão, domingo, com toda a família ou aquelas botas de couro de jacaré. Logo engrossava o discurso do outro:

– Ademar tá é certo, desculpe, D. Neide. Esperar Polícia ou o quê? Tudo safado. Esse governo e os polícias só fazem merda. Covardia. E olha que sempre têm o apoio da mídia. Entregam tudo e pau no povo. Porque isso é mole fazer. E nós a aguentarmos, calados. Assaltos diários, impostos sempre maiores, hospitais vergonhosos, humilhações. E o nome disso – Brasil. Pobre Brasil. Outro dia, quando machuquei o pé e fui ao hospital…

Ademar concordava, mas a mulher dele não:

-Você tá botando pilha no Ademar, Carvalho . E o Ademar já é uma pilha. Você também não tem idade para isso.

– Nosso dever… – recomeçava Ademar .

– Dever no Brasil, a essa altura? Péra lá.

Ficou, afinal, por isso mesmo. E todos retomaram suas vidas. Vidinhas. Os meses passaram.

  Vidinha sem graça

Um dia, Ademar estava indo ao cinema,com a mulher, ao anoitecer , para não voltar tarde. Com mais de sessenta anos, os dois pagavam meia entrada. Por isso, iam mais ao cinema, ver as novidades e, depois, tomar um lanche, num shopping. Foi, de novo, atacado por ladrões. Exato naquele mesmo sinal, perto de sua casa.

Nenhum policiamento, e ele, como sempre, desarmado, cumpridor das leis. Não levava nem um canivete. Ele e a mulher pegos de surpresa, paraAssaltante, Ladrão, Penal, Crime, Homem variar. Só que,desta vez, Ademar, já tarimbado, estava mais  prevenido. Tinha pensado naquilo, muitas vezes . E fizera um plano, sem contar à mulher.

– A carteira, devagar – grunhira o ladrão, a mão sob a camisa solta. Ou tinha uma arma ou fingia muito bem. Não dava para saber, com certeza, o que havia sob a camisa. E o ladrão movera a cabeça em direção a dois vultos, parados na esquina.O mulato magrela, uns dezesseis, dezoito anos, continuara :

– Olha, o pessoal ali também tá armado. Vacila e te enchemos de caroço.

A mulher  , que estava ao lado, logo apavorou-se e reagiu  como sempre:

– Entrega tudo – falou, baixo, sussurrando, mas de forma que o assaltante ouvisse – Não vale à pena. E ela estendeu a bolsa em direção ao ladrão.

 Um aposentado em ação

Ademar pegou a carteira, tirou umas poucas notas, antes separadas, e fez sinal que baixaria mais o vidro. Baixou e puxou o braço do cara, firmemente, para dentro do carro, voltando a fechá-lo . Apertara o botão de fecho automático.O sinal abriu e ele, rápido, arrancou, batendo, de leve, no carro da frente, que já avançara além da faixa branca. O vidro da janela fechara-se, espremendo o braço do ladrão. O jovem magrela, cabelo tosado, foi, então, sendo arrastado pelo carro. Debatia-se e dava joelhadas, socando a lataria, com a mão livre. Se havia alguma arma, com certeza teria caído no chão.

Ademar não cedeu aos gritos e palavrões do ladrão. Nem parou. Continuou a acelerar, olhares admirados dos passantes e outros motoristas. O carro avançava, arrastando o sujeito pela rua, a essa altura o braço talvez quebrado; os pés, descalços, esfolados, batendo no asfalto. Determinado, insensível aos gritos do outro, braço retorcido, à altura do cotovelo, imprensado pelo vidro, Ademar ainda conseguira torcer-lhe os dedos. Ignorou, sem uma palavra, os puxões e berreiro da mulher , aturdida.

