O Brasileiro , o Riso , a Alegria e a Pandemia

jun 16, 2021 by

O Brasileiro , o Riso , a Alegria e a Pandemia

O Brasileiro , o Riso , a Alegria e a Pandemia

– uma pequena reflexão

Mauro Burlamaqui

Os brasileiros, por décadas, ou séculos(?!) , ganharam a fama de alegres, agradáveis, um país “paraíso “, na beleza e paisagem , segundo Aurélio Buarque de Holanda(“Raízes do Brasil”) . Mas, enquanto isso , o Brasil foi vilmente explorado por europeus e outros , caso dos americanos do Norte .
Colonizado e depois neocolonizado- vítima do imperialismo português, inglês e americano , os mais cruéis , que aqui vieram matando, torturando , cooptando , deturpando valores , em especial das classes dominantes locais(promovendo golpes militares, governantes traidores, elites corrompidas e ridículas ) .

Além disso , promovendo a talvez maior escravidão de negros do Ocidente, que aqui chegavam exauridos, doentes, transmitindo a sífilis e outras doenças , transformando o país, afinal, num paraíso escravocrata, durante séculos – e depois promovendo, final do século XIX, uma parcial retificação legislativa da situação , com a Abolição de 1888 , mas sem maiores providências quando à essência do problema, suas causas e consequências.

Grande parte daquele povo vilmente explorado, por séculos, foi-se tornando pouco a pouco miserável, sem direitos mínimos, sequer condições sanitárias, as prisões tornando-se focos de criminalidade e tortura , as favelas cercando cidades, de um lado ; e, de outro, sendo integradas a elas, caso, no Rio, das localizadas na Barra da Tijuca , Ipanema e Copacabana, para apenas lembrarmos exemplos claros. Mas, sempre tendo o direito de parir , a trancos e barrancos , e de festejar sua própria desgraça e religião , seja via músicas, carnavais, cantos. Desde que não se propagasse a rebeldia, apenas distraísse-se e desanuviasse o sofrimento.

A forma final de manutenção dessa situação , a mais primária – repressão brutal aos locais, dominados, em especial índios e negros, ao nível dos selvagens europeus de séculos atrás – esquartejamentos, torturas, índios na boca de canhões , genocídios , etc. Tal está bem atestado por estudiosos do tope de Gilberto Freire(“Casa Grande e Senzala”). Mais recente, Tiradentes esquartejado , serve de exemplo.

A par disso , séculos de dominação estrangeira, que chega a nossos dias, a ponto de eminentes intelectuais verem o Brasil ou como um Protetorado Americano(Mangabeira Unger) ou como uma

Província(Octavio Ianni), continuou-se a promover entre os brasileiros a festa e a música .

Os brasileiros apontados como musicais , alegres , o país como um paraíso tropical , o Carnaval como marca registrada , o humor como uma das características do povo.

Quem propagou sempre tal , que é apenas meia verdade, alegria promovida de cima para baixo , foi o próprio Estado, direto interessado na “paz pública” e dirigido pelas elites locais, aliadas a interesses estrangeiros , de um lado ; e , de outro , mascarado sempre , o grande Capital mundial , colonizador .

Mas, música e festas , apenas em alguns períodos. E levadas pela mais poderosa mídia de cada época , sempre sob a égide do capital dominante – o estrangeiro , e seus aliados locais. Alegria , Paraíso, Carnaval, Musicalidade – promovidos, de um lado , pelas elites dominantes . Enquanto, de outro , promovia-se exploração contínua, do escravo e depois do povo “livre”. Mais a rapina de produtos minerais, manipulação de um potencial enorme mercado consumidor ,promoção de empréstimos estrangeiros a juros excessivos, sempre apoiados por corruptos políticos locais( por certo, por isso, recebendo comissões , ou melhor , gordas propinas) .

Isto , sem contar ,empecilhos, diretos e indiretos, colocados pelas elites e seus mentores , sempre, no sentido de impedir uma industrialização independente , nacional , soberania popular , bem como a formação de infra-estrutura apta a estimular aquela industrialização . Com o objetivo óbvio de proteger a entrada de mercadorias estrangeiras , impedindo concorrência local . (Houve, inclusive ,numerosas leis protegendo esses interesses estrangeiros , proibindo industrialização nacional, ao curso de séculos .(Cf., entre outros, “Formação Histórica do Brasil, de Nelson W. Sodré).

E , assim, chegamos aos dias de hoje, quando a epidemia de covid-19 mais evidencia e deixa transparecer , pela radicalização social e gravidade dela, tudo acima referido . Ratificando , miséria, corrupção , desordem, retrocesso , dominação estrangeira , dando-se aqueles interesses imperialistas ao requinte de quererem mais ainda do que obtiveram daqui , e ainda vêm obtendo, até agora.

Não só o poder político, já alcançado, a conquista do Estado , como diria Dreifuss .(“1964”)como o enfraquecimento dele e das instituições, o que a presença militar-administrativa atual bem o demonstra – a falência da administração e elite civil.

