“INDEPENDÊNCIA”?(II) – 07/ SETEMBRO/ 1822 –

Ago 27, 2013 por

“INDEPENDÊNCIA”?(II)  – 07/ SETEMBRO/ 1822 –

       

 

                     (II –  Brasil : a crise / 2013  vem desde  1822? )

 

            “...o Brasil se converterá … num mero segmento do mercado internacional e em mais uma província do império .(…) o Brasil, e os demais países sul-americanos …tornar-se-ão, aceleradamente, meras expressões geográficas, domesticamente controlados pelas grandes multinacionais e internacionalmente dirigidos por Washington, embora conservem as aparências formais da soberania  : bandeira, hino, exércitos de parada e até eleições.Eleições a partir das quais , quaisquer que sejam os eleitos, estes se verão compelidos, o queiram ou não, a seguir as diretrizes do mercado internacional e as ordens de Washington.” (Hélio Jaguaribe, “A história é implacável com os estúpidos”, “O Globo”, 5-5-2005).  

             ”… o governo não manda em si mesmo, estão sendo mandados por uma política feita pelo mercado e pelo imperialismo, essa é a verdade …. (Plínio de Arruda Sampaio , “Caros Amigos”, Maio , 2005).

                                                                (II – CONTINUAÇÃO)

 

                                                                           (Redação)

                                                                                             

 

                 O que a Constituição de 1824 escondia 

          

               A Constituição de 1824  assegurava , formalmente,  ampla liberdade individual  e garantia a liberdade econômica e de iniciativa .

              O direito de propriedade mostrava-se resguardado , havendo até garantia de educação primaria gratuita,  para todos.

              Entretanto , observação mais detida mostrava que ela excluía os direitos políticos dos trabalhadores , criados de servir (exceto alguns mais destacados , como os primeiros caixeiros das casas de comércio e  criados de maior categoria ou administradores de fazendas e fábricas ), bem como os  que não tivessem renda  anual  correspondente a 100$000 por bens de  raiz, indústria ou emprego .

             O artigo 179 , que garantia as liberdades individuais,  inspirava-se  na Declaração dos Direitos do Homem , feita pelos revolucionários franceses de 1789 . Havia parágrafos que eram mera transcrição . Omitiam-se , entretanto , a soberania da nação, a definição da lei como expressão da vontade geral e a declaração do direito dos povos de resistirem à opressão , características fundamentais das outras constituições .

              A intenção era  manter escravizada mais de um terço da população  ;  a monarquia ;   uma representação limitada que não envolvesse maiores riscos – em resumo , um arremedo de democracia, mesmo para aquela época.

               Afirmavam-se a liberdade e a igualdade de todos perante a lei, mas a maioria da população permanecia escrava. Garantia-se o direito de propriedade , mas a maior parte da população , quando não era escrava,  compunha-se dos que viviam em terras alheias  .

             Se , formalmente, garantia-se a segurança individual ,  podia-se matar impunemente um homem.

           Se havia liberdade de expressão , não eram raros os que  pagaram caro  por confiar nisso .  Enquanto o texto da lei garantia a uma coisa, a realidade era outra – realidade e …interpretação da Lei . Tal valia também para a “independência” da Justiça , apenas um  instrumento de grandes proprietários da época .

             Aboliam-se as torturas,” mas nas senzalas, os troncos, os anjinhos, os açoites , as  gargalheiras continuavam a ser usados , e o senhor era supremo juiz, decidindo da vida e da morte de seus homens.”(…)

             Uma fachada democrática formal ocultava a miséria e a escravidão da maioria dos habitantes do país .

             “Conquistar a emancipação definitiva da nação , ampliar o significado  dos princípios constitucionais seria tarefa relegada aos pósteros .” (Álvaro de Vita, “Sociologia da Sociedade Brasileira “, ed. Ática , SP, 1989, p . 25).