O plano antes bolado era chegar à Delegacia Policial 18, próxima. Mas , na confusão, vira , ao longo da via, um carro da PM , sobre a calçada , bem no  seu caminho . Os  gritos   da  mulher  e  do assaltante      nos ouvidos, o ronco dos carros, buzinas, ele puxando aquele braço imprensado pelo vidro, encostado no teto do carro. A cara do sujeito colada no vidro da porta do motorista. Dirigindo, sem mudar a marcha, viu que não daria para ir mais longe. Resolveu, então, parar ali mesmo, perto da patrulha, bem antes da delegacia. Apertou a buzina, com o cotovelo, e embicou o Gol verde na calçada, avançando alguns metros e parando.

Dois policiais, surpresos, correram em sua direção. Abriu a porta do carro, com dificuldade, baixando o vidro da janela do carro que, por milagre, não quebrara. O corpo do cara escorregara, caindo no chão –  gemia e remexia-se.

– Tentou roubar-me no sinal – balbuciou Ademar, esbaforido, para os policiais.             

Apontava para o rapaz, pés ensanguentados, braço quebrado, pulso torcido, sangue no rosto, pois batera a cabeça no carro e no chão. Tinha ferimentos no rosto, mãos, peito, quase no corpo todo. Deitado na calçada, sujo, respirava, com dificuldade.

Encolhendo-se, exausto, Ademar sentara-se no chão, mãos na cabeça. O outro, figura grotesca de sangue, sujeira, corpo magro todo distorcido. Choramingava e tentava passar os braços pelo rosto, para limpar-se. Os policiais não tocaram em nenhum dos dois. Nada falavam. Olhavam. Ademar, nervoso, levantou e começou a falar, sem parar, pedindo providências.Que  sujeito fosse logo preso,  pois  era  um  miserável  ladrão,

que tentara assaltá-lo. Sua mulher vira tudo – era testemunha. O PM, que parecia o chefe ,um sargento,  barrigão de chope, bem maior que o de Ademar, mas mais troncudo e alto, era um sargento.Ademar reconheceu pelas divisas e um crachá, virado ao contrário. O PM respondeu-lhe, contendo o tom da voz:

– Tudo bem. Conhecemos a turminha, senhor. Deve ser um deles. São daquele “pombal” ali. Um favelão vertical, em pé – e apontou uns conjuntos de prédios, ao longe.

Ademar sentiu-se mais animado. Estava cansado, o carro com a pintura arranhada, cheio de mossas, estofamento da frente rasgado, paralamas amassados. Sua mulher continuava dentro do carro, mãos no rosto, respirando fundo. Chorava sem parar. Mas, acabara, vencera. Voltou-se para o PM:

– Bom, tá feito o serviço, policial, minha boa ação pelo Brasil. Está entregue um assaltante, pego em flagrante. Posso ir agora? Estou cansado, machucado. Vou deixar meus dados e depois passo na delegacia. Sei onde é. Minha mulher tá muito nervosa e eu estou dolorido, já não sou garoto. – E deu uma risada chocha.

Apontou o carro, arranhado e sujo, e começou a procurar, nos bolsos,  seus documentos :

– Vou me lavar e passar num posto de gasolina. Olhem o que ele fez comigo e com o carro, todo arranhado.

Mostrou aos PMs suas mãos e braços machucados e sujos, com traços de sangue.

O sargento PM fazia anotações numa prancheta, enquanto o outro policial permanecia um passo atrás, olhando a dupla recém-chegada e examinando o carro. Ademar tentava colaborar:

– Com esse aí na cadeia, vocês pegam os outros. Fiz minha parte. Vou deixar nosso endereço, tudo certinho.

Procurou uma caneta, para deixar o endereço. O sargento , com o braço e a mão esquerda , fez-lhe sinal para que esperasse . Deu uma risada :

 

– Calma. Péra aí, senhor. Não é bem assim. Terá que ir à delegacia, preencher fichas, assinar o BO, a ocorrência. Os que estão no carro terão que ir, como testemunhas.

O sargento apontara para a mulher de Ademar .

