O Assassinato do Brasil

mar 23, 2019 by

O Assassinato do Brasil

              

     * O Assassinato do Brasil * 

               <<< Mauro M. Burlamaqui <<< 

 [ Conto DEZ, extraído do livro “Brasília Ainda Chora”]

 

 Um paraibano jovem, politizado, com ao menos certa “consciência política”, que bem sabia ter havido um golpe militar no Brasil e que vivíamos sob um regime de exceção. Brasileiro típico e daquela época. Percebia que até pequenas reuniões poderiam oferecer perigo. Sua família já sofrera com a política, os militares no poder – irmãos presos, um deles desaparecido ou fugido e, quanto a ele, não se sabia bem o que teria ocorrido, para vir parar tão longe da sua terra. Embora houvesse várias hipóteses. Mas, até isso só viríamos saber bem depois de conhecê-lo, e assim mesmo sem qualquer certeza.

Teria sido preso e depois solto? Ou não sofrera nenhuma perseguição, pois não tinha nada ver com os irmãos? Preso e torturado, mas inocente, fora afinal solto? Mistério. Muitas notícias de perseguições e prisões.

 Não se “abrira”, nem falara algo íntimo sobre si. Não confiaria, talvez assumisse rígida segurança pessoal?

 Naqueles duros tempos, tal era comum entre os opositores da “ditadura”. Era baixo, mirrado, sofrido .

 Pequeno, magro, frágil qual um passarinho doente. Mais um de muitos  jovens perdidos no Rio, que não conheciam , quanto a isso não havia dúvidas. Sonhador, logo passara a amar as madrugadas, bares, tipos pitorescos, rodas de violão, sem hora para terminar. Mas, sempre fechado, discreto, ao mesmo tempo perto e longe de tudo . Como se contivesse alguma crítica velada, que jamais expressaria. Um subversivo enrustido ?

Parecia buscar manter sua liberdade e independência pessoal – vendia onde podia suas poesias, mimeografadas, com alguns desenhos, todas com sentido social e crítico, só então, sendo mais doce e simpático, falando pouco mais. Vagabundo, para alguns, Poeta ou Poetinha para outros, pouco se importava. Colocava-se acima disso. Mas, embora perto daqueles, por vezes, nunca foi  um dos “hippies” ou “desbundados”, que cresciam em número, na Zona Sul de então. Jovem, mas consciente da fragilidade da vida e do ridículo de certas exigências sociais – usava sandálias batidas, camisão solto, barbinha mal cuidada, jeito descolado; lembrava um nordestino sofrido, origem pobre  – exato o que era.

Sabia-se que viajara, aprendera sobre a vida do povão, cantava-a em versos aprumados, que rendiam algum. Talvez este dinheiro curto desse ao menos para comer ou, quem sabe, ainda se encostaria em alguns amigos, dormindo aqui e ali.

Nordestino, mas  não de João Pessoa, praia , mas aquele do interior. Chegara ao Rio, não de avião, à Copacabana da época – águas limpas, sonhos a perder de vista, juventude esfuziante e saudável. Uma gente provocada e até irritada com os absurdos da “ditadura”, o regime político, intransigente e violento, que em tudo se metia, de roupas a reuniões e músicas, sem falar em opiniões políticas. E que prendia e batia por qualquer bobagem. Situação sintetizada na expressão já popular – “ditadura militar” – berrada em passeatas, cinemas e teatros, por parte dos jovens estudantes, intelectuais, “classe média” indignada.

Entre os grupos em que o Poeta transitava, pouco notado, meio invisível, dava para distinguir a classe média tradicional, professores, profissionais liberais, estudantes, maioria universitária , enraivecidos, politicamente. Circulavam por bares, boates, teatros, centros culturais, sempre em shows artísticos – com livros e papéis nas mãos e bolsas, panfletos, convites,  secretas tribos não fáceis de identificar, além da superfície , porque misturadas com famílias,  casais com filhos, pessoal idoso,  bem comuns já na Copa da época.

