Sob o Império do Mal

set 21, 2019 by

Sob o Império do Mal

Editorial de Caminhando TV 26 ( artigo integral)

 

     Vivemos tempos sombrios, no plano internacional e nacional .Tempos sombrios , mas que face à maior democracia de um  passado ,  com mais transparência política , além de inúmeros estudos políticos e históricos , de lá para cá ,  permitem-nos entender o que ocorreu naquele passado , de maneira  mais próxima da verdade real , e o que ocorre hoje , podendo-se chegar  ao menos à parte essencial dos fatos, o que permite compreender antecedentes, causas , e resultados .

                           -I-

 

A Internet , os recursos digitais, se podem servir, de um lado ,  para fake news ,  de outro ajudam a desnudar, de forma implacável, fatos que antes poderiam permanecer na penumbra e no ocultamento.      

 

       É o caso das alterações políticas e econômicas, e até militares, ocorridas nos EUA , e no mundo, de dois séculos para cá , incluindo seus países satélites, alguns submetidos via golpes e invasões rápidas,  outros matanças , genocídios, massacres civis. Livros  de autores vários, inclusive de um premiado autor brasileiro, caso de Moniz Bandeira (“Formação do Império Americano” e “A desordem mundial”, em especial ) , atestam isso, acima de dúvidas e questionamentos, com fontes indesmentíveis .

 

                          -II-

 

Sob o Império do Mal

 O Império do Capital, todavia, hoje,  liderado pelos EUA, em grave crise estrutural . Estes, EUA , há muito , não mais são, politicamente, nem  aquela democracia  , nem aquela economia, da livre concorrência, de  uma sociedade democrática que um dia existiu, onde  …”o povo” … reinava  “sobre o mundo político americano como Deus sobre o universo (…) ele (o povo) a causa e o fim de todas as coisas; tudo” …saindo … “do seu seio , e tudo se absorvendo … nele”… – como lembrava Alexis de Tocqueville , em 1834 .(“A Democracia na América “).

 

       Os EUA  mudariam  , pouco a pouco , de essencial e poderosa democracia política e econômica exuberante, embora embrionária , evoluindo no sentido de um complexo industrial-militar , comandado por fortes corporações transnacionais,  líder  imperialista e  terrorista inédito , hegemônico , mundialmente. Capaz de liderar um bloco político e econômico de poder único ,  a utilizar  qualquer tipo de ação para manter tal  poder e hegemonia, inclusive incendiar vilas inteiras, exterminando “homens , mulheres e crianças e velhos”(…)Em Samar, Filipinas, por exemplo ,  mataram todos os habitantes com mais de 10 anos, queimaram 255 casas , (…) a população caindo de 300 000 para menos de 257 mil habitantes” – lembra Moniz Bandeira .

         Cometeram e ainda continuam cometendo , para manter aquele poder e posição , crimes inomináveis, quase inacreditáveis , sem qualquer piedade ou sentimento de humanidade , desde uso de bombas atômicas sobre civis desarmados, em Hiroshima e Nagazaki , 1945, ao fim de uma guerra vencida .

           Invadiram dezenas de países, promoveram massacres e golpes, assassinatos e sequestros , criaram o mais poderoso serviço de informações secreto do planeta, a CIA, em 1947  – logo depois serviços não só de informação , mas  de execução  de todo tipo de ações necessárias à consolidação  do poder do Império do Capital , liderado pelos EUA.  

 

         O que significou  também a execução de sequestros, golpes, matanças, armadilhas, farsas políticas, provocações ,  em toda parte, qualquer lugar do mundo , inclusive na América Latina, com milhares de mortos ;  na Indonésia, 1965 ,  por exemplo , centenas de milhares de mortos , com o uso , além de militares, de milícias privadas , isto  além dos torturados, aquele  país irrecuperável e destruído até hoje, 50 anos depois  .(Joshua Oppenheimer retratou a queda da democracia lá,  em notável e singular filme , aberrante mesmo :”O Ato de Matar”).   