Endividamento progressivo, infraestrutura deturpada e furada , meio ambiente em processo de destruição , instituições disfuncionais, o Paraíso se não transformado já em inferno, ao menos em purgatório – sujeira, doença , miséria , desmatamento , poluição, alcançando as mais famosas praias, areias, florestas . Estas, anteriormente, como consolo, um tesouro brasileiro ainda preservado.

Mas, voltemos a falar da ideologia, de valores, dos brasileiros alegres, felizes, sempre festejando ,capazes de rirem das mazelas presentes e passadas , de promoverem músicas e humores de primeira grandeza, bem além daqueles europeus e norte-americanos. Aspectos que continuam promovidos pela big mídia atual local e mundial .

De fato, enquanto toda a desgraça acima ocorria, gradativa , para a maioria da população, avançavam , para minorias, inclusive usando e manipulando maiorias empobrecidas , de cima para baixo , carnavais e brincadeiras e humor fajuto , humilhante .Por exemplo, voltado para ignorantes e analfabetos, funcionais ou não , idosos, mulheres ,negros, gays e lésbicas – e protegido por um regime, Estado , instituições apoiadas pelos impérios do dia , usando ,na sua sanha ideológica, as maiores mídias locais .

Situação que, em resumo , em 2021, já apresenta como saldo a deterioração nacional geral, absurda mesmo , política, econômica e social , atingindo-se desvio de verbas até destinadas a hospitais, medicamentos, oxigênio para agonizantes .

Dessa catástrofe , excluindo-se da miséria econômica, não da moral ou ética, apenas as elites cooptadas por interesses estrangeiros e parte da “classe média” e pequena burguesia tomadas pela vontade de imitá-las e ascender socialmente . E, assim, nosso povo chega a assistir inerte , e quase sem reação , a morte de 500 mil dos seus. Isto , quando mais de 50 por cento poderiam terem sido poupados com a tomada de óbvias providências, como medidas de precaução diversas e vacinação maciça promovida desde os primeiros momentos da epidemia .

Na verdade, o ser humano não tem a índole bondosa que alguns imaginam. Basta lembrar as arenas romanas de séculos atrás, em que o público se divertia com a morte brutal de cristãos, cortados aos pedaços. Ou as “artes” de Nero , anos sem reação . Ou , recente, os “bullings”.

No Brasil, no caso , uma administração viciada e corrompida, minimamente competente, subordinada às frações políticas mais reacionárias , exploradoras e negativistas do Grande Capital Mundial – nada se apressou para enfrentar a pandemia .Muito ao contrário, desprezou ajudas diversas , da Venezuela e até dos EUA , retardando providências, tomando a si esdrúxulas teorias anticientíficas, ofendendo próceres da OMS e até mesmo de alguns dos países maiores produtores de vacinas , (que poderiam ajudar o Brasil) , caso da China.

O Brasileiro , o Riso , a Alegria e a Pandemia

Enquanto isso, alguns brasileiros, por certo bem intencionados, continuam a clamar e a exaltar músicas, músicos, amor, musicalidade , humor , etc.- enquanto milhares de brasileiros morrem . Uma solução para maior calmaria e todos sentirem-se melhor ? Quem promove tal ? Afinal, não seriam os mesmos que promovem, por indiferença, aquelas mortes ?

As elites ligadas a interesses estrangeiros, aqueles mesmos de séculos atrás, os que exaltavam o paraíso, o carnaval , a alegria , sempre incentivaram e permitiram festas aos dominados – enquanto exploravam brutalmente o povo . Muita festa e musicalidade promovidas através de big mídias ligadas ou promovidas direto pelo grande capital estrangeiro dominador – através de séculos. Uma espertíssima tática para amenizar a dominação e aplacar ou adiar tensões sociais e revoltas ?

Será que foi nesse contexto que os brasileiros aprenderam a rir de seus problemas e sofrimentos e a brincar com tudo? Denunciando as origens do aprendizado, durante décadas , brasileiros da elite e explorados, juntos , a gozarem e rirem dos negros e suas mazelas, da velhice, dos gays , das mulheres estupradas e vilipendiadas , da ignorância e ingenuidade das crianças ? Isto é , a debocharem , via risadas , de si próprios e de seus iguais ? E , em sentido contrário, a exaltarem justo os “politicamente corretos” daqueles tempos, os mais fortes, exploradores, ricos, prepotentes ? Ou seja, a opressão sendo assimilada , considerada natural – e normal. Muitos anos se passaram até parte dessas questões começarem a serem discutidas.

Afinal, tratar-se-ia da luta das espécies, da prevalência dos mais fortes e aptos ? Aos quintos dos infernos o sofrimento de Cristo torturado, pacifista , na cruz . Afinal ,muitos assistiram , inertes e conformados, a seu sofrimento – tudo bem, em razão da força das armas romanas. Apenas por isto ,ou não só ?