De outro lado, havia uma dissidência mais identificável, roupas desleixadas, cheiro peculiar, cigarrinhos especiais de erva, arranjados em algum beco, calças amarfanhadas . Turma que gostava de achegar-se em cantos escuros, desiludida, assustada, bem longe de apoiar o rigor militarista, ou  violência, mas não suportando o clima conspirativo e aliciador das outras “tribos”. Isto é, as dos cabeludos e barbichas intelectualizados , universitários talvez pretensiosos, envolvidos em grupos diversos e em suspeitas estórias políticas, espalhando boatos sobre o terror e ameaças do regime. Cada um portando sigla diferente, voz baixa.

 Os “desbundados”, com tóxicos , roupas exóticas, sexo até grupal, poesias esdrúxulas, hábitos descontraídos, fumo – este o caminho mais fácil e menos arriscado, opção de muitos. Essa turma tinha atrativos – “papas” famosos, cantores e poetas conhecidos, fotos e entrevistas em jornais . Nomes de boca em boca, fazendo alguns sonharem com sucesso igual  aquele –  dos “artistas”.

Esses não  eram pró-ditadura, também chutavam a política intimidadora em vigor, dando esporádicas ajudas aos de outros grupos, embora prioridade às drogas e curtição sexual,  amor rápido em série. Além de “papos furados” infindos e drogas de todo tipo, atitude social com a qual, estranho, o hediondo regime  era complacente . Enxergaria mal ou, por alguma outra razão , desviava daí, muitas vezes,  seu olhar atento. Estavam mais interessados em colherem  informações sobre subversivos. Por vezes assistiam “desbundes”sem intervirem , sequer quanto a drogas. Sorrisos leves,  pareciam quererem , desajeitados , enturmarem-se.Talvez porque um famoso delegado, Fleury ,  era um drogado conhecido ? Estranho, absurdo ? Brasil.

 O discreto nordestino não era dessa turma , talvez de nenhuma, dando-se bem com todas. Boatos. Nada assumia, tímido e sem graça frente a todos e aos espigões citadinos, retraído até quando distribuía  suas  poesias  na Feira de Ipanema, e , lá do outro lado, no “Amarelinho”, arrecadando trocados. Gente de fala enrolada por bebida ou drogas, afirmava que também distribuía panfletos subversivos.Raro dele escapavam confidências sobre a família, vagas palavras, sussurros, não para qualquer um – para conhecidos apenas , escolhidos com cuidado.

Era uma época em que até poetinhas , caso de um amoroso Vinicius, precisavam ter sempre um olho aberto, ao menos ,  e coragem para assumirem textos que tocavam, bem ou mal, no que acontecia no dia a dia, barbaridades e absurdos. O que não era simpático aos poderosos do dia . Imagine-se o caso do Poeta e outros, quando um Caetano e Gil, estrelas festejadas, “papas” da música , tinham acabado na prisão e exílio. Clima de suspeitas , medo, terror , fuga.

Ele estava naquela outra ponta, desconhecido, pobre e anônimo – vulnerável ao máximo. Precisava mais coragem que os outros, o que mostrava, no  seu modo canhestro . Embora se escondendo, ou sumindo pelos cantos escuros, discreto demais, por vezes, participava da luta popular, ia a reuniões e assembleias, opinava, sentado no chão como todos . Sempre contra o autoritarismo, tinha posição, seja lá qual fosse. Suas poesias, nessas ocasiões, um refúgio ou biombos onde  escondia, quem sabe , medos, sonhos ou ações  ?

Um mistério, tão discreto , que teria suas razões, sem dúvida. Embora,então, quase todos tivessem algo a esconder, de uma forma ou outra. Sofrera, ou talvez  vira de perto sofrimentos não imaginados pelos que o cercavam, violências maiores que as ali conhecidas – seus olhos avermelhados, miúdos, aguados, cansados, e a voz baixa e sussurrante,  falavam quase sem  palavras, via charadas . O que explicaria alguém assim ?

Copacabana não era fim, objetivo  ou futuro para ninguém, muito menos para ele. No máximo,  ponto de apoio, passagem, por causa de um parente ou esconderijo. Lugar para dormir por alguns dias, talvez . Ele seria passante que, motivos diversos, continuava por ali. Ou estaria envolvido em algo muito enrustido ? Um dos muitos ingênuos músicos ou poetas buscando sucesso, conhecer alguém que servisse de “escada? Sabia-se lá, poucos davam-se ao trabalho de imaginar.  Praia e sol , drogas e sexo , subversão e  terror .