– Depois, avisaremos ao Juizado, porque acho que o suspeito é de menor.

O sargento, a seu modo, estava sendo irônico. Parecia divertir-se. Como se pensasse: “Esse cara acha que é mole assim. Me traz uma merda, no fim de meu turno, mais um cara machucado, que pode ser de menor e quer logo cair fora.” Ou, então, talvez : “Prende-se um bostinha e ele logo estará na rua. Que adianta? Bobeira. ”

       O outro PM cortou, voz baixa, seja o que for que pensasse:

– A gente sempre enxugando gelo, não é? Essa porcaria cai em cima da gente a essa hora! A patroa me espera . Vamos perder a noite, por uma micharia. Tenho uma “segurança” para fazer. E o gordinho quer cair fora.

– Ele vai ver o que é bom. Essa porra vai render. Se vai – respondeu o sargento, entre dentes, voz rouca, nada prestativo. – O cara tá machucado, talvez seja de menor. O gordinho não vai dar uma de esperto. Comigo, não. Joga essa merda em cima da gente, posando de herói, e quer  sumir ? Não senhor,  vai render, se vai.

Na delegacia

Três horas depois. Ademar e a mulher, ainda na delegacia, ouviam os gemidos do rapaz, com curativos, sedado, mas ainda ali, num banco de madeira. Dizia que era “de menor”, repetia aquilo. Agora, um grupinho o defendia . Diziam-se seus amigos e parentes:

– Safado, racista, o senhor, sim. Olhando o quê? Você mesmo. Olha pra mim, ô coroa. Ele estava vendendo balas, não ia roubar nada. Se fosse, colocaria um trezoitão na tua cara. E você iria se cagar e entregar tudo. Onde tá a arma? Ele não tem nem faca. Safado, mentiroso. Soltem ele . Deixem eu falar com ele. Filho da puta! – falava, entre dentes, uma mulher pequena mulata, magra, mal vestida, sandália de dedo, dentes sujos de cigarro.

Pessoas agitadas, no saguão da Delegacia:

– Olha aí, ele mesmo contou.Não ameaçou ninguém. Não roubou nada. Só vendia balas e  pediu um dinheiro .E daí? Queria vender balas, prá não passar fome. Isso não é crime. Pedir não é roubar. Todos os vendedores daquele sinal viram e conhecem ele. Não tem nem arma. Prova, seu “X-9”. Tem que provar que ele estava armado e te assaltando.

 

A mulher do Ademar, ouvindo aquilo, ficara ainda  mais nervosa. Lembrara de um político, em quem votara, que acusado de falcatruas dissera a mesma coisa. E estava solto, numa boa. Agora esse sujeito repetia isso . O rapaz choramingava, sujo, pés no chão, sem camisa, lanhado, enxugando-se, com dificuldade, nuns trapos. Figura de dar pena. Segurava o braço, caído, por certo quebrado. Aguardava a ambulância, se é que ela viria. Os policiais não tinham viatura para levá-lo a um hospital. A  disponível não tinha gasolina.

Um policial jovem, louro, moderninho, camisa de marca, tênis Nike, destoando dos outros, tentava por ordem na bagunça: Resultado de imagem para aposentadoria por idade

 

– Fiquem naqueles bancos. Todo mundo, você aí, também. Assim, não dá.

– Minha mulher viu tudo – interrompeu Ademar – Não é nada disso. Havia uma arma, sim. Era um assalto. Os PMs podem confirmar. Foi um sufoco – insistia ele, repetindo a história, pela décima vez, na frente dos policiais.

Não conseguia  fazer-se ouvir e contar o ocorrido. Era sempre cortado, obrigado a fazer relatos sucintos e parciais. Os policiais militares diziam nada terem visto. E ele não podia contar que planejara aquilo .

-Quietos. Deixem o inspetor completar o registro. Olhe, Seu Ademar, sua mulher não é boa testemunha – interveio o sargento. É parcial e suspeita porque é sua esposa, entende? Suspeita. E nós não vimos nada. Tem outras testemunhas? Um vizinho?