  Resultado de imagem para guerra nos estados unidos        Fizeram muito mais na sua sede implacável de poder mundial . Jogaram napalm e queimaram milhares de pessoas no Vietnan  e invadiram e massacraram a Líbia, Iraque, Afeganistão , entre outros . Quanto ao Iraque, o mundo , confortável , assistiu,  dos sofás de suas casas , aos bombardeios americanos que matavam ,  aleijavam, destruíam uma velha civilização , esfrangalhada até hoje . A popularização desses assassinatos, sequestros, bombardeios , massacres, os povos do mundo insensíveis, até  em filmes tomados como “heróicos”, retratando agentes da  CIA, por exemplo, a cometerem os mais diversos crimes, ou soldados americanos a massacrarem  e estuprarem populações civis humildes, do outro lado de seu mundo americano  , sem reação à altura dos povos e nações , numa continuidade crescente, o que significa ?

         Talvez em curso aquela antiga “banalização do mal” percebida por Hannah Arendt , nas ações nazistas , contra os judeus em especial , antes e durante a Segunda Guerra Mundial, agora multiplicada , internacionalizada  ?(Arendt, H. “Eichman em Jerusalém “).

          De um lado , burocratas frios, seguindo “ordens , sem refletir sobre elas”. De outro lado , pessoas , massas populares  também sem nenhuma capacidade de reflexão crítica , ou intelectual , sobre os fatos em curso. O que as teria tornado assim ? Por que tal tipo de omissão , insensibilidade , frente a fatos evidentes, inclusive por parte de líderes judeus em relação a seu próprio povo ? A percepção de Arendt , até hoje, é motivo de muitas discussões . E provocará mais ainda se levada a nossos dias, indo muito além do ocorrido com o povo judeu – pois tem acontecido com povos de toda parte , havendo o agravante de uma perceptível impunibilidade .

       

      As ações americanas ocorrendo sem  nenhuma aprovação da ONU ou sequer regularidade  em termos da legislação americana. Guerra provocada sob falsos motivos, de forma inconstitucional  e manipulada, do interesse econômico  de corporações transnacionais americanas , já obra conjugada delas e do estado nada democrático americano de nossos dias, um estado de exceção . Esta forma  de atuação imperialista americana está , em nossos dias, sendo modernizada , por estratégia e táticas diversas, já expressas em livros e por estrategistas do porte de um Bannon .

 

      Este o “modelo democrático” para o  Brasil, que , quando não em condições de guerrear , quem quer que seja, pelo estado de falência e crise geral, fica a  ameaçar uma Venezuela, sob coleira do Império Americano , e talvez depois , de novo a Síria, quem sabe o Iran , ou a Bolívia ou Equador, ou Cuba ?

 

Tal situação não está longe de nós . Dezenas de crianças assassinadas em invasões de favelas, no Rio de Janeiro, por “engano”. Sem contar homens e mulheres , sempre sob a desculpa de que policiais militares foram atacados por “traficantes”. São dezenas de mortes por dia , havendo até sites localizadores de tiroteios para ajudar os cidadãos trabalhadores. (“Onde há tiroteio?” e outros , Brasil, RJ).

 

         Tantos países e crimes,  do Império do Mal,  que levaríamos  horas para citá-los .  Internamente, os EUA consolidaram um estado de exceção informal , tendo ao fundo o famoso complexo industrial-militar , uma anormalidade  denunciada por Eisenhower, década de 1960 (Cf . “O governo invisível”, de Wise e outro) . Situação tão evidente que , hoje,   aparece  como enredo de filmes como “Vice”, de Adam McKay , onde é  mostrada , com nomes e dados e formas ,  a ilegalidade da guerra do Iraque . Assim  como a eleição de Bush filho como  Presidente , entre outros ilícitos .

                                   -III-

Quanto ao Brasil, país frágil,  política e militarmente, os EUA dedicaram séculos de exploração , corrupção , golpes explícitos e implícitos, armadilhas políticas . Nenhuma ajuda efetiva . Tempos mais remotos, Eduardo Prado mostrou isso em “A ilusão americana.”Mais recente,  Moniz Bandeira , em “Presença dos Estados Unidos no Brasil”, lembrando  que a  República teria surpreendido a todos, “exceto aos americanos”. Uma República que Floriano sustentou com uma esquadra americana atirando dentro da Baía de Guanabara e que se chamou , desde logo, “Estados Unidos do Brasil”, o que fala por si.