             Por outro lado, somente muito depois de 1822 consolidou-se , parcialmente, tal independência, que parecia , inicialmente, ser nacional – isto é, envolvendo “o Brasil.” Na verdade, províncias como Pará, Maranhão , Cisplatina e outras negaram-se a aceitar a independência e só muito depois, através de massacres de mercenários contratados (o mais conhecido o famoso almirante inglês Cochrane ) , houve algum respeito pelo governo central.

              Bonifácio de Andrada , auxiliado pela mulher de D.Pedro, Leopoldina, tentava levar adiante um projeto para o Brasil – a monarquia constitucional . Devendo-se levar em conta que esse ministro , homem culto e viajado, tendo estudado em Coimbra , e filho de abastada família paulista ,  era funcionário fiel, de longa data, da corte portuguesa.

              Quanto ao fato da constituição aprovada preocupar-se mais com as aparências do que na mudança da realidade (conservava a escravatura e a monarquia e as ligações com Portugal e, indiretamente, com a Inglaterra, através de dívidas e empréstimos assumidos ) , isso envolvia velho  vício brasileiro de manter as aparências .

               Um  formalismo legal não coincidente com  a realidade,  característica  das elites e povo  brasileiro , desde longa datas  , apontadas seja por Sérgio B.Holanda )(“Raízes do Brasil”) ou Gilberto Freire (“Casa Grande e Senzala “), como , mais recentemente, por Cristóvão Buarque(artigos, “O Globo”/ 2013) , referindo-se , mais especificamente, ao comportamento da administração sobre a questão educacional.

                Situação que persiste até hoje , quando , como vimos acima, vultos como Plínio de Arruda Sampaio e Jaguaribe mencionam fachadas e aparência , quanto à soberania nacional , decisões políticas e outras ,  da mesma forma que décadas atrás. [Jaguaribe fazia uma previsão futura que, ao que tudo indica, ocorreu antes do que ele previra, embora tivesse feito a ressalva de que isso aconteceria caso não houvesse um PIB bem mais alto do que ocorreu, entre outras condições.(Ausência de soberania nacional).]

            

           3. SETE DE SETEMBRO – 2013

                

                       Avancemos para 2013, para efeito, mais um vez, de comparação e análise. Em 2013, as comemorações do 7 de setembro ocorrem em condições completamente  diferentes de 1822 . Mas, ainda assim, com toda essa diferença de tempo e condições, há  algumas similaridades que devem ser assinaladas.

                      Em Brasília/2013, o historiador Francisco Teixeira considera que “além de deprimente, o espetáculo foi melancólico. Um pequeno público , afastado das centenas de militares que “desfilavam e das autoridades da República pelas centenas de militares que protegiam o desfile” – o que coincide  com a análise anterior.

                  No Rio,  – para ele – o “espetáculo teria  sido patético . Militares das Forças Armadas desfilaram impassíveis isolados de algumas dezenas de manifestantes por centenas de policiais militares, em meio à fumaça das bombas de efeito moral “.(O Globo, 10-9-2013) . O historiador  questiona  a festa cívica sem povo , embora reconhecendo que tal celebração , no Brasil, sempre fora “uma festa para o povo, nunca do povo . “

                 Para esse historiador, teria havido muito povo “nos acontecimentos anteriores e posteriores ao dia 7  . Sim, anteriores e posteriores – porque a definição da situação , em si, teria sido  uma mudança envolvendo elites dominantes.

                  Dom Pedro teria sido  constrangido a ficar no Brasil face a um manifesto de 8 mil habitantes de uma cidade de 150 mil.  Dias depois, cerca de 10 mil pessoas teriam se reunido no Campo de Santana para enfrentar , “armas na mão , a “Divisão Auxiliadora” portuguesa , mostrando,  afinal , a repulsa do país à dominação portuguesa .

                A independência teria custado sangue de muitos  brasileiros tanto  na Bahia como  no Maranhão,   Piauí e  Pará . O que é verdade, em especial através do mercenário e almirante inglês Cochrane , que , por sinal ,  promoveu  massacres e saques grandiosos , em São Luís. Isso após ter sido recebido como herói na corte ,  Rio de Janeiro…

                O  historiador conclui : …”não faz mais sentido , se alguma vez o tenha  feito, excluí-lo da participação  nesta que é a a maior festa cívica nacional. É preciso trazer o povo de volta à festa de uma independência que ele ajudou a fazer , alterando ,  radicalmente,  a natureza do evento “(Ib.) . Tem, obviamente, razão. No sentido estrito. No mais amplo, vamos ver melhor adiante.