-Bem,só havia eu e ela no carro. Íamos ao cinema.

– Precisa outra testemunha, ao menos .

 E as provas?

– Eles também não têm testemunhas. São todos comparsas. Estão sempre por ali. Fingem que vendem balas e assaltam a gente. Abre-se o vidro e tudo pode acontecer.

– Mas, eles não são parentes do acusado. E a acusação é sua. O senhor é quem  diz-se vítima.

– Sou vítima. Fomos assaltados!

-Solta ele, solta, doutor. É inocente. Velho maluco. Fez essa merda toda porque achou que era assalto e não era nada disso.

– Tá caduco. É racista. Tudo porque o garoto é negro e  branquelo não gosta. Acha que todo negro é ladrão, não é? Não havia arma na jogada. Sequer uma faca.

– Deve ter caído no chão,  na confusão. Já fui assaltado antes, bem ali .

– Tá vendo, doutor ? É por isso. Já foi assaltado. Quer vingança.

– Registrou a queixa, senhor ? Tem o número da ocorrência? Os rapazes são os mesmos? – indagou logo um outro detetive, que se chegara à mesa e agora participava do caso. – O doutor delegado quer andar logo com isso e liberar a área. Resultado de imagem para pessoas

 

O grupo estava, a essa altura, numa antessala do gabinete do delegado.

– Bem, não registrei a queixa porque…

– Este o erro. Não registrou, não existe. Então, não serve. Esqueça.

– Soltem o menino, prá  levar ele pro hospital. Ele é de menor. Este velho racista está perturbado. Temos é que prestar queixa contra ele.

– Não há provas. É  sua palavra contra a deles. E aqueles dois dizem que viram tudo e é mentira sua. Uma armação. Uma sujeira por vingança porque estava com raiva pelo outro roubo, que diz ter sofrido .

– Absurdo, meu senhor, eu não perderia tempo com isso.

– Não sou eu quem está dizendo. É o que alegam as testemunhas. Que o senhor é idoso, está nervoso, estressado – voltou a intervir o sargento da PM, mostrando-se, agora, mais simpático aos assaltantes e aos parentes e amigos deles,  que já estavam ali, pois moravam perto.

– Não tem provas. E há testemunhas, do nosso lado. O cara até reconhece que arrastou nosso menino. Machucou e humilhou o rapaz. Lesões corporais .

– Conte de novo como foi – disse o policial louro , virando-se para Ademar.

– Já expliquei várias vezes. Vinha dirigindo. Parei no sinal. Ele chegou na porta do carro, colocou a mão na cintura, e, com gestos mandou abrir o vidro. Abri. Pediu dinheiro, meu celular , a bolsa da mulher.  Esses aí eram os que estavam  na esquina e ele apontou . Até conhecíamos eles, de vista. Costumam assaltar, por ali.

– Viu, doutor? Está acusando a gente sem provas. Agora acusa as testemunhas. Maluco.

– Minha mulher viu tudo. Vingança? Tenho mais o que fazer.

– Coroa. Idoso, meu senhor, idoso. Gagá. Tá variando – e a mulher, que se dizia mãe do rapaz, fez um sinal com o indicador direito, rodando-o, junto à cabeça.

– Cale-se ou vou esvaziar a sala. Continue, senhor.

– Parei no sinal. O negrinho chegou-se à janela do carro e disse, quando abri o vidro: “Passe a carteira. Já.” – E mostrou o revólver sob a camisa.

– Ele está sem camisa. Onde  esconderia o revólver ? Tem certeza que era arma? Qual o tipo e calibre? Pense. O senhor não os reconhece do outro assalto. Nem registrou. Quer dizer, talvez não sejam os mesmos. Diz que foi, mais de uma vez, vítima de  assalto, naquele lugar, mas sem provas. Desculpe, é preciso provar – atalhou o PM, com o assentimento do policial. –  Eram conhecidos entre si.