          Noam Chomsky chegou a lembrar os potenciais recursos brasileiros , ponderando , todavia, que o país …“ teve a maldição de ser parte do sistema ocidental de subordinação”.(“Para entender o poder”, colet.).

                         -IV-

 

Trata-se, sim ,  de um Império do Mal, mal, negação  do bem , até  Diabo mesmo ,  no sentido político e jurídico,  terminologia de Hannah Arendt , cujas garras atingem aqui desde autoridades políticas  de alto nível ao  povo  simples – caracterizada a “banalidade do mal”, a avançar em doses  crescentes .(Ob. Cit. , ib.).    

 

       Autoridades, funcionários servis, burocratas prontos a obedecerem  quaisquer vozes imperativas , incapazes de refletirem sobre seus atos , condicionando pessoas a não pensarem e massas a não fazerem julgamentos morais. De outra parte, líderes a mentirem , enganarem , invocarem Deus, falsamente,  a todo momento , ameaçarem , a um e outro e à coletividade , no modelo fascista consagrado pela história e retratado em  estudos , como os da autora citada . Esta perscrutou detalhes da ação tanto de um Eichman como de um Hitler, bem sucedidos  certo tempo, afinal  um acabando enforcado, enquanto o outro suicidou-se , a Alemanha arrasada . Estudos e programas políticos teriam sido retirados desses fatos históricos e hoje levados a líderes populistas da atualidade, como métodos de ação rumo ao poder , instruídos e ancorados nos recursos do  Império Americano ?                                       

                           -V-

 

          Aparente,  destaca-se , no Brasil,   uma ação bem programada , com base indireta também no  acima exposto ,  em curso, tomando as pregações alt-right americanas , via Bannon , Streitbart , Carvalho e outros brasileiros .

       Ela envolve desde  ignorância à  mentira, educação e história deturpadas, lições históricas como as citadas, adaptadas a interesses conjunturais, na essência apoio financeiro, logístico , do Império do Capital . Mais apelo a religiões, com citações e imagens sucessivas de Deus , pastores , santos , somadas com xingamentos, palavrões , desqualificações , boçalidades , ameaças. O que parece confuso e disperso tem uma sistemática com lógica interna. Busca-se, no caso ,  conquistar , de preferência,  quem tenha fé religiosa, por pressuposto mais fácil de admitir também uma “fé política”, isto é , um programa incapaz de ser comprovado na práxis ,   seja qual for ele , mesmo que num modelo nazista ou fascista ou totalitário , o que parece ser o caso . Uma decisão ou opção sem  reflexões prévias , perspectiva crítica, intelectualizada , após informações fidedignas  .

         Ora, reconheça-se , se tal  “deu certo” para a conquista do poder ,  na Alemanha e Itália, entre outros países,  burocratas e massas populares anestesiadas politicamente e insensíveis, por que não daria certo aqui, no politicamente selvagem , frágil, inseguro Brasil  ?

 

            O terreno parece  estar sendo arado nesse sentido, antes no período eleitoral, agora pela própria nova administração vitoriosa .Basta lembrar, como o jornalista Bucci , que a mais alta autoridade nacional , sob juramento constitucional , atenta , repetidamente,  contra ele,  enquanto  a sociedade …”finge que nada existe de anormal …”.(Estado de São Paulo, E .Bucci) .

        Poder-se-ia dizer que  , a “banalidade do mal”  se alastra  e consolida,por aqui,  no sentido de Arendt?

 

                         -VI-

 

Sob o Império do Mal

 

 

No Brasil, aparente , uma orquestração  organizada e financiada por estrangeiros, como Bannon /Straitbart , Trump, Império do Mal , vinda direto dos EUA , via You Tube/Internet . Por meio de  quem ?