               E acrescenta : “Para além da festa , e como requisito, é também indispensável trazer todo esse mesmo povo para dentro da República”.(ib.) O povo brasileiro , então como agora, em grande parte, de fato está “fora” da República – não controla , literalmente, poder algum.

               Segundo este historiador, teríamos tido uma comemoração , no caso do Rio de Janeiro ,  e em outros lugares , sem povo. Sequer o governador Cabral ou o prefeito Paes , no Rio de Janeiro , compareceram ao evento ou deram maiores satisfações.  Provavelmente, temendo serem vaiados ou sofrerem constrangimentos , como vêm sofrendo, desde algum tempo.

              Sete de Setembro de 1822, visto em sentido restrito, pois, também constituiu-se em um conjunto de atos sem povo, embora  muitos tivessem morrido , antes e depois, em função da luta pela “independência”, muitas vezes envolvida com protestos e libertação dos extorsivos impostos pagos às cortes portuguesas .

     Bombas, pedras, cassetetes               

                 Mas, o último 7 de setembro reservou  mais para os atuais dirigentes do estado brasileiro . O  que ocorrera no Brasil , desde junho de 2013, portanto , menos de dois meses antes ?

              Manifestações em todo o Brasil , reclamando da Copa do Mundo  prevista ,  das Olimpíadas programadas , dos gastos excessivos feitos , além de reclamações em relação a saúde, segurança, educação , transporte e várias outras.

                Protestos,  com muito senso , desde que totalmente justos, surpreendendo, nesse sentido, a maturidade exibida nas reivindicações. Embora , logo adiante, descambassem em certa dose de violência contra bancos estrangeiros e símbolos públicos, em especial. (Tendo como linha de frente o movimento denominado “black blocs” .

           O dia 7 de setembro de 2013 representou, pois ,  um acontecimento especial , dentro de um quadro geral de insatisfação nacional :  “Bombas, medo e feridos em desfile no Rio” ;  “Feriado de vandalismo e conflitos no DF” ;  “Forte aparato de segurança marca desfile de Dilma “.

                  O presidente da Câmara e o do Senado, como referido, e há um simbolismo nisso ,  faltaram ao desfile, assim como os do Rio de Janeiro  –   “Protestos ofuscam desfiles “; “ Mascarados enfrentam PM  e fazem quebra-quebra : mais de 200 foram detidos em 12 capitais “ (O Globo, 8-9-13).

             Os gritos das ruas, em resumo  : “Renan safado, sai fora do Senado “; “Mas, que vergonha, a passagem tá mais cara que a maconha” ; “Impunidade, a mãe da corrupção” .

                  Em  Belo Horizonte ,  populares chutaram um relógio que  marcava a contagem regressiva para a Copa do Mundo “ .

               De outro lado, mais ou menos nesses dias de comemoração do 7 de setembro, noticiava-se o maior déficit da balança comercial, desde 1995 – 3,7 bilhões de dólares; o aparecimento do famoso Major Jacarandá,  torturador , na Comissão da Verdade no Rio, lépido ,  solto , fagueiro , o que assustava alguns dos torturados do passado  . (O Globo, 10-9-13).(Cf. , neste  site ,artigos sobre as comissões e  desaparecidos ).

               Os jornais ainda trouxeram  nova manchete  –Brasil monitorado – Entre os motivos dos americanos , pré-sal, Irã, Bolívia e Venezuela “(3-9-13) .