Capital cultural e política , Rio, crise e medo, raças, classes, credos, ideologias, esperanças. Incrível. Jovens abandonados buscando Vida , Política, Futuro , em meio à noite tempestuosa, perseguidos por zumbis armados . Maravilha, uns pensando o Brasil, eles o próprio Brasil . Tal só explicável, num país-presídio , por hormônios e poucos aniversários. Haviam passado pela Ponte Copacabana,  sonhos/utopias , aguçados por drogas e ideologias .

 O poetinha circulava, insensível na aparência, compreensivo, acrítico, ao meio de tudo aquilo – até da fumaça enevoada, peculiar cheiro, que facilitava climas delirantes. Não fumava, mas não criticava, impassível.

Nesse contexto,  o conhecemos , sempre frágil na aparência, sem engordar , chamado de todo lado, para uma ou outra tribo, que contava com fácil aliciamento, nunca conseguido . Circulava, não se agregava . Na dele, envolto naquele quase charme de menino triste, que impressionava algumas gurias.

Viajava sem sair do lugar, súbito, no “Maria Fumaça”para Guarabira, sua terra, como na meninice,  cercado de amigos, crianças barrigudas, cheias de lombriga . Corria atrás de boiadas, confundindo-se meninos, cachorros, matos e outros bichos. Todos  ouviam, ali respeitavam-se delírios alheios, origem nos tóxicos ou não – nada incomuns, tidos como normais .Ele, suas origens, tempo sem adjetivos, passado no presente, presente-futuro em que se apoiava . Mostrava só então a origem e base dos versos, vendidos barato,  mais coração e emoção que trabalho. Ah, dali viera, ali nascera .

Quereria voltar ao Nordeste cultuado ou ir adiante? Nostálgico do passado, não parecia querer voltar. Sonhava com a poesia , com a política, o fim do terror, talvez tivesse certos planos –  esperança. Senão porque continuaria ali a,  poetar continuamente ?

Nos “papos”, não um carioca de coca e  cachorros quentes, nem quando faminto. Voltava ao sítio de Seu Canga, milho e pão passado, sem aviso tirando o lanche da bolsa, voz frágil contando episódios sobre a rudeza sem disfarce dos sertanejos, levas de famintos confundindo-se com saqueadores de supermercados, que, na Semana Santa, teriam invadido Guarabira e outras cidades. Cenas que nunca esquecera e marcavam seu presente, talvez determinando seu futuro. Nunca se libertara daquilo – aquele Nordeste, sol, céu, miséria, tudo em brasa, não só na pele, mas na alma. Além do sotaque, a tragédia embaralhava-se com sua noção de tempo , liberdade e projeto de vida – e ele a assumia, orgulhoso ,  como Homem e Poeta, até nas roupas. “Antes de Poeta, sou Homem, por isso a Política me interessa” – balbuciava.  Teria lido Sartre? Não o citava.  Um passado que escondia , mas voltava e se manifestava, transbordava , indo além da fria razão . Roupa, jeito de falar, rosto, corpo e poesia o denunciavam. Queria ser ele mesmo, coisa rara , no caso impossível de disfarçar . Mas, naqueles grupos, contatos rápidos, uma impaciência histórica , ninguém atentava para detalhes, vivia só o momento e sobrevivia e sonhava. Fora, evidente, os agentes do regime.

Crescera menino mal nutrido , pequeno, tímido, recitando catecismo, bezerro magro de boiada numerosa, sem coragem sequer para perguntar ou procurar demais. Pé no chão, perdido na lama e na multidão, como  outros meninos brasileiros. Conseguira caminhar, provável a Igreja local influenciando  , fora adiante, consumira ideias de fora da família e da cidade –  Liberdade, Democracia , Igualdade. Tomava o novo, mas recusava-se a perder as origens- cultivava-as , ainda que parecessem estranhas a outros. Assim, tornava-se identificável para os inimigos .Seria ele , mesmo,  tão humilde e recatado ?