     No caso, também por  auto-intitulados filósofos, que aconselham seus adeptos a não discutirem idéias ou conteúdos, mas logo desqualificarem , boçalmente,  todos os que deles divergirem . A terem , de outra parte , fidelidade servil não às idéias , embora todas conservadoras, mas que podem variar , mas, sim ,  aos líderes populistas. Tais “filósofos” dão até exemplos . Carvalho, por exemplo, ele  próprio , ofende ex-aliados, que seriam “traidores”,  caso de deputados federais , um mencionado  como “katacôco”, ou algo assim,  outro como “Alexandre Fruta”. Baixarias sem limites . E elas vindo desde a mais alta cúpula da República aos anônimos das redes sociais as mais simples .

            Esses tipos de aberrações e ações políticas, que tem precedentes históricos, já levaram à morte milhões de pessoas pelo mundo , por trás delas sempre escondidos  elevados recursos financeiros . (Itália e Alemanha, década de 1940, culminando em guerra. E , p.e.,cf. “Harendt, H., “Sobre o totalitarismo”).

 

                          -VII-

 

No Brasil , assistimos tal processo atingindo  a coletividade  nacional, a violência tornando-se cada vez mais trivial , pensamentos vazios substituídos por xingamentos , desqualificações, mentiras.

 

     Trata-se , provável , da perversão política e cultural , ignorância ao fundo , premeditadas , programadas, de massas a serem tornadas incapazes de julgamentos morais , pensamentos livres . Capazes, por isso ,  de aceitarem e  cumprirem quaisquer ordens , sem questionamentos . O apelo concatenado, nos EUA , aqui e em outros países, às religiões, os métodos de debate e retórica similares, o Império Americano e sua enorme estrutura industrial-militar por trás , a agressividade , a busca do populismo, os líderes americanos e seus relacionamentos aparecendo em vários países,  e por aqui , entre outros dados, indicam as origens dessa premeditada programação, estratégia de poder determinada, com suas táticas em curso .

           E , ainda , pode-se imaginar a extensão da  ação dos serviços secretos americanos, ingleses, israelitas e outros , e as verbas por eles despejadas para viabilizar esssa estratégias. Isso sob os aparentes desorganizados e inocentes movimentos populares (apoiados em jovens , em especial, o que se viu nas “primaveras árabes”, recente em Hong-Kong, nas passeatas de 2013/2014 no Brasil , etc.) .                             

                         -VIII-

 

No caso do Brasil, tal tipo de ação  foi claramente desvendado e exposto em livros como “A Nova Direita”, de Flávio Casimiro , e , no plano mundial,  por autores como A.Korybko, que mostrou que já de décadas o  Império Americano testava e colocava em ação  novo tipo de estratégia e táticas.(“Guerras Híbridas”). Que, ainda em nossos dias, continua causando surpresa a muitos brasileiros.

    

      Evidentes as origens dessas  estratégias , e seu desdobramento em táticas diversas , que não invalidam as antigas , mais tradicionais, do Império do Capital. Este , gradativamente, esbarrando em  insucessos econômicos (inclusive com o crescimento da rival China, que virou a globalização a seu favor ) e militares (Venezuela, Síria, Coréia do Norte , Iran, etc., países aliados a outros, com poder nuclear ) . Além disso, sofrendo evidente derrota ideológica, pois sem argumentos , atualmente, para defender-se, eficazmente, pelo fracasso  das “democracias liberais” frente ao grande capital,  em sua fase imperialista (cf. Ellen Wood, “Democracia contra Capitalismo” e “Império do Capital”).(Aqui, não analisamos os problemas  críticos do sistema imperial capitalista , aquele seu metabolismo social em crise, bem exposto e resumido  por Isztvan Mezáros(Cf. no site caminhandojornal.com , página inicial, coluna esquerda , exposição na voz dele próprio). Tratamos de outros aspectos da questão, embora as contradições internas do Império, sem saídas fora guerra e expansionismo ,de longa data,  sejam as causas essenciais de sua crise permanente , que chega a  nossos dias).

         Restavam,  ao Império do Capital, ameaças e guerras propriamente ditas , embora de efeitos mais do que duvidosos e , por vezes,  mesmo mal sucedidas , o que tem-se visto  nas últimas décadas. Era, pois ,  hora de mudar,  radicalmente , não  a grande estratégia americana , mas estratégias e táticas – com atenção especial  para a luta ideológica.