               Provadamente, os americanos  monitoraram não só o próprio palácio presidencial como as mais importantes figuras da administração pública brasileira , sem contar os cidadãos em geral(até eles foram espionados)  e empresas como a Petrobrás . Em 1822,  como em 2013 , há a presença de estrangeiros interferindo em eventos próprios ao povo de um país realmente soberano. Nossa “independência” de 1822 envolveu a aceitação de importantes dívidas de Portugal com a Inglaterra e , ainda , a utilização de mercenários e canhões ingleses.

              Notícias publicadas nos dias  anteriores a 7 de setembro/2013    – “Transnordestina” , promessa inacabada ; “Êxodo de ONGS no Alemão”(“pacificação” não funciona);  Detran , RJ, criticado pelos motoristas (Jornais 23-8, 20-9) . Críticas, erros das administrações , insatisfação popular, mas soluções ou omissões vindas de cima para baixo  .

              Quanto à  situação econômica atual, desde que a daquela época ficou bem resumida ,desordem disfarçada  e regressão nos chamados “índices de desenvolvimento “.  Nos últimos 5(cinco) anos , o governo teria tido gasto  832 bilhões por conta dos problemas econômicos mundiais e locais – com utilização de bancos públicos, para turbinar os créditos, corte de juros e redução de impostos – cerca de 16,5% do PIB .

                  Além de terem sido  utilizados grandes recursos públicos para financiar empresas (a maioria estrangeiras ) através do BNDES. Ponto comum – a presença estrangeira na economia e, em 1822, através de mercenários ingleses. Mas, note-se que o famoso almirante inglês tinha o beneplácito evidente da Inglaterra – o que significa que essa “independência” , essencialmente  também promovida de fora para dentro, era aprovada e do interesse daquela nação .

                 Em 2013 , naqueles dias , na  Câmara dos Vereadores, RJ, seus proponentes sequer conseguiram  prosseguir, normalmente, com  uma CPI que pretendia investigar  a situação de transportes no RJ e as principais empresas concessionárias.  Uma questão econômica séria , para o estado , e uma das principais reivindicações dos manifestantes, no Rio de Janeiro  – o caos do transporte urbano.

                Vereadores governistas e a própria direção da Casa , de imediato, tomaram conta da CPI recém-criada , através da maioria que detêm (as famosas “coalizões governamentais” , hoje existentes em quase todas as câmaras legislativas ) . Assim, impediram  seu prosseguimento –  e a CPI não teve condições de avançar , mesmo com muitos  protestos populares,  dentro e fora da Câmara .(O Globo, 6-9-13).

                 Quer dizer, uma resposta das autoridades  ao contrário das reivindicações populares  – blindagem de suspeitos interesses e ganhos  dos empresários . Exatamente o oposto do que pretendiam os manifestantes – e , ainda, uma provocação  , desde que seguiram-se vários atos visando desestimular a presença popular na Câmara dos Vereadores e intimidar os manifestantes.

                                                                

        Proibição de máscaras em    manifestações

 [Foi aprovado , ainda, no Rio de Janeiro,  um projeto proibindo o uso de máscaras em manifestações políticas . E um dos principais argumentos seria que ,numa sociedade democrática, ninguém precisaria esconder o rosto. Ora, essa é a justificativa das mais fracas eis que , primeiro , a polícia  costuma retirar identificações e usa máscaras, em particular  aquelas forças especiais, fortemente armadas de poderosos  fuzis, coletes à prova de balas e metralhadoras .

                  E , além disso ,  as polícias brasileiras têm por hábito identificar , seqüestrar e sumir com pessoas. Nos últimos meses ,  aconteceram  dois casos emblemáticos – o do pedreiro Amarildo, levado por policiais e “desaparecido” até hoje ; e  o de um professor universitário , sociólogo, sequestrado após algumas declarações à imprensa, ameaçado , levado por mascarados e , depois  de intimidado, solto no Aterro da Glória, RJ . . O que se não justifica qualquer violência, justifica que os jovens manifestantes tenham medo dessa polícia brasileira , responsável número um pelos crimes , no país.E que tentem protegerem-se , escondendo identidades] .