– A arma, o tipo de arma. Viu-a direito?

– Bem, foi rápido e havia uma camisa, sim. Ele levantou e baixou, rápido, a aba da camisa – disse Ademar, imitando o gesto do outro.

– Viu, velho safado, mentiroso , pois usa óculos. Ora se é “cegueta”, como viu direito ? Como reconheceu os caras, lá na esquina? E , doutor, ele  chamou meu filho de “negrinho”. Todo mundo é testemunha !

– Velho, sem vergonha, falso! – gritaram os outros rapazes, talvez menores, um deles levantando os braços e saindo da sala, reclamando.

O policial louro irritou-se :

– Sai todo mundo . Quis adiantar, mas não tem jeito. Prá fora! Só ficam na sala os suspeitos ou quem autorizado.

Fora Ademar e sua mulher, ficaram apenas uma senhora de bermudas, bebê no colo, e dois homens de chinelos, suados, camisas fora da calça. Conhecidos tanto na delegacia como dos rapazes.

Um dos homens, magro, bigodinho, meio careca, não perdeu tempo. Chegou-se aos policiais:

– Desculpem o traje. Fui tirado de casa. Sou presidente da Associação de Moradores. Falsa denúncia. Lesões corporais graves no garoto. Conheço eles. Gente boa, de família, trabalhadores. Tavam vendendo balas porque estão desempregados. A crise, o senhor sabe. Estão registrados na Associação como procurando emprego. Temos os nomes deles no fichário. E ouvi esse senhor aí, dentro da delegacia, xingando o menino de “negrinho” alguma coisa, o que é preconceito , racismo,  infringe a lei, não é?

– Esse sujeito aí estava me assaltando, doutor. Junto com os outros. Eles davam cobertura a ele. E servem de testemunhas? Minha mulher…

– Sua mulher não serve como testemunha. Já expliquei, senhor. Só pode informar.Já disse, não insista . E os outros servem porque estavam por ali e não são parentes de ninguém. Não há prova que estivessem assaltando, não há armas, nada. Pode mostrar um documento seu, por favor? Ah , a  carteira de motorista serve e dispensa outros – a do Detran.

     Noite estragada 

A noite de Ademar estava acabada. E pensar que só pretendia ir a um cineminha, com a mulher ,seguido de uma pizza, no shopping , bem perto de casa. Sentia-se

cansado, desgastado. Aliás, mais que isso – estressado, tenso. Um absurdo tudo isso. Queria voltar para casa, tomar um banho e dormir. A mulher, encolhida, constrangida, olhos inchados pelo choro, de quando em vez passava as mãos sobre eles.

– Senhor, sua carteira de motorista está vencida, sabia? Não poderia estar dirigindo. Não pode .

– Não sabia. Desculpe. Mas, isso não tem nada a ver com o caso.

– Tem, sim .Seus atos, na direção do veículo, podem ser questionados. Inabilitado . Sequer poderá levar o carro daqui. O doutor delegado vai ter que analisar a situação. E, na direção, causou lesões ao rapaz.

O outro estava machucado. Queixava-se do braço quebrado e outras lesões. Gemia. Esperava, há horas, a tal ambulância. Mas, ela não chegava. Talvez estivesse suportando as dores pelos sedativos que tomara, comprados pela mãe,  na farmácia da esquina.

Ademar percebia o ambiente negativo. Tudo virava contra ele. Sua sorte é que a mulher, mesmo chorosa e constrangida, não perdera tempo. Logo ao chegar, enquanto ele contava sua história e se aborrecia,  ela chamara um advogado conhecido, freguês da papelaria. Tinha o cartão de visitas dele.

Não sabia quando aquilo acabaria, nem quanto custaria. Porque nem advogado amigo trabalharia de graça, àquela hora. Ademar engolia a indignação e a raiva. Volta e meia , um beliscão discreto da mulher -um aviso.