        Não mais conseguindo o Império esconder-se atrás de mentiras sobre direitos humanos e democracia, e , por isso , sustentando-se apenas em propaganda vazia e sem sentido , cada vez mais contestada pelos fatos à mostra  de todos,  a solução restante  seria uma saída com forte ataque ideológico generalizado,agora com “guerras híbridas”e treinamento maciço de quadros conservadores jovens (via financiamentos, cursos, escolas, Ongs, associações );   (cf. a profusão  delas, no Brasil, em Casimiro,F.,id.).Isso, por certo, com mais financiamentos, bolsas de estudo, relações acadêmicas, apelos a religiões e seus líderes, etc. Tal “programação”  serviria não só para a matriz imperial como para aliados e satélites do Império(Cf. Brexit, na Inglaterra;  e o que ocorre no Brasil e Hungria,com Bolsonaro e V.Orban). Agora, com uso de táticas mais agressivas, recorrendo-se à formação maciça de quadros conservadores e intervenção decidida no terreno religioso, eis que, se há fé religiosa,  esta seria  o caminho mais fácil para divulgar-se a fé política , com prévia desqualificação agressiva dos eventuais discordantes . Estes trazidos para um terreno ideológico  religioso com o qual  nunca souberam bem lidar, com raízes profundas e heranças que vem de séculos . A religião , sentido  amplo, emnossos dias,  mais uma vez unida/manipulada pela política,  desta vez como tática  bem promovida, modernizada  , organizada e , por certo, regada a dólares .

            Basta ver um Steve Bannon em ação , mais herdeiros diretos do Breitbart , com ligações com a alt-right americana e até cercanias do Vaticano , atuando desde a Itália aos EUA (via neocons, chegando à Klan ).E no Brasil(observe-se a ascensão dos Bolsonaros e as andanças religiosas do chefe, declarado católico,  tomando bênção do Bispo Macedo e outros) e Hungria , entre outros países , bem instalados em lugar chave não longe de Roma, Vaticano , coração da Europa e dos acontecimentos mundiais , área chave.Isto numa perspectiva geopolítica , que visa   poder mundial, com foco também na  Eurásia.

    Bannon já fez e faz história, reconheça-se ,  e se  instalou em lugar mais “chave”, naquele sentido geopolítico, hoje, do que New York ou Washington.

                                   

                           -IX-

           O Império do Mal produz e produzirá ou terra arrasada por bombardeios e mortes ou “democracias” falseadas , por propinas e financiamento estrangeiro, por isso elas  fracas e  antecipadamente fracassadas. Agora, visa novo tipo de sociedade, da qual a nazista  parece trazer  parcial modelo , seja na forma de ascensão daquele movimento, na sociedade alemã,  seja pelo silêncio  dela , que “tudo”(violências, massacres, ataques a judeus,etc.)assistiu, essencialmente omissa,  calada –  e , em seguida, acabou por aprovar os métodos hitleristas . O fato  dela ter sido , tão rápido, relativamente mal sucedida, via guerra , pelos exageros de um Hitler e erros básicos dele , como  abrir dois frontes de luta (URSS e Aliados ) , não  muda certos pontos fundamentais e lições a serem retiradas daquele período e  regime, vitorioso até certo ponto do exercício do poder poder, independente dos meios usados – (a)sua forma de ascensão,  via “democracia” , capitalista , logo o ” estado democrático formal”  convertido em estado  de exceção  informal e implícito (antesala do nazismo) (Cf. Agamben, “Estado de Exceção”); e (b) a aceitação ou omissão da sociedade, em geral,   , seja por parte da burocracia estatal como da sociedade, quanto aos crimes dessa e  daquela .O  que Arendt chamou “mde “banalidade do mal”, “fenômeno” estudado por ela (e por certo por estrategistas americanos de porte , como se vê nas novas táticas que hoje empregam, provável usada nos casos de Trump e Bolsonaro eleitos , entre outros ), todos apoiados, servilmente, por seus adeptos, em que pese as barbaridades defendidas por eles e atos praticados  , moralmente , indefensáveis.