        No mesmo sentido , dados sobre a economia  , não negados pelas autoridades administrativas , mostram a continuidade , na ordem do dia , de problemas  que  perseguem  a Nação há  séculos, tanto em 1822, como atualmente, 2013 . [ Cf. Reinaldo Gonçalves, “O Brasil negativado “; neste  site, “A província sob direção …”, I-V ,  dados e referências . Entre eles,a dívida pública (a maior parte relativa a credores – bancos estrangeiros ) ].

                4 .  1822 –  o “formal” longe do “real”

            

         As idéias de revolução , democracia e independência chegaram ao Brasil “…geralmente de forma clandestina, em publicações contrabandeadas ou reuniões de sociedades secretas , como a maçonaria.(…)”(Ib.)

            Foram essas idéias, vindas de fora, que estiveram por trás da “…Inconfidência Mineira, da Revolta dos Alfaiates  na Bahia, da Revolução Pernambucana de 1817, da própria Independência, em 1822, e de inúmeros outros movimentos de rebelião regional, como a Confederação do Equador , em 1824.” (L.Gomes, id., p. 27/28 ).

              Todavia, o centro político brasileiro encontrava-se bem longe das províncias , como Bahia, Maranhão e outras . E , claro , as dificuldades de transporte e comunicação eram imensas.

               A Independência , em si , portanto, vai ocorrer , inicialmente, num centro restrito de poder . Depois, ampliando-se, gradativamente, e tendo repercussão e participação popular , consumados os fatos –  em geral, favoráveis aos nacionais.

             Mas – como vimos, e a Constituição de 1824 o comprova, essa independência não vai abranger  os direitos fundamentais e individuais consagrados nos EUA e Europa. Vai produzir um sistema normativo falho , limitado, verdadeiro mostrengo jurídico , se comparado  com  direitos já consagrados em outras partes .

               O que  acaba por apresentar  um quadro que retrata  realidade  distorcida –  e a ela vai corresponder, contraditoriamente  – é  a realidade do Brasil daquela época , formal e real distanciando-se muito .

               Afinal , uma  Constituição  que copia artigos da francesa , em especial , mas que refere-se a uma realidade muito  diferente  – zelosamente , garante a monarquia, a escravatura, a falta de segurança individual  e até a tortura  .Afinal , bem representando o Brasil de então . No caso,   como não lembrar o sociólogo Francisco de Oliveira e seu  estranho  “ornitorrinco”,  animal dos pântanos australianos , que ele compara ao Brasil ?

               Uma Independência , que  não é do conjunto “nacional” , que só mais tarde busca-se trazer para ela. Em alguns lugares ,  sem qualquer luta , embora tenha havido  diversas rebeliões antes e depois de 1822 , lutas que , num sentido amplo,  fazem parte da Independência.

             Revoltas , muitas locais, a maioria talvez causadas, ao fundo , por razões financeiras  muito mais que por ideais políticos – o Brasil,  de então,  era um país miserável , com um exército mal pago ou não pago, sem sapatos ou botas, usando  , em muitos lugares, espingardas de “matar passarinho”.(L.Gomes, ib.).

             “Resulta daí que a Independência se fez por uma simples  transferência pacífica de poderes da metrópole para o novo governo brasileiro . E na falta de movimentos populares, na falta de participação direta das massas neste processo , o poder é todo absorvido pelas classes superiores da ex-colônia , naturalmente as únicas em contato direto com o  Regente e sua política . Fez-se a Independência praticamente à revelia do povo ; e se isto lhe poupou sacrifícios, também afastou por completo sua participação na nova ordem política. A Independência brasileira é fruto mais de uma classe que da nação tomada em conjunto . “(Caio Prado Júnior , “Evolução Política do Brasil”, Brasiliense, 1969, SP, p.48).

              Inglaterra, senhora dos mares e do mundo

              A independência de 1822 tem  características que repercutem, ainda, em nossos dias – ela se dá em relação à metrópole portuguesa e , não , como um ato de autêntica soberania nacional – eis que Portugal encontrava-se sob efetiva dominação inglesa.