A vida levara-o, com os irmãos, por influência de professores e padres, respeitados na cidade natal(já falara em Helder Câmara), a  abandonarem Guarabira, pequena demais para estudos e inquietações. Caminhando, de algum modo , chegara às areias quentes de uma  Copacabana exuberante e , de fato,  incompatível com ele –  vibração turística, gente enfeitada e bonita, grandalhona , saudável demais , fora do eixo –  para ele. Integrara-se, mesmo assim, fora aceito, ótimo. Mas, ali, de que servia o que aprendera na sua Guarabira? Nunca entenderiam seu sofrimento, origens, nem decisão ou capacidade de tanto suportar –e, talvez , coisa do interior , fingir ?

Cordial , reconhecia  , no Rio,   órgãos públicos como hospitais , modernos, que atendiam  humildes como ele, algo inexistente em sua terra. Estava a milhares de quilômetros de Guarabira, mãe, pai , família, murchos e mais quietos ainda que ele, peles ainda mais secas e ásperas, lixas de carne queimada pelo sol . Guarabira e eles eram o Brasil,  e estavam dentro dele, mas agora  no Rio de Janeiro. E não num subúrbio ou favela, sim em Copa . Sentir-se-ia assim mesmo – em terra estranha ? Os pais, bichinhos acuados, casa humilde, vivos ainda para ele, com eles sonhava. Estariam vivos ? Telefone, não tinham; cartas nunca quisera enviar . Medo ?  Quando perguntado pelos pais, se mantinha calado , ou confundia-se ou mudava de assunto. O que , nuns poucos interessados , alimentava especulações .

No Rio, teria parentes ? Solidão quase  absoluta, afirmavam seus versos. Parentes, sim,  na sua  cabeça, os baixinhos bem longe,  daquele tempo em que dormia numa esteira, ao pé da cama dos pais .Bem ao alto, na parede desbotada , uma cruz de madeira velha, Cristo crucificado. Ele, Jesus Cristo, padres,  cursos lá na sua terra, Igreja  – estes os seus primeiros deuses libertadores e referências eternas.

As prisões e boatos chegavam às praias – gente desaparecida, sequestrada, morta. O medo se disseminava, junto com propaganda maciça e otimista de um “Brasil Grande” e do “Ame-o ou deixe-o”. Mas, quem quereria mesmo deixar o país estava impedido disso, aeroportos e fronteiras vigiados.

Aonde quer que ele fosse, indiferente ao clima terrorista, sempre controlado e  frio. Onde aparecesse, o rosto inalterado, manso, andando devagar – humilde, a palavra certa. Humilde até demais. Um monge nordestino, sem risos ou depressão . Alguém vira em seu pescoço um crucifixo, escondido pela camisa. Até isso ocultaria , por alguma razão? O cristianismo voltara a esconder-se?

Um nordestino o mais simples, sofrido, explorado, que posava de despolitizado, e não o era,  esperto,  usando cordialidade aparente, tradição antiga, como passaporte para aceitação? Talvez. O “brasileiro cordial”, o “Brasil Cordial” ?  Um truque esperto dos humildes para esconderem antagonismos e, qual serpentes ,se quisessem , poderem dar um bote contra alguém? Quem? Imaginação. Hipóteses, logo esquecidas.

Seu jeito, pose, voz fraca,em geral , mas nem sempre, máscara cabocla, recurso para sobreviver num mundo de coronéis e senhores de engenho, hoje empresários  ? Talvez. Quem indagava sobre isso era porque gostava dele. Mistério .

Os homens simples do interior do Brasil , desrespeitados, aprenderam a protegerem-se – com uso de indireta ironia, crítica ferina , saída esperta para a humilhação. O “doutô”, “sim, doutô”- chegara a tornar-se clichê.  Mas, fosse tudo isso verdade ou não, recurso usado por ele , ou não , algo consciente ou herdado, instintivo, o fato é que aquele “jeitinho” dele dera certo, no Rio – e conosco.