    Ou seja, o fato é que a contrariedade deles à ética dominante , valores cristãos inclusive, os atos por eles praticados – mentiras, defesa de violência, exaltação de torturadores,no caso do brasileiro, etc. – não os fizeram perder o apoio de seus “núcleos duros” nem de grande parte da massa popular. Muito menos , por isso, serem retirados ou obrigados a retirarem-se dos principais palcos  do poder político .

 

                              -X-

 

           O Império Americano, Império do Capital, e justificado Império do Mal, sempre  sem punição, embora tenha atentado , nas últimas décadas , muitas vezes , contra toda a legislação internacional, a começar pelo descumprimento da Convenção de Haia, sobre a guerra, em 1945 , quando  bombardeou , armas atômicas, Hiroshima e Nagazaki, matando centenas de milhares de pessoas. População  civil, sem qualquer necessidade nem justificativa –  crianças, velhos, mulheres – o Império sequer sendo julgado  porque, como assinalou Arendt, aquele tribunal penal não era isento, tratava-se apenas da justiça dos “vitoriosos”.( Ib., “Eichman …”, ob.cit.).

       O Brasil já tem  tradição em tudo antes descrito.Recorde-se o caso da anistia para crimes hediondos, contrariando regras internacionais(o que coloca o país no rol dos “estados fracassados”,segundo entendimento internacional e autores como Chomsky, “Estados Fracassados”); centenas de “desaparecidos políticos”, casos,   até hoje, sem esclarecimento ; dezenas de mortes de jovens , rendidos, no Araguaia, década 1970 ;Cf. livros como  “A Casa da Vovó”, “Araguaia”,“As ilusões armadas”,etc.);milhares de assassinatos , número maior do que países em guerra ; penitenciárias indignas de  seres humanos ;  torturas disseminadas pelas repartições dos órgãos de segurança pública ; hospitais e até barragens mortais .

          Quer dizer, por aqui,  adptando-se as lições de  Arendt ,  a “banalidade do mal “,linhas gerais ,  a aceitação , por aqui, de barbaridades anti-humanas,  por burocratas da máquina repressora e pelo povo em geral,  foi , talvez , tão longe quanto na Alemanha pré-hitlerista e , ao menos ,nos primeiros anos do nazismo .

        O que significa que , para estrategistas em ação,  pensando a situação  política brasileira , tais dados podem ter sugerido uma conjuntura favorável ao desenvolvimento daquela nova política do Império do Capital , por aqui . (apoiada em conservadores, religiões, Ongs , ameaças, mentiras, golpes, armadilhas, possível urnas fraudadas, manipulações de redes sociais , financiamentos de políticos e massas populares nas ruas e, por certo, violência dirigida , sendo sugestivo o caso do assassinato da vereadora Marielle).

    Ora,já viramos algo similar no sentido descrito , no Brasil, no caso dos movimentos   MBL, Vem para a Rua e outros(Casimiro,F.,ib.).Eles atuando  , numa primeira etapa , pré-eleições, até  a conquista da administração pública (o que ocorreu com Bosolnaro). Daí,  uma segunda etapa em que já utilizam o aparato estatal conquistado, inclusive o militar , parte de um estado  de exceção informal, para avançar no sentido de novo tipo de sociedade,  sob liderança populista militarizada, mais totalitária que apenas autoritária, com amplo controle elitista estatal.Isso  via medo e crescente máquina repressora; mídia tradicional ; produção de quadros políticos conservadores jovens ; domínio da Internet/redes sociais (até porque eles  já detém controle estatal/social , neste momento , capazes, pois, de assimilarem informações, paralisarem comunicações, analisarem dados, localizarem pessoas ,identificarem grupos de pensamento similar, inclusive a situação deles, etc. ).

    De fato , vislumbra-se, aqui e alhures , aspectos dos livros de Orwell , G. , “1984” ou do “Admirável Mundo Novo “, de Huxley, A.

  

                          -XI-

 

Esse processo político citado , provável, estaria em curso no Brasil e outros países, ainda em forma de testes, avaliação , experimentos, já com alguns resultados positivos, o que mostra o caso de Trump, Orban , Bolsonaro , além de  partidos e líderes italianos, entre outros.