                Entenda-se, por exemplo  : “O soberano permanecerá no Rio de Janeiro sob a guarda de uma divisão naval inglesa, aí estacionada permanentemente; e na Europa , serão os ingleses que se incumbirão de dirigir a luta contra a ocupação francesa. Um general inglês, Bereford, será o comandante supremo do exército português e o efetivo governador do Reino libertado em 1809.”

              Quer dizer , essa era a situação quando da vinda da família real para o Brasil (1808) e  permaneceu, em boa parte , a mesma , quando da independência.

                 O Brasil não tinha mais como senhores os portugueses  : “Com a abertura dos  portos brasileiros e a concorrência estrangeira, sobretudo inglesa, contra a que Portugal não se achava em condições de lutar, estava abolido de um golpe o que havia de realmente substancial na dominação metropolitana. Daí por diante esta se pode considerar virtualmente extinta.”(refere-se ao Brasil em relação a Portugal).

               E essa situação vai até  agravar-se  com o tratado de comércio entre Portugal e Inglaterra , 1810 , que quase exclui Portugal do comércio brasileiro . (Caio Prado Júnior, “História Econômica do Brasil”, Brasiliense, S P , 1972, p.128) .

                           

          5 . Século XX , década 50 –  e a independência

 

              Aproximemo-nos de nossos dias . A partir da década 1950 a soberania brasileira, sempre limitada e condicionada ,  sucumbe  , gradativamente  , e a partir de 1964, de forma abrupta.

                JK (Presidente Juscelino )  – “…a política de desenvolvimento de Juscelino Kubistchek estabelecia as condições para a proeminência econômica do capital oligopolista multinacional e associado. As relações internas do Brasil nesse momento eram o resultado de uma combinação “original “ e mesmo sui generis , a saber, a convergência de classe populista e sua forma de domínio interagindo com o capital monopolista transnacional.” ( R . Dreifuss, “1964 – A conquista do Estado” ,  Vozes,RJ,1981,p.34) . (Atenção – todos os grifos, cores, etc. são da Redação e não dos autores).

            Esse autor comprova que já  no governo JK havia uma administração paralela , no Brasil : “para produzir diretrizes que levassem à sua consolidação econômica. Juscelino Kubitschek proporcionou essa estrutura.  Os interesses multinacionais e associados tiveram de procurar outros fatores apropriados. Com efeito, com a implantação do seu Plano de Metas, e como pré-requisito para a sua realização, foi criada uma ampla gama de organismos de planejamento e consultoria e comissões de trabalho , os Grupos Executivos .

               Eles formavam uma “administração paralela”, coexistindo com o Executivo tradicional e duplicando ou substituindo burocracias velhas e inúteis. Essa administração paralela, composta de diretores de empresas privadas e empresários com qualificações profissionais, os chamados técnicos, e por oficiais militares, permitia que os interesses multinacionais e associados ignorassem os canais tradicionais de formulação de diretrizes políticas e os centros de tomada de decisão, contornando assim as estruturas de representação do regime populista “(Dreifuss, ob.cit, p.35) .

               “A industrialização do Brasil seria integrada e absorvida por corporações multinacionais de acordo com a estratégia de expansão do capital global, sublinhando os novos graus de internacionalização, centralização e concentração de capital. O capital monopolista transnacional ganhou uma posição estratégica na economia brasileira, determinando o ritmo e a direção da industrialização e estipulando a forma de expansão capitalista nacional.”(Id, p. 62).

              “Em 1969, a “apropriação” da economia brasileira por interesses multinacionais era um fato consumado. Companhias multinacionais controlavam 37,7% da indústria do aço, 38% da indústria metalúrgica, 75,9% dos produtos químicos  e derivados de petróleo, 81,5%  da borracha , 60,9% das máquinas,

motores e equipamentos industriais, 100% dos automóveis e caminhões, 77,5% de peças e acessórios para veículos, 39,8% da construção naval, 71,4% do material para construção de rodovias , 78,8% dos móveis de aço e equipamentos para escritório (…) “(Id, p.62)(grifos sempre  nossos-Redação).