Sabia que devia controlar-se. Só a mulher talvez imaginasse como lhe custava ficar quieto. O estômago embrulhado de tanto ouvir calado aquela mentiralhada,  somada com a falsidade e cinismo de uns e outros. Por azar, ainda por cima, sua carteira de motorista estava vencida. E, distraído, usara mesmo o termo “negrinho safado.” “Porra, em que merda fui me meter .” Agora, cada detalhe, até tolo, se voltava contra ele, sob a luz dos holofotes da Polícia e com testemunhas, numa delegacia.”E esse cara é um negrinho safado, mesmo” – pensava, irritado.

Quem era o culpado? 

A culpa era dos assaltantes, fossem ou não menores de idade. Ele apenas se defendera . Quisera fazer o certo. Ali, todos mentiam para se ajudarem ou Resultado de imagem para assalto salvarem-se. Os policiais enrolavam ao fingirem que nada sabiam e agora diziam não conhecerem aqueles pilantras. Tudo talvez para livrarem-se da “porcaria”, mais trabalho para eles – interrogatórios, investigação, relatórios. Não queriam perder tempo com registros de “coisa pouca”, tantos crimes de sangue por aí . Importante era quando havia morte ou ferimento grave de autoridade ou gente rica e famosa, com cobertura da mídia. Aí , era coisa que sairia em jornal e na televisão. Se, ao menos, o caso envolvesse uma boa grana, ainda valeria. Nada disso ocorria – cochichava Ademar, para a esposa. De repente, um arrepio – seria ele , ali,  o “pato” a ser esfolado?

Agora,chegara seu advogado, de terno, querendo mostrar serviço. Mais gastos . O advogado batera-lhe no ombro e já conversava com os policiais. Para justificar os honorários, evidente – pensava.

 Mais um criminoso

Ademar xingado de vários nomes – e acusado de lesões corporais, racismo, delito de trânsito, falsa denúncia. Estava furioso com os PMs que, antes, pareceram dar-lhe razão e depois alteraram sua posição. Ele ficara intimidado por aquele ambiente e aquelas pessoas. Perdera a agressividade. Não se sentia bem. Estava suando frio, dores no peito, compressão sobre o coração. Não sabia o que fazer, mas não queria deixar transparecer essas dores e ter que sair dali para um hospital. Ou ficar suplicando por um médico, logo ele. Pareceria covardia, o vexame final. Limitou-se a tomar uns copos de água e respirar fundo. Gases, provavelmente.

Seu advogado já o aconselhava a desistir da queixa e tentar uma conciliação com os assaltantes. Coisa de maluco, mas que evitaria processos penais contra ele, por racismo, lesões corporais, difamação. E mais um, na esfera cível, por danos morais e materiais. Como era possível? Virara culpado e teria que indenizar o assaltante? Além de ter que pagar os prejuízos em seu próprio carro. O inspetor advertira-o:

– Olhe, ferir menor, hoje em dia, o Ministério Público não perdoa. Muito menos os juízes. O senhor vai perder .

Questionou o advogado, num canto. O outro resumiu:

– Brasil. Isto é Brasil, Seu Ademar. Um homem da sua idade, com a sua experiência, não sabe disso? Sua mulher disse que o senhor é meio rebelde. Pois é.

Foi obrigado a ouvir ameaças, sussurradas, mas bem claras, de um dos dirigentes da Associação. Quando entrara no banheiro, fora imprensado numa parede, por um dos caras:

– Fica na tua, ô otário, porque a gente sabe onde tu mora. E lá não tem Polícia toda hora, não. Os azul pouco aparecem. Tu num vai tê nem como escapá nem como reagi. Tu não tem nem arma, não é, ô babaca? A gente tem de sobra, ouviu? Tu é daquele predão lá, metido à besta, perto do sinal. A gente te manja.