A face abatida, cansada (dormiria mal ou estaria doente?), a barba mal feita, jamais o rosto bem escanhoado – um planejado charme? Esperteza demais , não, não , mas ele era espertinho, não escrevia com erros, dominava as palavras, sabia de cor o be-a-bá da política de oposição , nome de  certos grupos clandestinos . Exploração do povo, “ditadura militar”, UNE, imperialismo, socialismo – conhecia tudo de cor e salteado. Estaria, dando uma “volta” em todos os seus novos amigos ?

Não acredito . Amigos, desde a primeira troca de olhares, após aperto de mão protocolar, firme. Às vezes, nos olhávamos e ríamos, sem falar. Um quê de respeito e compreensão entre diferentes e parecidos – no  físico, porte,  e nos  pensamentos – o carioca articulado e encorpado; o nordestino, aparente desarticulado e miúdo, destoante daquele ambiente.Conspiradores secretos ambos, no fundo simpatizantes e  coniventes ?

 Às vezes, nos abraçávamos,  e o pessoal brincava com ele e ria do jeito dele , saudando-o. Companheiro sofrido, como todos ali, embora não soubéssemos bem quem ele era . Verdade que nunca pesquisamos sobre ele , mesmo décadas passadas , tantas as lutas ,  os sofrimentos , muitos exilados, presos,  mortos . E investigar sobre alguém, àquela época, deixava a pessoa muito mal vista.

A escrita o fazia respeitado , num grupo que tentava produzir (mais) um jornaleco de oposição. Ele gostava da poesia e literatura, mas não nos falara sequer sua idade, o que também não lhe fora perguntado. Se passava dos trinta,  não o diria – e seria por  pouco. Todos, como ele, naquela “tribo”, estavam condicionados à discrição, exigência dos tempos.

Trabalhava agora conosco, ideias arriscadas,  todos indo além dos limites políticos concedidos , testando-os dia a dia. Ninguém sabia quando o bastão ditatorial bateria sobre nossas cabeças, pois vinha quebrando outras. Durante horas, debruçados sobre textos e livros, ouvidos atentos, gravadores, dedos nas máquinas de escrever da época, Remington ou Olivetti. Ele, compenetrado, cumprindo tarefas. No trabalho, conversas – o mundo ,a juventude, política, boatos,música , censura, prisões, mortes . No caso dele, excessiva discrição, barreira no convívio diário.

O que esconderia, a que grupo pertenceria? Ninguém perguntava, apenas  pensava. Olhares, troca de opiniões, na ausência dele. Por quê? Falta de confiança quanto a nós ou discordaria de nossa forma de agir ? Havia diferentes posições quanto à ditadura, críticas entre “tribos” e grupos . Havia quem desprezasse oposição de papel, pequenas rebeldias ou manifestações . Já se pregava luta mais radical . Estaria ele perdido, entre nós, ou escondido ? Seria “sobra” de algum grupo já massacrado pela repressão?

Logo correriam , de boca em boca,  nomes de famosos, como Marighella e Lamarca, assassinados,  com estardalhaço. Deveriam servir de exemplo , intimidação , advertência . Mas, ninguém perguntava muito , pois não era de bom tom – quanto menos se conhecesse, melhor. Isto era o que se repetia. Nossa tarefa era publicar um tabloide – e só.

O tempo passava, ele impávido , sem mudanças, os mesmos olhos pensativos, cansados. Lento nos gestos e caminhar, restos de entusiasmo perdido ? Talvez …

Um dia, uma pergunta, em voz alta – “ei, alguém viu o Poeta por aí?”  – Um colega esclareceria – “o cara miúdo, o Poeta de olhos grandes. Quem sabe dele?”

 Alguém rira : – Ah, o paraibinha, o Poeta nordestino.

 Ele teria gostado – chamado de Poeta, orgulhava-se. E por que não? Era mesmo o nosso poeta de estimação. Eu e outros depois nos sentiríamos culpados. Quem sabe não fôramos nunca os amigos “do peito”que ele precisava? Culpa nossa, por não insistir para que ele falasse sobre si?  Desaparecera, de repente.