                O autor mostra para que serviu e para que serve, até hoje, essencialmente, o BNDES (antes BNDE ) : “…foi criado para dar apoio financeiro a investidores  privados. Os beneficiários dessa ajuda financeira foram, em sua maioria, companhias multinacionais, para cujo estabelecimento no Brasil o banco providenciava o apoio financeiro . O primeiro diretor econômico do BNDE foi Roberto Campos (…) (p.75)

     Estrangeiros dirigem, programam, decidem

               Em  1952, com o acordo militar entre o Brasil e EUA, a seção  516, deste acordo ,  expunha a necessidade de se encorajar “ a eliminação de barreiras e de se proporcionar incentivos para um aumento constante na participação da empresa privada no desenvolvimento dos recursos dos países estrangeiros …”

               O Brasil já se tornava  um “sistema e regime político

 penetrado “,    o que

   significava que era um país …

             … onde indivíduos não-membros de uma sociedade nacional participam diretamente e com autoridade, por intermédio de ações realizadas em conjunto com os membros da referida sociedade, da designação de seus valores ou da mobilização de apoio na defesa  de seus objetivos “.

( Carlos A .Astiz. Latin Americana international politics : ambitions, capabilities and the national interest of México, Brazil and Argentina”. (Cf. Dreifuss, obs.42, p.113, analisando interpretação de Connel-Smith e James Rosenau) .

                Atenção.Algo completamente anormal e que já afetava , profundamente, a soberania nacional tanto que teóricos estrangeiros já tinham identificado a situação , que merecia até estudos como os citados .

                Já no governo de Jânio Quadros  …

             “Importantes grupos econômicos multinacionais e associados, influentes associações de classe empresariais, e membros da  Consultec e o núcleo da ESG foram incluídos em seu ministério,  na administração pública e ocuparam os postos de comando dentro da hierarquia militar. A administração paralela de Juscelino Kubitschek tornava-se governo com Jânio Quadros “(Ib, p. 126).

               E a independência ?

                    Portanto, se já nas décadas 50/60 a situação da economia era essa , o que teria ocorrido daí em diante ?

                Uma reversão dessa situação , com a ditadura militar(?!), apoiada pelas multinacionais ? Ou um “aprofundamento” em sentido contrário ao  da independência nacional,  levado pelos  ” governos”  – já transformados em  simples administrações – que se seguiram ?

                Os governos , daí em diante, após a transição,  e nela,  e quando da volta à “democracia” alinharam-se ao bloco neoliberal mundial  .

               E a independência ?

              “[ Sarney ,   Collor, FHC ,Dilma / Lula(formalmente, com assinatura e tudo )  (este, com todo um teatro político anterior e posterior, fingindo-se , sempre e  ainda, de “esquerda”, tergiversando, contradizendo-se , fingindo , apelando para jogadas de marqueteiros e confiando no analfabetismo (completo e funcional) da maioria de seus eleitores .

              E, claro,  negando tal adesão .Fato que é inegável e que apenas  demonstra caráter antinacional  dessa decisão , a gravidade dela e o sentimento de culpa e traição que envolve aqueles que a lideraram e promoveram (A corrente lulista, Palocci, Dirceu, etc. levando , de quebra, o resto do PT e aliados , com o uso de fisiologismo, nomeações e… vocês sabem. O “mensalão” está aí mesmo, na frente de todos. 

                 Decisão que  tinha (e ainda tem) que ser escondida dos militantes políticos  e do povo brasileiro.(Até hoje, cinicamente, tal adesão é negada , enfaticamente, sendo acusados os “tucanos”, estes sim, de mantê-la. Ao menos,  até todos considerarem “consumados os fatos ” e conformarem-se, estilo democratas e socialistas de outros países  – a Carta aos Brasileiros, 2002, e o “mensalão”, em 2005, foram marcos, quando Lula entregou o que ainda restava de coerência para manter-se à frente da administrãção .