  Afinal, na rua

Saiu da Delegacia, de madrugada. O carro, antes novo, amassado e sem espelho, ficou no pátio. Estava mais deteriorado do que quando ele estacionara. Os amigos dos malandros, que ficaram horas por ali, tinham aproveitado para, de passagem, danificá-lo mais ainda, aumentando-lhe o prejuízo. Assinara vários papeis na delegacia. Não sabia bem o quê. Confiara na sua mulher e no advogado. Teria que se reapresentar, ao delegado, e depois ao juiz, responder a inquéritos, ir não sabia bem aonde. Um monte de coisas .

Voltou para casa de táxi. Resmungava e suava. Ao lado, a mulher, preocupada. Àquela hora, ainda saíra da Delegacia pela porta dos fundos, para não esbarrar com os parentes e amigos do menor e o pessoal da tal Associação. O advogado dela ainda preveniu-o que ficaria em cima das investigações para que ele pagasse “seus crimes”. Parecia um bom advogado, agressivo, melhor que o seu.

Chegou arrasado em casa. Ele, logo ele, racista, quando era um fiel cumpridor das leis. Como era possível? Expusera-se, envergonhara a mulher, na frente de todos, advogados, policiais e moradores da área. Ficara ainda mais “manjado” . Sentira-se intimidado pela Polícia, por aqueles caras e pelas acusações. Então era assim? Não podia fazer nada? Fora humilhado, embora não tivesse sido maltratado. Cumprira seu dever e acabara encalacrado, acusado de vários crimes. Algo estava errado. E ainda ficara no ar a insinuação, insinuação não, a acusação, e por escrito, em depoimentos, que ele é quem provocara toda aquela situação, por antipatia, vingança, destempero, racista que era. Disseram, ainda por cima, que ele e a mulher tinham inventado aquela história .

E o pessoal dos assaltos havia feito àquela ameaça direta, descarada, contra ele e a mulher. Àquela altura, nem contara aos policiais. Não acreditariam e os meliantes ficariam com mais raiva dele . Teria que mudar de bairro. Isso é que dava morar perto de favela. Mas, como ser diferente se, hoje, no Rio,  havia favelas e marginais em toda parte, alguns dormindo sob  marquises de ricos prédios ?

Aquilo não lhe saía  da cabeça – despesas enormes, suas reservas, logo ele e a mulher, que controlavam os gastos. Pior: teriam que mudar de bairro, baita problema. Como defender-se contra essa gente, se não tinha armas, a Polícia nada garantia, demorava a chegar se chamada, caso viesse ?  Defender-se como, se  até para comprar um simples revólver havia tantas exigências? Ora,  os caras tinham dito  que tinham armas e balas à vontade – e era verdade. Toda noite  escutava tiros, concerto noturno com o som de balas diferentes. Horizonte iluminado por balas e fogos de artifício , nas favelas, a pouca distância de sua casa . Tudo mais intenso nos dias em que chegavam tóxicos – tiros  à vontade.

  Em casa

Chegou a seu condomínio deprimido , confuso, emburrado, fechado em si mesmo. Sequer respondia à solícita mulher. Não porque estivesse zangado com ela. Muito ao contrário. Só não suportava falar. Não queria discutir o assunto. Uma vergonha, tudo saíra errado. E agora? A mulher, ao menos, não lhe tinha feito a fatal e humilhante pergunta:“Eu não disse?”Ou levantado a afirmação tão insuportável como justa: ”Bem que avisei.”