    Aqui,  ocorrendo  sob direção e responsabilidade de elites sociais comprometidas com interesses estrangeiros , que vem-se dedicando , por  décadas,  a esconderem  as mazelas brasileiras, seja do povo ou mesmo daqueles interesses alienígenas citados, por tal ser desinteressante aos locais . E isso ocorreu e continua ocorrendo sob silêncio e omissão da maioria do povo , submisso ,  desorganizado , possuído de fé religiosa , e até de  política, o que seria desejável para tal tipo de projeto , mas, infelizmente, não para os interesses próprios dele, povo , com   pouca ou nenhuma noção de cidadania  .

   Pois bem – agora , esse povo ainda é alvo de  descarada campanha de propaganda , origem estrangeira,  que visa consolidar  procedimentos anti-cidadania, como os citados, numa solidariedade à maldade em curso – ou seja, busca-se ainda mais “banalização do mal”.

                               

                           -XII-

        No Brasil ,  o que é revelador , e boa síntese do mencionado , é  já termos , na Academia Brasileira de Letras , tanto  um  Getúlio Vargas,   como um  General Aurélio Tavares , ambos omissos,  ou protetores mesmo,  das mais abjetas torturas – e sem deixar qualquer  importante legado literário, muito ao contrário.  Mas, eles lá estão , e sem contestação , por décadas – nem por parte dos próprios membros da Academia, passados e presentes ,  nem por parte da sociedade ,em geral. Sequer dos eminentes próceres da big mídia, alguns até membros daquela Academia .

          Ora, como interpretar isso , senão entendendo que aquela “banalidade do mal”, por aqui,  já teria ido  muito longe, embora silenciosamente,e mascarada , chegando aos mais diversos lugares, e segmentos sociais , inclusive àquela  intelectualidade , segundo Arendt ,capaz de refletir sobre atos anti-humanos e a  tal  “banalidade” do mal .

     Tal nos teria levado a duvidar daquela capacidade de reflexão dos intelectuais . Isto é, a  ir além da percepção de  Harendt .

    Seria possível aquela “banalidade do mal”  ter ido além de classes, extratos , setores, ao menos no caso brasileiro, atingindo a quase todos , sem distinções de classes, cargos, posições ?

           Observe-se que trata-se de pessoas que, hipoteticamente, teriam prestígio social e canais de comunicação em condições de permitir-lhes mudar certa situação social , se organizadas, em especial ( Veja-se o antigo caso Dreifuss, na França)– e não o fizeram . Ora,  não importaria  listar  as razões delas, em seu conformismo, sejam ambição,  desejo de ascensão social, medo ou outras.

    Elas parecem agir , similarmente, aos judeus antes citados , que não reagiram  aos ataques recebidos contra seu próprio povo ,  inclusive as lideranças deles, na Alemanha de 1930.Ou aos alemães, àquela época , que assistiram discriminações e ataques aos judeus e opositores, sem reagirem ou tomarem qualquer posição.Ou aos brasileiros quase  atualidade que assistiram , passivos, aos massacres da década 70, nas cidades e no Araguaia, protegidos pela big mídia e intelectuais.Ou, ainda  , atualmente, à  estranha ascensão  dos Bolsonaros , omissa aos absurdos que pregam e suas ações aparente destrabelhadas , mas dentro de lógica e de estratégia inteligíveis , como antes mostrado .

        Por isso tudo , nesse ritmo político em que toca a música ,  ninguém se admire caso ,  em pouco,  assistirmos , na ABL , e muito homenageado ,um torturador famoso ainda vivo ;  ou , então , aquele tão  citado por Bolsonaro  – o   Coronel Ustra . Quem sabe, em breve, e sem reação , a famosa “ Casa de Machado de Assis” teria novo nome – “ Casa do Heróico Coronel Ustra.” (Possível. Afinal, o militar escreveu , ao menos, um livro. E a palavra “heróico” apareceria por conta de nova retórica oficial e  novos tempos ).

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(Original  não revisado, o que  não impede entendimento ).          

     

 

 

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