Ao lado de Jesus Cristo, hoje , na big mídia e redes sociais, enganando incautos, metralhadoras, opressores, bilionários ou ricos, não pobres como Jesus – ao fundo , o Império Americano , a matar e torturar, trumps à frente, alguns mais dissimulados (chegamos a isso!), bolsonaros e orbans a seu lado.

Do cristianismo autêntico , da parte desses , apenas a pregação do Paraíso, de outro mundo garantido aos sofridos , lá no Céu , porque este daqui não teria jeito mesmo – deve apenas ser suportado . E se você comportar-se bem, será consolado no outro mundo , que não este.

Onde estaria o outro mundo ?Nos Céus , bem longe daqui, num lugar que ninguém sabe descrever direito , mas que deve-se confiar que existe . Sofrimento por aqui, alegria por lá . Fora a esporádica , promovida pelo Capital e seus estados satélites , por aqui mesmo , de quando em vez.

Será que os colonizadores ensinaram mesmo, a esse povo , mesclado de negros e índios explorados, a rir dos outros, e de si mesmos , a fazerem tal “ humor “, e até a acharem engraçada sua própria miséria e exploração ? No caso , o que alguns chamariam de “alienação”?

Música , risos, nostalgia, tranquilidade sempre , nada de exaltação ou pressão alta .Revolta, rebeldia ?

Nada disso. Na China , os colonizadores usaram ópio, para acalmar e confundir chineses , aqui algumas drogas disseminam-se, aos poucos , entre ricos e pobres . Aparente , sem envolver algum projeto estratégico de dominação.

Mas, não será o simples RIR bem mais útil para baixar a pressão, tensão , emoção, além de menos complicado e danoso, do que propagar o uso do ópio ?

Afinal ,via risos baixa-se a pressão arterial , a sua e de outros, apela-se à emoção e não razão , fala-se em coração e não cérebro, mesmo sabendo que deste vem decisões e compreensão correta . Com tensão e pressão diminuídas , haveria melhor aceitação de mazelas, violências e mortes , na sociedade brasileira ?

Há lógica nesta afirmação.

Afinal, estamos em quase 500 mil mortes , só da covid-19. Quem foi punido ? A impunidade e o autoritarismo grassam pelo Brasil, cada vez em dose maior. O Estado de Exceção informal, ante-sala do nazismo , forma moderna de governança das democracias capitalistas , avança . Tudo no mesmo sentido dos genocídios constantes, ao longo de nossa história .Ou ignorados ou despercebidos, já que nossa mídia colabora sempre com eles , eis que aqui não há “direito de antena”, como existe, por exemplo , em

Portugal ( a mídia , ao publicar uma notícia ou denúncia, é obrigada a acompanhá-la até sua solução final, qualquer seja ela).

No Brasil , sentido contrário, até a “Justiça Eleitoral” julga a si mesma, arquiva e ignora denúncias , a seu bel prazer , e ainda afirma cheia de soberba – “Não há provas, nem um caso confirmado”.

Ao meio de grandes crises , e do acima descrito, sempre o humor, grandes humoristas , a intenção de fazer RIR . E , por isto , promove-se , e compensa-se , financeiramente, humoristas consagrados pelo

Capital e pela big mídia , mesmo os que deturpam , grosseiramente, a realidade social; e , ainda , premia-se burocratas estatais que fingem não conhecer as distorções em curso e que , ao verem denúncias , calam-se, educados. A norma jurídica é cumprida conforme cada caso , via “interpretações”. Nem sempre há efetividade. Por isso, também não eficácia.

E ainda, nesse contexto , elege-se políticos “educados”, que a tudo submetem-se , inclusive acordos e conciliações espúrias. Tudo por uma eleição para um Senado da vida – o verdadeiro paraíso , cheio de privilégios, por aqui .

Muitos a aplaudirem o “jeitinho” brasileiro, sempre em moda – que deve funcionar , quando nem risos , humor, “paraíso” ou musicalidade ou carnaval derem conta da situação .

E quando nada disso der certo ? No Brasil, e em outros lugares , usa-se o “argumentum baculinum” , o do “cacete”. Aquele do taco de basebol , tão propagado por um agressivo presidente americano .Em outras palavras , golpes, ditaduras, torturas, anarquia das elites e burocracias , militares ou não. Sempre contra o povão porventura discordante, que recusa-se a rir . Quando nenhum engodo der certo ,nem mesmo o do riso fácil , ou o da piada , propina, “jeitinho”- só resta a violência secular , única forma de tratar com populares selvagens, ignorantes , inconformados , que não entendem nada de bondade , amor, coração , música , brincadeiras . Sequer de samba dia e noite ou religião. E que não respeitam nem Jesus Cristo.

[ Reflexões “livres” sobre o riso fácil dos brasileiros , e sua inércia , que persistem mesmo na pandemia, depois de 500 mil mortes ].
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