Dúvidas. Talvez tivesse necessitado que, ao contrário de discretos ,  fôssemos enxeridos, tivéssemos mergulhado em seus problemas. Mas, mantivéramos com  respeito e distância , segundo o quase protocolo da época . Fôramos respeitadores demais  ou, ao fundo,  egoístas e insensíveis? Boatos. Alguém lera algo sobre a fuga de um grupo , de uma penitenciária. O sobrenome de um dos “terroristas” era igual ao dele, que, um dia, distraído, o assinara numa poesia,  que vendera em Ipanema. A poesia era dele, o sobrenome o mesmo , mas e daí? Um sobrenome comum .Nada mais.

Naquela época, quem investigaria isso ou sua ausência ? Não havia Google ou internet – sim, muitas repartições cheias de policiais e seguranças –  e um clima de terror.

Dias passados e ele já fazia falta como colaborador – e amigo ,  ser humano. Agora, só era possível conhecê-lo melhor pelas  entrelinhas de seus poemas abandonados , o que começamos a fazer. Apareceria alguma notícia,  via jornalistas conhecidos?

Talvez fosse tarde demais .Indagávamos agora : quem era mesmo  ele, onde morava? Nem isso sabíamos. Uma vez, dormira na sala usada por nós, sede do jornaleco, mas dizia sempre que residia com um  amigo não nomeado , numa rua do bairro. Só. Sumira, pois,  como aparecera, de repente, e pouco se ficara sabendo sobre ele.

Policiais disfarçados circulavam pelas ruas e bares de Copa. Levantou-se a hipótese de morte repentina ou problemas psicológicos, ele mais um entre tantos, à época. Ou estaria preso? Mas, ele, passarinho indefeso, sem condição física, como ofereceria perigo aos paquidermes no poder?

Alguém lembrara – por vezes, ele parecia estranho, lento. Resultado de remédios que tomava ?Teria problemas psicológicos? Mas, num país com censura, prisões, violência, perseguições, terrorismo oficial, quem não se sentiria amedrontado ou perseguido ou ansioso? Quem poderia ser condenado por , alguma vez , tomar um calmante ?

O pessoal lembrava como  ele aparecera,  sem explicação ou apresentação. Chegara. Um quê de cansaço, parecendo vir direto de sua Guarabira da infância, do “Maria Fumaça”, no meio daqueles meninos barrigudos, tão distantes da Copacabana ensolarada e atlética, de aparente paz e felicidade. Falara algo sobre o passado, que pouco interessara, com um cansaço tal que sugerimos fosse descansar, voltando outra hora. Não negou, mas não deu o endereço. Voltaria, queria colaborar. Saberia como nos encontrar – mistério, pois, desde o início. Depois, se fechara qual ostra.

 – Bem, descanse, coma bem, tem dinheiro? – indagamos todos.

 Respondeu que sim. Insistimos. Manteve a resposta e mostrou algumas notas.

 – Tudo bem, vá, vê lá o que anda fazendo . Tem que se alimentar melhor, cara. Aguardaremos.

Foi levado à porta do elevador e, pela janelinha, vimos seu tímido sorriso, meio sem graça. Dias depois, voltou, propôs-se a ajudar e, aos poucos, fora sendo aceito. Agora,  sumira de vez .

Daí em diante, tudo o que fizemos teve um pouco dele – buscas, artigos, conversas. Percebemos, cada vez mais, o pouco que falara de si. Em meio a problemas, não reparáramos, de início, sua  ausência – daquela vez , prolongada .Afinal , era um colaborador, sem horário fixo, naquela bagunça mais ou menos organizada – nossa “redação” .

Deixara algumas coisas – alguns papéis e poesias. Um dos seus textos : “Meu tempo é o tempo de agora mais o passado e o futuro: comunga a dor de Felipe dos Santos esquartejado, aceita o risco do grito, acerta o trajeto do soco”. Bonito . Assinara, “Feriado de Tiradentes – Luiz Raimundo, 21-04-1973.” Aí, só aí, tardiamente, descobrimos que tinha um outro nome , além de Poeta. Nome verdadeiro?