               Veja-se os sofrimentos de JK , a derrubada de Jango , a renúncia de Jânio – o preço de mínima resistência ) .Lula e Dilma  alinharam-se , comportados , à programação do Consenso de Washington.( Uma cartilha relativamente simples, inteligente, que tentava , dentro dos limites e interesses do sistema capitalista internacional, dar um caminho econômico viável  (embora amargo, apoiado em grandes dívidas, privatizações, sucateamento da infrainstrutura , das forças armadas, do próprio estado , genocídios – saúde, penitenciárias, controle de natalidade ) aos países menos desenvolvidos,  subordinados política e economicamente. ]

             E a independência ?

                  A“Carta aos Brasileiros”, assumida pelo PT, principal partido de oposição , à época ,  significou a adesão formal a esse programa estrangeiro,neoliberal  , tendo sido assinada por Lula, via Palocci e Dirceu . Depois de eleito Lula , assumida ,fielmente, pelo PT e aliados , já cooptados pelo bloco neoliberal mundial , e por outros partidos, numa grande frente , em especial após o “mensalão”.

                Consolida-se ,  politicamente , o domínio do “bloco neoliberal”  sobre a nação brasileira , via Estado , eis que Lula trazia, com ele e o PT,( o partido mais organizado) , movimentos  estudantis e sindicais e grande parte do operariado e classes médias brasileiras, entrando até no campo dos próprios comunistas (PC do B, que ajudava e ajuda a preservar a face à esquerda da administração subordinada ).

                PSTU, PSOL, etc. afastaram-se desse caminho, a duras penas, pagando grande  preço eleitoral . Afinal, Lula e cia, PT e etc. mantiveram além da face de “esquerda”, máscara enganadora, o firme apoio dos verdadeiros mandantes no Brasil – as corporações transnacionais e o bloco neoliberal mundial da qual fazem parte. Daí a arrogância e pretensão de Lula. 

             E a independência ?                      

                   O bloco neoliberal mundial , no Brasil, ganhou  , afinal ,  lastro popular, com Lula  (o que não tinha na época JK , Getúlio, Jango, ditadura , transição , Collor, FHC) . Por sua vez, o PT , para conseguir administrar , montou ampla frente partidária, expressando os diversos setores e frações das oligarquias nacionais e internacionais, corporações multinacionais à frente  .

                 Ou melhor, atrás e financiando a ampla frente partidária e política montada  , com essência neoliberal ,  apoiada no programa indicado pelo “bloco mundial”, englobando desde movimentos sindicais e um PC do B até uma FIESP .                          Que vitória do” bloco neoliberal mundial” !  E, embora no “mensalão” a  face policial  do financiamento do “bloco neoliberal” mundial aparecesse ,  claramente (ainda que escondida pelos interessados  ), nada a comparar com as malas  de dólares entregues pelo então presidente da FIESP ao General Kruel, de S.Paulo, para convencê-lo a apoiar o golpe militar de 1964, no dia chave , na presença de um coronel . (Cf. Caros Amigos, entrevista de João Vicente Goulart ) .

            E a independência ?

                       Não é à tôa que nem  mesmo  as grandes confusões e escândalos causados por Lula, PT e cia. , o que não lhe convém,  tenham mudado a decisão da maior parte do bloco neoliberal , no Brasil, em sustentar a administração petista. Parecem preferir  constinuar mantendo na direção da administração subordinada essa mesma frente e não outra, mais à direita, , mais próxima da “realidade”, menos escondida , envolvendo PSDB, DEM, etc. Esta ,  dificilmente, manteria apoios estudantis, sindicais e populares ao nível que conseguiu  o PT,  pós-Carta aos Brasileiros . Embora a Força Sindical , o Solidariedade e outros estejam a postos, para qualquer eventualidade.

                 E a independência ?

                 E a soberania popular ?

                 A independência nacional ?

                           Estão onde estavam,  em 1822  . Onde  sempre estiveram . Longe do povo brasileiro . Apenas conceitos formais . Tanto em 1822 como em nossos dias.

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               (*)( Fim da parte II . Continua III. Original não revisado o que não impede o entendimento. Há registros históricos   importantes,  a serem  estudados – detalhados ).

 

 

 

            

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