Resmungava para si mesmo e abanava a cabeça, enquanto despia-se, arfando como um rinoceronte velho, chifres cortados. Veja só, pensava: “Me xingaram de velho várias vezes, como se isso fosse crime. E não é discriminação?” Olhou-se no espelho. Agora, parecia mesmo um velho. Era um velho. Sentia-se assim, talvez pela primeira vez na vida  – velho, doente, enfraquecido. Sem ânimo. Antes, não pensava nisso. De repente, anos e aborrecimentos antigos caiam-lhe em cima. Num único dia, num fim de tarde, numa noite, tudo parecia  distorcido, ele , sua vida , seus valores. Não só na questão dos assaltos, mas na Polícia, nas leis, no comportamento das pessoas, dos profissionais, das instituições. Brasil, dissera o advogado, mas só essa palavra não explicava . E o bandido era menor mesmo. Mas, e daí ? Um sujeito daquele tamanho, folgado, ousado, maduro, ainda era considerado criança? Sabe-se lá. Documento talvez  falso . Mentira . E o estrago  no seu carro? Era novo, comprado à prestação, agora amassado. Se é que, quando voltasse para pegá-lo,  não tivessem levado até rodas e motor. O seguro não cobriria. E corria o risco de pagar indenização por danos morais, ferimentos no rapaz, impossibilidade de trabalho do assaltante . E o cara era desempregado!? Sem contar com o problema da carteira e o inquérito criminal. Ah, ainda teria que pagar o advogado.

 

Na cama, deitado, dolorido,calado, começou a sentir-se mal. Tinha tomado um banho, ao chegar,  e, logo depois, jantado. Comera, sôfrego, queijo com pão, um resto de macarrão, torta de chocolate, um pedaço de marmelada. O que havia na geladeira. Tomara um copo de “Nescau”. A mulher, silenciosa, observara. Com certeza gostaria de ter falado alguma coisa. Talvez condenando a refeição pesada,antes de deitar-se. Mas, calara-se. Era uma boa mulher, sabia como se sentia. Por isso pouco o condenara . Não queria magoá-lo mais ainda. Ele parecia ouvi-la:

– Viu, bem? Não disse? Não vale à pena.

Olhou-a e percebeu que ela já deitara, olhos fechados. Em geral, ela falava pouco e, quando falava, ele não ouvia . Errara, sim. Perdera mais uma discussão. Sem que tivesse havido discussão alguma. Sua teoria sobre dever, ética, honra, ação – estaria toda errada? Quer dizer, no Brasil se tratava de esquecer tudo isso e …Bem, afinal, a mulher saíra vencedora  – fatos, como discutir ?

A mulher previra algo assim e tentara evitar, mais esperta do que julgara. Seu papel o de palhaço ridículo. Um otário, como os vagabundos lhe jogaram na cara.

Cúmplice, ficou observando a esposa, que dormia ou fingia dormir, muito tranquila, como alguém que tivesse cumprido seu dever. Estaria fingindo, para não conversar? Acariciou-a, suave, nos quadris, sobre a camisola. Ela não se mexeu.

Começou a ajeitar-se nas cobertas. Em segundos, voltou a sentir  dores no peito, as mesmas que sentira na delegacia, agora mais agudas. Uma compressão insuportável, que nunca sentira. Suava frio e teve que acordar a mulher, que acionou seu plano de saúde e uma ambulância.

Dias depois, no hospital, bem enfraquecido, soube que sofrera, na delegacia,  leve enfarte. E, depois, um outro, mais forte, em casa. Tivera sorte em sobreviver, segundo o doutor.

Daí em diante, nada de hinos, deveres, reação. Muito menos contra bandidos. Tudo estava muito errado. Mas, deixaria a vida correr frouxa, como todo mundo faz.Uma só andorinha e não era um “Dom Quixote”. Pensaria mais na família,  na mulher , nele mesmo . Aliás, tinha uma grande mulher. Não mais se queixaria dela, fizesse ela o que fosse.

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Tornara-se mais uma ovelhinha humana, como tantas,  das quais debochara. Agora não reclamaria nada, sequer baliria como elas –

mé, mé, mé.(*).

 

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(*)Original não revisado por esta redação. Retirado do livro      Brasília Ainda Chora -os anos sombrios…a ser lançado no dia 15 de dezembro de 2018, no Rio de Janeiro . Ver data e convite neste site . Clique no link acima .

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