Desaparecera, como outros, àquela época – engajamento na luta quase perdida , doença , morte ou prisão? Tentamos encontrá-lo –indagamos na Feira de Ipanema. Consultamos pessoas, fomos ao Amarelinho, no Centro. Nada. Muita gente procurou-o, açodada, sonhando vê-lo num ou outro bar ou ponto de encontro. Inúteis telefonemas e procuras. A certa altura,  só importava saber onde estava – nada mais.

Um dia, afinal , uma informação – ele era membro de uma família de “subversivos”, todos inimigos da “ditadura”, gente de armas nas mãos, os irmãos dele até aparecendo em  fotos – “terroristas”. Ele, um “terrorista”? Ora,  o Poeta não aguentaria segurar sequer  um revólver trinta e oito , muito menos uma metralhadora .

Alguém teria visto um retrato dele, junto com outros, como procurado – cartaz colado num posto de gasolina. A “ditadura”, de fato, costumava fazer isso. Mas, talvez fossem apenas seus irmãos, não ele, nosso poetinha . E daí? Pois é .  Ele, claro, nada teria a ver com isso. Ou teria?

 Um boato, comprovado meses depois  –  ele teria sido largado, de madrugada, numa clínica psiquiátrica pública, machucado e fora de si. Uma irmã – ninguém sabia o nome , sequer que ele tinha irmã – o teria descoberto, por um telefonema anônimo. Fora ao hospital, de imediato, horário proibido para visitas. Contra os regulamentos, com o auxílio de uma enfermeira,  que ficara com pena dele , ela  chegara a um quarto,  onde ele estaria.

 Madrugada, luz fraca, a irmã do Poeta teria visto , numa cama, um corpo pequeno, frágil ,  lençol branco estendido sobre ele. Com medo,  passos trêmulos,  achegara-se e puxara o lençol .  Era ele. Teria reconhecido o rosto magro e esmaecido do irmão, gotas de sangue na boca e no lençol.

 Ela saíra do hospital e logo espalhara a notícia, do jeito que pudera, como forma de proteção. Esperava reação de amigos, jornais, conhecidos – mas não houve nenhuma. Censura. Os amigos, acuados, temerosos,  e também perseguidos,  não tinham a menor influência; os jornais estavam censurados, até o jornaleco, tabloide ; o povo, nem se fala – desinformado e desorganizado. Corriam estórias – nosso poeta teria sido preso, torturado, perdera a lucidez. Fora levado, sem identificação, para aquele hospital, para que morresse sem comprometer os algozes.

Em outra versão, torturado, doente, sangrando, resolvera suicidar-se, já no hospital, tomando umas pílulas. Ninguém acreditara, pois se era sofrido, também era curtido e resistente.

 As informações respondiam a antigas dúvidas. Dia seguinte, a irmã voltara ao hospital e não encontrara mais o corpo dele . Vira, apenas , numa cesta de lixo do quinto andar, onde ele estava na noite anterior, o lençol branco, sujo de sangue. Ninguém o vira nem sabia de nada. Quem quisesse informações – dirigir-se ao DOPS, polícia política. Não se sabe quem ou se alguém foi lá, sequer a irmã dele . Falava-se, naquela época, que quem entrava em certas delegacias jamais era visto de novo. Casualidade ou não, nunca mais se ouviu falar na irmã do Poeta.

 Um nome, entre outros–“Poeta”.Teria sido “terrorista”, um guerrilheiro ? Difícil ,  quase   impossível …Mas, …

 Mas, quem sabe ? Dele ficaram lembranças, escritos diversos, poesias. Aquele rosto frágil, brasileiro . Possível, alguém assim, doce, ter um outro lado oculto, violento  e até armado – além de bem escondido?

Brasileiro, jovem, nordestino, paraibano, culto, sonhador, decidido. Não soubemos mais dele, seu corpo, cemitério ou cremação . Nada. Só de um livro e de suas poesias. Na memória, aquelas gotas vermelhas no lençol branco de hospital , narrativa da irmã . Rio de Janeiro, Copacabana, 1973 .“Desaparecido”. Apenas um, entre centenas, depois saberíamos. Mas, o suficiente para símbolo e prova do assassinato do Brasil.(**)

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(**) Conto extraído do livro  “Brasília Ainda Chora”(Civilis, RJ, 2018), de Mauro M. Burlamaqui.

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